ENTRETENIMENTO
12/01/2018 19:14 -02 | Atualizado 19/01/2018 18:53 -02

‘Philip K. Dick’s Electric Dreams’: Futuro assustador imaginado por escritor volta em nova série

‘Queremos entreter e provocar reflexão’, diz Michael Dinner, criador da antologia da Amazon, em entrevista ao HuffPost.

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Anna Paquin em cena de 'Real Life', um dos episódios de 'Electric Dreams'

Um homem que trabalha na estação de trem de Woking, Inglaterra, descobre que passageiros têm usado o transporte para chegar a um lugar que não existe. Um garotinho testemunha seu pai ser substituído por um duplo alienígena. Uma senhora perto de morrer pede a dois funcionários de um serviço de turismo espacial que a levem à Terra, um lendário planeta que séculos atrás tornou-se inabitável após explosões solares.

Há poucos meses, o futuro sombrio no qual vive o caçador de androides Deckard voltou aos cinemas com Blade Runner 2049. O filme nos mostrou que mesmo 50 anos após seu lançamento, o romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick (1928–1982), no qual os filmes de Blade Runner se baseiam, continua atual, instigante e assustador.

Agora o legado do escritor é visitado novamente, e desta vez por meio de várias histórias — como as mencionadas no primeiro parágrafo desta reportagem —, em Philip K. Dick's Electric Dreams, nova série da Amazon Prime Video.

Trata-se de uma antologia de ficção científica criada por Ronald D. Moore (Outlander) e Michael Dinner (Anos Incríveis) ao estilo de Black Mirror (Netflix), com episódios baseados em contos diferentes do escritor. A tecnologia aparece neles em suas formas mais avançadas, no centro da intimidade humana ou até dentro de nossos corpos e mentes, e como é típico dos escritos de Dick, também no centro de questões existenciais. Em conceito, Electric Dreams pode não soar tão diferente da série de Charlie Brooker — mas seu diferencial está principalmente em vir da imaginação do escritor que ajudou a abrir caminho para Black Mirror encontrar seu lugar no cânone da ficção científica.

"Para mim, o grande lance do gênero são questionamentos como 'o que significa ser humano?', 'qual é a natureza da realidade?'", conta Dinner em entrevista ao HuffPost Brasil.

"O material, que foi escrito entre o fim dos anos 1950 e início dos 1960, funciona em dois níveis. Em um, ele pode entreter e emocionar, e no outro, ele instiga a reflexão. Algumas dessas histórias se passam em milhares de anos no futuro e têm como grande tema essas questões existenciais."

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Pôster de divulgação é tão delirante quanto as paranoias de Philip K. Dick

Questionar o que é real ou não era parte tanto da obra — 121 contos e 44 romances publicados — quanto da vida pessoal do escritor. Dick tinha doenças mentais, era usuário de metanfetaminas e escrevia sob efeito delas. Ele já relatou que teve experiências sobrenaturais nas quais viu Deus e constatou que a realidade na qual vivemos foi programada por computadores (leia mais aqui).

Tais inquietações e paranoias do autor também se refletem em Electric Dreams — o cuidado com a fidelidade aos contos foi tão grande que a filha do escritor, Isa Dick Hackett, foi recrutada para ser uma das produtoras. Dinner a consultou diversas vezes no decorrer da produção.

Rindo, ele conta que embora tenha se sentido pressionado por causa da "grande responsabilidade" que é adaptar a literatura de Dick, o que lhe trouxe mais preocupação foi se passaria ou não pelo crivo da filha.

"Quando chegava um roteiro e ela dizia 'meu pai teria ficado feliz com isso', sabia que tínhamos acertado. É importante ser bem visto no cânone de Dick."

O esforço de Dinner e Moore para fazer isso acontecer também se expressa na escolha de diretores e roteiristas. A dupla chamou alguns dos principais nomes da dramaturgia britânica contemporânea — a série foi co-produzida na Grã-Bretanha — para escrever e/ou dirigir os episódios.

David Farr (indicado ao Emmy por The Night Manager), Jack Thorne (Harry Potter and the Cursed Child) e Julian Jarrold (The Crown), além dos próprios Dinner e Moore, trabalharam cada um em seu episódio.

Os norte-americanos Dee Rees — cotada ao Oscar deste ano por Mudbound — e Alan Taylor, diretor de episódios de Game of Thrones (HBO) e Mad Men (AMC), também deixaram suas assinaturas em Electric Dreams.

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Jack Reynor e Geraldine Chaplin em cena do capítulo 'Impossible Planet'.

No extenso elenco estão Bryan Cranston (o Walter White de Breaking Bad e também produtor-executivo), a vencedora do Oscar Anna Paquin (X-Men), Timothy Spall (Harry Potter), Vera Farmiga (Bates Motel), Steve Buscemi (Boardwalk Empire), Richard Madden (Game of Thrones), Janelle Monáe (Moonlight), Greg Kinnear (Pequena Miss Sunshine), Geraldine Chaplin (O Impossível), entre vários outros nomes.

"Cinco anos atrás, quando surgiu a ideia de fazer Electric Dreams, a gente se perguntou 'quais roteiristas, diretores e atores viriam brincar com a gente?'", conta Dinner.

"Quando finalmente os conseguimos, todos eles responderam bem ao material, à ideia de adaptar Philip K. Dick. Tivemos sorte, pois conseguimos profissionais maravilhosos. Como os episódios são autônomos, eles não precisavam de um comprometimento de anos [com a série], era só vir e trabalhar por um mês."

Electric Dreams começou a ser exibida na Grã-Bretanha pelo Channel 4 e agora tem se espalhado mundo afora. Assim como no Brasil, a série chega aos Estados Unidos pela Amazon nesta semana — e não é a primeira da Amazon baseada em uma obra de Dick.

The Man in the High Castle, aclamada distopia baseada em O Homem no Castelo Alto, terá a estreia de sua terceira temporada ainda neste ano. Criada por Frank Spotnitz (Arquivo X) — e também produzida por Isa Dick Hackett —, a série imagina o que teria acontecido aos EUA dos anos 1960 se o nazifascismo tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial.

Na atual demanda por narrativas distópicas, a forte presença da obra "profética" e assustadora do escritor acompanha, além de Black Mirror, o sucesso de The Handmaid's Tale (Hulu), adaptado de O Conto da Aia, romance de Margaret Atwood, e a brasileira 3% (Netflix). Nós vivemos, afinal, em um mundo no qual Donald Trump é presidente de uma das nações mais poderosas do planeta e, os recursos naturais, cada vez mais escassos.

Um recente relatório da ONU, por exemplo, nos avisa que o descarte de lixo eletrônico, como celulares e computadores, representa um crescente risco ao planeta e à saúde humana.

"Acredito que computadores têm tirado um pedaço de nossas vidas. Muito do futuro sobre o qual Dick fala em seu trabalho se tornou verdade, tecnológica e politicamente falando", analisa Dinner. "Isso é tão realizador quanto assustador pra caramba."

O roteirista e diretor não concorda com o escritor em um ponto: Dinner não crê que nossa realidade tenha sido programada por computadores. Mas, considerando o atual estado do mundo, talvez seja melhor não descartar a hipótese. "Nós podemos acordar um dia e perceber que somos avatares. Ou talvez a gente nunca perceba", brinca.

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Assista ao trailer:

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