MULHERES
13/01/2018 00:32 -02 | Atualizado 13/01/2018 00:40 -02

A produtora feminista de Reese Witherspoon que está por trás da série 'Big Little Lies'

O ato de transformar histórias ignoradas sobre mulheres em produções audiovisuais de sucesso mundial.

Vitórias de 'Big Little Lies' no Globo de Ouro empolgam Laura Dern, Nicole Kidman, Zoe Kravitz, Reese Witherspoon e Shailene Woodley.
Lucy Nicholson / Reuters
Vitórias de 'Big Little Lies' no Globo de Ouro empolgam Laura Dern, Nicole Kidman, Zoe Kravitz, Reese Witherspoon e Shailene Woodley.

O ato de transformar histórias ignoradas sobre mulheres em produções audiovisuais de sucesso mundial. Talvez há sete anos, quando começou a produtora Pacific Standard, a atriz Reese Witherspoon não fizesse ideia de queGarota Exemplar (2014), Livre (2014) e Big Little Lies (2017) renderiam milhões de dólares e ganhariam indicações aos principais prêmios da academia de cinema norte-americana.

Witherspoon sabe bem como é ser mulher em Hollywood. Ela é conhecida por seus papéis na franquia Legalmente Loira, Johnny & June e Doce Lar. "Nós, mulheres, merecemos mais", disse, em discurso no prêmio Woman Of The Year, em 2015, ao falar sobre a produtora. Ela já foi a única mulher no set de filmagens (o chamado "Princípio de Smurfette"); já testemunhou personagens femininas serem reduzidas a perguntas como "então, o que fazemos agora?" em um roteiro e sabe que mulheres ganham menos e dirigem apenas 7% dos filmes.

Em uma mesa redonda da revista Entertainment Weekly, a atriz contou que em 2011 recebeu um "roteiro horrível" em que o namorado da personagem era uma verdadeira estrela, e ela, apenas um acessório. "Eu pensei: 'Você está brincando comigo. Não, não estou interessada'." Os produtores responderam dizendo que três atrizes vencedoras do Oscar estavam no páreo para o papel. "É aí que nós estamos? Vocês estão disputando para ser a namorada burra em uma comédia? Para quê?", contou.

À época, Witherspoon tinha ganhado um Oscar de Melhor Atriz por sua interpretação em Johnny & June e o "roteiro horrível" foi um dos combustíveis para que ela, junto com a produtora Bruna Papandrea, levassem a ideia da Pacific Standard adiante: uma pequena produtora que, diante do retrato escasso e estigmatizado do sexo feminino, se dispõe a oferecer "novas dinâmicas para mulheres nos filmes".

O primeiro passo? Correr atrás de livros que contam histórias de mulheres, escritos por mulheres. A ideia, desde o começo, foi coletar as possíveis obras dentro do padrão que elas procuravam, para transformá-las em produções audiovisuais. "Uma das melhores partes do nosso trabalho é que estamos comprando livros e ajudando autoras no processo de levar um livro às telonas", contou à Hollywood Reporter.

"Minha filha tinha 13 anos na época e eu queria que ela visse filmes com histórias de mulheres. De mulheres reais", disse Witherspoon à Variety. "Liguei para o meu agente e disse: 'Eu preciso de uma parceira, de uma produtora, e eu realmente quero alguém que seja bom, que tenha experiência no set. E isso é uma ordem."

Bruna Papandrea, que abraçou o projeto junto com Witherspoon, já tinha trabalhado em Milk - A voz da igualdade e Entre segredos e mentiras e mantinha sua própria produtora. Witherspoon revelou em entrevista à Hollywood Reporter que, quando conheceu Papandrea, criou expectativa para que ela soubesse que não estava "criando material para si mesma". E a resposta veio. "Eu enviei a ela o roteiro de Livre, e ela disse que era maravilhoso e que gostaria de abrir a empresa comigo. Um mês depois, pegamos o projeto de Garota Exemplar".

Sete anos depois...

Após se aventurar com Big Little Lies, em que Witherspoon além de produtora, também é protagonista, a Pacific Standard é entendida como uma das empresas mais promissoras no cenário hollywoodiano, o que certamente alavancou o nome de Witherspoon como um dos mais importantes do momento. Os futuros projetos da empresa vêm recebendo atenção especial tanto da imprensa quanto de estúdios, diretores e atores.

E não à toa.

A série Big Little Lies, que já prepara a sua segunda temporada para 2019, colheu quatro dos seis troféus que disputava no Globo de Ouro, tornando-se a atração mais premiada da noite que, diga-se de passagem, foi uma ode à força das mulheres na indústria do entretenimento. A premiação repetiu o sucesso da série no Emmy, quando recebeu cinco prêmios no ano passado.

À época do lançamento da série, em uma coletiva do Television Critics Association, Witherspoon afirmou que durante 25 anos foi a única mulher no set de filmagem e ressaltou sua intenção de falar sobre questões urgentes. "Nós precisamos ver experiências de mulheres reais – mesmo que isso envolva violência doméstica, assédio sexual, romance, infidelidade ou divórcio."

Baseada no best-seller homônimo da autora Liane Moriarty, a série conta a história de cinco mulheres interpretadas por Nicole Kidman, Shailene Woodley, Zoë Kravitz, Laura Dern e pela própria Reese Witherspoon.

Moriarty construiu uma história sobre a complexa vida de mulheres privilegiadas, envolvidas em um assassinato em uma cidade rica do litoral da Califórnia. Em meio aos cenários deslumbrantes e ao desenrolar do mistério sobre o crime, os telespectadores testemunham algo raramente visto na tela: um retrato cuidadoso de um relacionamento abusivo.

"Quando li o livro pela primeira vez, me identifiquei muito. A história explora muitos aspectos com os quais as mulheres vão se identificar. Não é sobre elas serem 'boas' ou 'ruins' – é sobre todos os espectros e todas as cores da vida de uma mulher. E apresentou uma oportunidade única de juntar tantos papéis incríveis para mulheres em uma só produção", afirma a atriz.

Recentemente, além da Pacific Standard, Witherspoon lançou a plataforma Hello Sunshine, que quer criar e "descobrir conteúdo poderoso feito por mulheres em todas as plataformas". O site é uma parceria entre a produtora e a joint venture Otter Media, formada pela The Chernin Group e AT&T.

Sem se distanciar da atuação, Reese Witherspoon tem quebrado paradigmas e se colocado como uma figura disruptiva de Hollywood do início deste século.

Ambição definitivamente não é uma palavra assustadora para Reese Witherspoon.