MULHERES
03/01/2018 11:01 -02 | Atualizado 03/01/2018 11:04 -02

Na era do #Eutambém, será que essas obras ainda têm lugar em um museu?

Educadores de museus discutem o futuro de favoritos problemáticos da história da arte.

ULLSTEIN BILD VIA GETTY IMAGES

Numa parede do Metropolitan Museum of Art há um quadro de uma menina púbere. Sentada, encostada para trás numa cadeira de vime, ela está com os olhos fechados e as mãos entrelaçadas sobre a cabeça. Suas pernas abertas e saia vermelha puxada para cima deixam sua calcinha branca à mostra. A obra do francês Balthus, do século 20, mostra a vizinha do artista, Thérèse Blanchard, segundo a descrição feita pelo Met. Ela foi a modelo que Balthus empregou em 11 de suas pinturas entre 1936 e 1939, começando quando ela tinha 11 anos de idade.

No último 30 de novembro, a nova-iorquina Mia Merrill redigiu uma petição na Care2 pedindo que o museu ou tire "Thérèse Sonhando" de exposição ou modifique o texto que acompanha o quadro, de modo a reconhecer a natureza potencialmente perturbadora da obra. "Em vista do clima atual em torno das agressões sexuais e alegações em número crescente que estão vindo à tona todos os dias", ela escreveu na petição, "o Met, ao exibir esse trabalho para o público sem qualquer espécie de esclarecimento, está, possivelmente de modo não intencional, apoiando o voyeurismo e a objetificação de crianças."

A petição recebeu mais de 11 mil assinaturas nas duas últimas semanas, quase alcançando sua meta de 12 mil. Mas o apelo de Merrill foi recebido com pouco-caso por alguns membros do mundo das artes, para quem seria uma "caça às bruxas".

Um opositor declarado da petição foi o crítico de arte Jerry Saltz, da revista "New York". "Se tirarmos 'Thérèse Sonhando' de exibição", ele escreveu no Instagram, "teremos que tirar também praticamente TODAS as obras das alas da Índia, África, Ásia, Oceania, Grécia, Roma, Renascimento, Rococó, Impressionismo, Expressionismo Alemão, Klimt, Munch e tudo de Picasso e Matisse." Ele concluiu sua opinião com a hashtag #ArtWorldTaliban.

Deixando os exageros de lado, o argumento de Saltz não deixa de ser válido. Qualquer esforço amplo para eliminar esse tipo de imagem dos anais da história da arte resultaria em muitos espaços vazios nos grandes museus pelo mundo afora. A forma humana nua é um dos temas fundamentais da pintura a óleo europeia desde as imagens de Adão e Eva pintadas no século 16. Dentro desse gênero, escreveu o crítico John Berger, "as mulheres foram o tema principal, sempre recorrente."

O fato de mulheres frequentemente aparecerem desnudas em pinturas não é motivo de preocupação, por si só. O problema está no desequilíbrio de poder por trás de muitas dessas pinturas, uma dinâmica que posiciona a mulher como eterno objeto de beleza e o homem como o gênio criador e a autoridade. Como disse Berger: "Essa nudez não é expressão dos sentimentos da mulher – é sinal de sua submissão aos sentimentos e exigências do dono. (O dono da mulher e da pintura.)"

Nossa cobrança cultural recente desencadeada por relatos por muito tempo sufocados de erros flagrantes de conduta sexual em muitos setores realmente lançou uma sombra sobre o mundo das artes. Tudo isso está levando algumas pessoas a questionar as circunstâncias que permitem que homens poderosos tenham comportamentos predatórios, enquanto outras questionam como os comportamentos predatórios no passado foram glorificados pelos guardiões da história. Algumas pessoas questionam se os museus têm a responsabilidade de mudar o modo como apresentam trabalhos que sexualizam ou objetificam mulheres, especialmente mulheres de grupos vulneráveis, como menores de idade ou trabalhadoras sexuais. O que deve ser feito com imagens criadas sob condições dúbias, quando a dignidade, segurança física e independência de ação das modelos femininas estavam potencialmente em risco?

Essas são algumas das questões levantadas na petição escrita por Merrill. "Em última análise, estamos falando de um artista que chamava meninas muito novas a seu estúdio e lhes pedia para tirarem a roupa", disse Merrill ao New York Times em entrevista. "E a questão do consentimento, como fica?"

Em resposta à petição de Merrill, o Met anunciou em comunicado, publicado no Artnet em 5 de dezembro, que não vai tirar o quadro de Balthus de exposição.

"Momentos como o atual oferecem uma oportunidade para uma discussão", escreveu um porta-voz do museu, "e a arte visual é um dos meios mais importantes que temos para refletir sobre passado e presente e para incentivar a evolução contínua da cultura existente, por meio da discussão informada e do respeito pela expressão criativa."

A Coalizão Nacional Contra a Censura (NCAC) aplaudiu a decisão do museu. "Atacar arte é contraproducente para a discussão aberta necessária para confrontarmos as realidades do assédio e abuso sexual", disse um porta-voz da entidade, falando ao HuffPost. "A alegação da objetora de que expor a pintura implica a aprovação institucional da sexualização indesejada de mulheres jovens representa um erro fundamental de interpretação do papel das instituições culturais, que é facilitar o contato de um público diverso com uma grande gama de culturas e objetos, enquadrando e contextualizando esses objetos."

A declaração do Met também deixou claro que o museu não vai modificar o texto que acompanha a pintura – a placa branca com uma descrição contendo informações básicas sobre cada obra e seu criador.

"A reação do Met foi decepcionante, mas não me surpreendeu", disse ao HuffPost Margaret Middleton, que trabalha como designer e desenvolvedora que leva iniciativas de justiça social para espaços museológicos. "Ela não respondeu ao pedido de Merrill de que a tela em questão fosse mais contextualizada. Os museus gostam de pensar que apresentam as obras de arte de modo objetivo, mas não existe museu que seja neutro.

"Eu gostaria de ver os museus assumindo mais responsabilidade pelo modo como expõem e interpretam as obras de arte. Cada obra na parede, cada texto que o acompanha, representa uma decisão tomada por alguém."

ALBERTO PIZZOLI via Getty Images
Another Balthus painting.

Artistas, historiadoras e críticas feministas vêm contestando ativamente a narrativa dominante (leia-se: masculina) da arte ocidental há décadas. O movimento #MeToo apenas amplificou sua mensagem.

"A arte ocidental frequentemente se caracteriza pela exploração", disse Gretchen Jennings, editora de museu que já trabalhou no Museu Nacional de Arte Africana e no Museu Smithsonian de História Americana. "Ela gira em torno da primazia do artista homem. É ele quem escolhe, é ele quem lucra. A arte é algo que envolve muito mais risco para a mulher que para o homem."

Jennings explicou que modelos de obras de arte históricas e icônicas, como Victorine Meurent – mais conhecida como a "Olympia" de Edouard Manet – foram tratadas como "mulheres devassas" em sua época. Pelo fato de Manet ter pintado Meurent, ela própria artista, em pose nua e sem pedir desculpas pelo fato, ela virou objeto de indignação pública e condenação moral por parte de pessoas que supuseram que ela fosse trabalhadora sexual. E, se artistas mulheres eram tratadas como sem vergonha por aparecerem nuas em pinturas, trabalhadoras sexuais eram tratadas com ainda mais hostilidade e desprezo.

Um exemplo disso é "Les Demoiselles d'Avignon", de Picasso, uma das obras de arte mais conhecidas de todos os tempos. A pintura de 1907 mostra cinco trabalhadoras sexuais anônimas que Picasso conheceu na rua Avignon, em Barcelona, na Espanha. Sua pele está fragmentada, e seus rostos foram pintados no estilo de máscaras africanas. Em 1973 o historiador Robert Rosenblum descreveu a pintura como uma "explosão" desencadeada por "cinco figuras nuas que nos impõem sua carne erotizada com um ataque primal". Ele escreve sobre as modelos como se fossem responsáveis pelo modo como Picasso as pintou. É claro que esse não deve ter sido o caso. E, enquanto Picasso lucrou tremendamente com a imagem que criou, as "demoiselles" ficaram sem nome nos livros de história.

Hoje temos uma ideia de como Picasso tratava suas modelos mulheres. Sua neta escreveu que "ele submetia as mulheres à sua sexualidade animalesca, as amansava, as enfeitiçava, as ingeria e as esmagava sobre sua tela. Depois de ter passado muitas noites extraindo a essência delas, depois de elas terem sido sangradas por completo, ele as jogava fora."

Uma educadora de museu de Nova York que prefere se manter anônima por temer represálias profissionais descreveu como acha difícil ensinar sobre a obra de Picasso sem admitir o desequilíbrio de poder homem-mulher e os estereótipos misóginos envolvidos. Como educadora, espera-se dela que converta espaços de museus em experiências educacionais dinâmicas, relevantes e interessantes (algo mais do que apenas um labirinto silencioso de obras de arte incompreensíveis de artistas homens e brancos já falecidos), através de visitas guiadas, exercícios de criatividade e diálogos motivadores. Se Picasso estivesse vivo hoje, talvez sua obra – ou, pelo menos, o modo como os educadores a descrevem e ensinam – fosse revista à luz de seu comportamento tóxico. Mas ele não está, e sua obra é exposta com destaque em coleções do Met, do Guggenheim e do Museum of Modern Art (MoMA), frequentemente sem seu comportamento ser mencionado.

Que fique claro: nenhum dos educadores de museu que conversaram com o HuffPost acham que as pinturas de Picasso ou outras obras como elas devam ser censuradas ou retiradas dos museus que as expõem.

Na realidade, a maioria dos críticos, incluindo a educadora acima citada, acha que, em vez de limitar a arte à qual os visitantes têm acesso, os museus deveriam ampliar suas coleções para responder às preocupações do público. "Museus são organismos vivos", disse a educadora. "Precisamos criar espaço para outras vozes, quer sejam históricas ou contemporâneas. Precisamos de outras perspectivas além do ponto de vista masculino e branco, além do ponto de vista misógino."

Muitas pessoas, como a artista, curadora e educadora Shelly Bahl, que trabalhou na Art Gallery de Ontario, estão menos interessadas em ditar se uma obra como "Thérèse Sonhando" é exposta ou não e mais interessadas em discutir como ela é debatida e ensinada, especialmente à próxima geração de mulheres jovens.

"Sempre devemos situar uma obra de arte em seu contexto social e político", disse Bahl ao HuffPost. "Às vezes questões como raça, gênero e dinâmica de poder são postos de lado. As pessoas dizem 'vamos olhar a obra, apenas'. Mas isso não é possível."

Bahl foi contratada pela Art Gallery de Ontatio através de um programa que leva curadores culturalmente diversos a grandes instituições tradicionais. Em 2000 ela convidou a artista asiática Neena Arora a criar uma "intervenção específica para o local" no espaço "Grupo dos Sete" da galeria, que destaca a obra de sete pintores paisagistas canadenses influenciados pela natureza e a cultura indígena. Na performance de Arora, intitulada "Shapeshifter", ela caminhou, se sentou e dançou pela galeria, representando "um passeio pela história" em que pediu aos espectadores que reexaminassem as obras expostas dentro do contexto da apropriação e do exotismo.

"Sou mestiça", explicou Arora. "Minha identidade contém uma dicotomia como o relacionamento com a voz dominante do mundo das artes ocidental e a voz do 'outro'. A coleção da AGO estava posicionada historicamente, e, embora houvesse alguns trabalhos realmente belíssimos no espaço, a colocação e o espaço sempre passavam um ambiente distanciado e estanque."

Projetos individuais como o de Arora são uma maneira pela qual os museus podem reavaliar seus acervos. Mas, quando se busca mudanças institucionais mais amplas, Bahl acha que a chave está nos textos. "Os materiais didáticos são uma parte tão importante da experiência dos espectadores de arte quanto a obra de arte física", ela disse. "Precisamos reconhecer o que está contido nessas obras, além do fato de serem uma obra de estilo neoclássico, por exemplo."

Ronna Tulgan Ostheimer, diretora de educação do museu Clark, em Williamstown, Massachusetts, também destacou a importância da contextualização.

"A arte é evidência material da experiência humana", disse Ostheimer. "Não devemos pressupor que a história da arte seja valiosa em si mesma e por si mesma. Ela é valiosa porque nos dá uma compreensão melhor de nossas percepções modernas, de como elas mudaram, de onde nasceram nossos embates. Ela desencadeia diálogos importantes e discussões difíceis."

Ostheimer apontou para pinturas do século 19 de artistas como Jean-Léon Gérôme e Eugène Delacroix. Hoje sua obra poderia ser descrita como "orientalista", termo cunhado pelo teórico Edward Said para descrever a arte que retrata culturas orientais sob a ótica da imaginação ocidental. Suas pinturas frequentemente retratavam as culturas orientais como inferiores, exóticas, estranhas e primitivas.

Nos últimos 40 anos, a discussão em torno dessas pinturas se modificou. Hoje uma discussão do trabalho de Gérôme em um ambiente de museu ou sala de aula quase certamente incluirá as premissas falhas que estão à sua base. "Antes de Edward Said, muitas dessas obras acadêmicas eram vistas simplesmente como belas pinturas", disse Ostheimer. "Hoje elas são discutidas como representações do 'outro'."

Ostheimer acha que é hora de uma mudança semelhante no modo como discutimos pinturas de mulheres nuas. "Para mim, essa é uma opção muito mais valiosa do que afastar uma obra dos olhos do público", ela opinou.

Ostheimer começou a propor uma mudança desse tipo muito antes da enxurrada recente de relatos sobre dinâmicas não consensuais entre homens poderosos e mulheres menos poderosas. Em 2016 ela ajudou a coordenar um tour intitulada "Romance e a cultura do estupro na coleção do Clark", conduzida por Molly Burroughs e Alex Mendez, que analisou as obras do acervo do museu através da ótica do consentimento.

Ostheimer recordou em especial uma escultura de 1894 que foi incluída noa tour – "Baco e Ariadne", de Jules Dalou. A figura de mármore, baseada no mito grego, mostra Baco, o deus do vinho, despertando a princesa adormecida Ariadne com um beijo. O corpo de Ariadne está inerte, e Baco a ergue pelo rosto, como que procurando sua boca.

"Será que há algum contexto em que seja tudo bem um homem beijar uma mulher adormecida sem o consentimento dela?", perguntou Ostheimer. "Perguntei aos alunos, professores e funcionários: 'Estou curiosa. Vocês acham que é tudo bem falar desta escultura sem discutir se o que ela mostra alimenta os estereótipos e premissas de que esse comportamento é permissível?' Eles acharam que, a partir do momento que você toma consciência de que uma obra de arte perpetua ideias perigosas, é impossível falar dela sem mencionar esse problema."

Mesmo assim, Ostheimer acha que há grande valor em obras como a de Dalou, por sua capacidade de captar como as pessoas pensavam em determinado tempo e lugar. Ao mesmo tempo, ela acha que cabe aos profissionais do museu instruir os visitantes de uma maneira que não deixe de levar em conta os acontecimentos e ideias de hoje.

"Poder falar de seu acervo e de como ele se relaciona com problemas contemporâneos ajuda um acervo a continuar relevante para mais pessoas", ela disse. "Para mim, se escondermos tudo e fizermos de conta que esses problemas não existem, não vamos aprender, crescer e nos transformar."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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