MULHERES
17/01/2018 13:21 -02 | Atualizado 17/01/2018 15:39 -02

Monica Lewinsky: Do estigma da 'estagiária do presidente' à luta pelo fim do linchamento virtual

A ex-estagiária da Casa Branca se tornou inimiga dos EUA quando seu caso com o ex-presidente Bill Clinton veio a público há 20 anos.

Uma foto rara divulgada pela Casa Branca mostra Monica Lewinsky ao lado do presidente Bill Clinton, em setembro de 1998.
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Uma foto rara divulgada pela Casa Branca mostra Monica Lewinsky ao lado do presidente Bill Clinton, em setembro de 1998.
Quando eu tinha 22 anos, me apaixonei pelo meu chefe. Aos 24, tive de lidar com as consequências devastadoras.

Foi assim o início da fala de Monica Lewinsky em seu TED Talk de 2015. A ex-estagiária da Casa Branca se tornou a inimiga número um dos Estados Unidos quando seu caso com o ex-presidente Bill Clinton veio a público em 17 de janeiro de 1998, há exatos 20 anos. O democrata chegou a ser alvo de um processo de impeachment por causa do escândalo, mas se manteve ileso e conseguiu terminar o mandato com alta popularidade. Enquanto Lewinsky foi igualmente exposta, colocada sob o estigma de "a estagiária que transou com o presidente" e pagou o "preço da vergonha", expressão que virou título de sua palestra.

Ela explica as consequências devastadoras: "Do dia para a noite, eu fui transformada de uma figura completamente privada para alguém publicamente humilhada em escala mundial", afirma no TED que já teve mais de 5 milhões de visualizações. À época da palestra, com 41 anos, ela veio a público e descreveu o impacto definitivo que a internet teve em sua própria história. Para ela, além do noticiário corriqueiro, "este escândalo chegou a vocês por causa da revolução digital" ainda nos anos 90.

Handout Old / Reuters
Ex-presidente Bill Clinton em foto ao lado de Moniva Lewinsky, na Casa Branca. Abaixo, escritos que indicam que a foto foi dada de presente a ela no seu aniversário. "Parabéns, Monica". A foto serviu de evidência para confirmar o caso no tribunal.

Em 1998 as redes sociais não existiam. No entanto, as primeiras notícias do envolvimento entre o presidente e a estagiária foram divulgadas online. "Eu fui rotulada e vivi uma história em que tudo era construído com base em pouca realidade e muita ficção", disse Monica em discurso no Festival Cannes Lions, também em 2015. "E houve, como nunca antes, uma corrida para o julgamento, nas seções de comentários dos sites de notícias que já existiam à época e nos e-mails que circulavam sobre mim."

O escândalo sexual

As notícias que levaram ao seu linchamento público entraram para a história dos Estados Unidos. Em 17 de janeiro de 1998, Lewinsky, que tinha 23 anos à época, acordou conhecida por todo o país. Os rumores de que o presidente da época, Bill Clinton, mantinha um relacionamento com uma estagiária da Casa Branca foram confirmados, quando fitas nas quais ela contava a uma amiga sobre o relacionamento foram divulgadas pela imprensa.

À época, Clinton, que estava em seu segundo mandato presidencial, foi obrigado a se explicar e, ao lado de Hillary Clinton, sua esposa, ele negou o romance com Lewinsky. "Eu não tive relações sexuais com essa mulher, Miss Lewinsky", disse. Esta frase se transformou em um bordão quando, meses depois, detalhes do caso foram comprovados e divulgados, inclusive, em juri.

Segundo jornais norte-americanos da época, Clinton não só teve "relações sexuais" com Lewinsky, como o fez no Salão Oval da Casa Branca. A confirmação perante o juri se deu por Linda Tripp, amiga de Lewinsky e funcionária do Pentágono, que gravou as 20 horas de conversas enrtre elas e entregou as fitas ao procurador Kenneth Starr.

Starr levou o caso à Justiça e o presidente foi obrigado a confessar o relacionamento depois que a acusação apresentou no tribunal o vestido que Monica usava no dia da relação e que continha vestígios de sêmen. Sob o olhar de Hillary, Clinton admitiu ter mantido "relação física imprópria" com a estagiária – que teria sido apenas sexo oral.

Se sexo e poder movem o mundo, Lewinsky foi uma vítima da crueldade que os envolve - aliado ao início da internet. Em 1999, um ano após o escândalo, ela publicou o livro My Story (Monica Lewinsky: Minha história, em tradução livre para o português), em que deixa explícito que foi "vítima de uma armadilha", narra episódios de misoginia, seu massacre pela mídia e revela detalhes do momento em que foi obrigada a testemunhar perante um júri, revivendo os momentos íntimos que teve com o ex-presidente.

"Eu me senti como cada camada da minha pele e minha identidade foi roubada de mim entre 98 e 99", afirmou Lewinsky em entrevista recente ao The Guardian. "É uma espécie de esfolamento. Você se sente incrivelmente cru e assustada. Mas eu também sinto que a vergonha se adere a você como uma droga". Lewinsky ainda admite, na entrevista, que esteve "muito perto" de cometer suicídio. "Acho que muitos jovens não veem o suicídio como um fim mas sim como um recomeço", explica.

Diana Walker via Getty Images

Hoje, 20 anos após ficar conhecida e julgada mundialmente por um escândalo sexual, Lewinsky tenta mudar a narrativa imposta a ela e transformar a "vergonha" em algo positivo. "Eu realmente não sei por que essa história se tornou uma história sobre sexo oral", disse ao jornal The Guardian, se referindo à declaração de Bill Clinton à época. "Foi um relacionamento mútuo", completa. Nesta terça-feira (16) ela disse, em seu Twitter, que há 20 anos sobreviveu ao "inimaginável" em sua vida.

E incentivou outras pessoas a fazer o mesmo:

Lewinsky se mudou para Londres em 2005, onde concluiu mestrado em psicologia social na London School of Economics e deu continuidade às filmagens do documentário Monica in Black and White (Mônica em Branco e Preto), em parceria com a HBO, em que ela responde perguntas de uma plateia sobre os aspectos de sua experiência na Casa Branca. Sem filtros ou mediação, uma das pergunas feita a ela foi: "qual a sensação de ser a 'rainha do sexo oral' da América?".

Mais tarde, em 2014, Lewinsky escreveu um artigo para a Vanity Fair, chamado Vergonha e Sobrevivência. Nele, ela explica como foi ser a primeira vítima de humilhação online. "Em 1998, quando o meu caso com Bill Clinton se tornou público, tornei-me a pessoa mais humilhada do mundo. Graças ao [site] Drudge Report, fui possivelmente a primeira pessoa cuja humilhação global foi potenciada pela internet", escreveu.

Lewinsky tentou ser reclusa. Tentou sair do país, tentou encontrar um emprego, mas o escândalo com Bill Clinton a persegue todos os dias. 20 anos após o episódio, ela está envolvida em projetos para evitar a destruição de reputações na internet e se define como uma ativista social que luta pela prevenção do bullying na internet.

Entre os projetos que participa, está a The Diana Award, organização criada pela princesa de Gales e apadrinhada pelos seus filhos, William e Harry, além de participar da ONG anti-bullying Bystander Revolution como embaixadora e consultora de estratégias. Ela também participou da criação de uma linha de emojis anti-bullying, em parceria com a Vodafone.

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Monica Lewinsky em evento anti-bullying no Alexandra Palace, em Londres.

Ainda em sua palestra no TED Talks, citada no início do texto, Lewinsky discutiu o cyberbullying, lembrando do caso do garoto Tyler Clementi, estudante universitário que se suicidou após sofrer assédio na internet por ser gay. "A trágica morte de Tyler foi um ponto de virada para mim", disse.

"Comecei a olhar o mundo de humilhação e bullying diferente. Todo dia, as pessoas -- principalmente aquelas que não estão preparadas para lidar com isso -- são abusadas e humilhadas de tal forma que não conseguem nem se imaginar vivendo o dia seguinte".

Ao fim da palestra, ela respondeu à pergunta: "Por que vir a público agora?".

Por quê?

"É hora de pegar minha narrativa de volta".