LGBT
29/12/2017 10:54 -02 | Atualizado 30/12/2017 11:41 -02

Caça à Judith Butler e 'homão da porra': Quanto o Brasil precisa evoluir no debate sobre gênero

Sociólogo Richard Miskolci, da UFSCar, reflete sobre a evolução da questão de gênero no País.

NurPhoto via Getty Images
Manifestantes protestam contra a vinda da filósofa Judith Butler ao Brasil, na frente do Sesc Pompéia, em São Paulo.

Feminismo foi eleita a palavra do ano em 2017 pela editora americana Merriam-Webster. De acordo com a empresa, o termo liderou o topo das pesquisas com picos de buscas durante o período da eleição de Donald Trump e do surgimento do movimento de mulheres #MeToo (#EuTambém), que denunciou casos de assédio na indústria de entretenimento dos Estados Unidos.

No Brasil, a diversidade de gênero e orientação sexual foi abraçada por diversos setores da sociedade. O protagonismo da drag-queen Pabllo Vittar no entretenimento, a personagem de Carol Duarte na novela A Força do Querer e as manifestações contra a decisão da Justiça que abria espaço para a "cura gay" são exemplos de como o tema tem sido tratado no País.

Porém, a presença dos conceitos de "feminismo" e de "diversidade" em conversas na mesa do bar não quer dizer que exista um consenso entre os brasileiros sobre transformações sociais efetivas que assegurem os direitos das mulheres e da população LGBT.

Ao contrário, a tensão que se mantém no País permite a ascensão de pautas como a PEC 181, que restringe aborto até em casos de estupro, a "caça às bruxas" em torno de Judith Butler e o crescimento de nomes em defesa da "família tradicional brasileira", representada pela pré-candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência.

Para o professor de Sociologia da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) Richard Miskolci, o entendimento do que é a questão de gênero pela opinião pública ainda se limita a "modelos individuais" e "comportamentais", a exemplo do "padrão Rodrigo Hilbert de homão da porra" que viralizou nas redes sociais no início do ano.

Gênero não é o binário homem-mulher tampouco masculino-feminino, mas é um termo que sublinha a desigualdade dos binários e se mantém aberto para o que ainda não existe, mas é possível.Richard Miskolci

Nacho Doce / Reuters
Protesto contra Judith Butler no Brasil.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Richard Miskolci, professor do departamento de Sociologia da UFSCar e coordenador do Quereres - Núcleo de Pesquisa em Diferenças, Gênero e Sexualidade fala sobre as diferentes formas de "ser homem" e de como o feminismo tem impulsionado o debate sobre gênero e diversidade no mundo.

HuffPost Brasil: Como você enxerga o debate sobre questões de gênero atualmente?

Richard Miskolci: Na universidade o debate está maduro. Dos estudos sobre mulheres aos de gênero, até os estudos sobre queer as pesquisas se sofisticaram teórica e conceitualmente. Na sociedade brasileira, as questões de gênero ganharam forte impulso nos últimos anos, mas o que tem sido propagado pela mídia ainda segue um conceito essencialista e identitário.

Gênero tende a ser confundido como sinônimo de mulher e as diferenças entre identidades sexuais. Isso acaba por criar oposições binárias e antagonismos simplificadores entre mulheres e homens, homossexuais e heterossexuais, pessoas trans e não-trans. Essas oposições são resultado de uma era marcada por uma política de identidades que dissemina conflitos e erode alianças políticas entre grupos subalternizados.

Na era das redes sociais e das bolhas de opinião, demandas por reconhecimento de igualdade jurídica têm sido confundidas com perseguição e punição de indivíduos. Desigualdades e injustiças que exigiram mudanças legais e institucionais têm sido apresentadas como ameaças pela vigilância comportamental.

Ainda, existe uma captura por parte da mídia e de determinados movimentos sociais de uma retórica neoliberal individualista que aposta na mudança das atitudes ao invés de focar em transformações coletivas.

Então, isso quer dizer que não avançamos em nada?

O fato de que gênero tenha se tornado tema central no debate público é algo a ser comemorado, pois é o resultado de décadas de trabalho de acadêmicas e ativistas que enfrentaram obstáculos para convencer a sociedade de que há um eixo de desigualdade social tão importante quanto o de classe social ou de raça. No fundo, gênero, classe e raça é uma tríade indissociável para se pensar o mundo em que vivemos. Até mesmo as reações conservadoras ao conceito de gênero podem ser vistas como prova de força e centralidade que esse debate possui na vida social contemporânea. ​

Como o tema pode ser trabalhado e discutido de forma mais acessível e clara para a população?

​Nunca antes foi tão importante explicitar que gênero é um conceito analítico criado pelo pensamento feminista, portanto não pode ser reduzido ou desqualificado como ideológico.

Gênero é a superação do essencialismo, da ideia que reduzia questões complexas do ser humano a uma oposição simplista de homem versus mulher. A ideia de gênero atenta para o fato de que há desigualdades também entre homens e entre mulheres.​

Assim como ensinou Judith Butler, gênero não é algo que "se é" ou "se tem", mas é o resultado de regulações sociais. É o resultado das normas que nos controlam e nos inserem em um eixo de desigualdades que envolve também a sexualidade e o desejo.

Gênero não é o binário homem-mulher tampouco masculino-feminino, é um termo que sublinha a desigualdade dos binários e se mantém aberto para o que ainda não existe, mas é possível.

Se quisermos superar desigualdades e injustiças, então, teremos que mudar as bases legais e institucionais vigentes para abrir as possibilidades de agregar todas as pessoas e que essa população que não se encaixa no binário tenha garantidos os seus direitos básicos à vida e à segurança.

É possível ressignificar o olhar que as pessoas (tanto do sexo feminino ou masculino) têm sobre seu próprio gênero?

​Sim, é possível, mas esse trabalho envolve transformações culturais e institucionais profundas que mal começaram a ser esboçadas em nossa sociedade.

A recente preocupação midiática com questões de gênero, por exemplo, ainda carece da superação dos essencialismos e das armadilhas identitárias. Infelizmente, predomina a proliferação de oposições simplificadas​ na maior parte das coberturas jornalísticas e representações ​​midiáticas.

O fato é que a discussão sobre gênero é uma abertura para possíveis formas de ser, mas que não serão alcançadas sem conquistas jurídicas como uma lei que permita a plasticidade e/ou o deslocamento para além de como o Estado e a cultura nos classifica como cidadãos.

Um caso que chamou atenção das redes sociais em 2017 foi o "padrão Rodrigo Hilbert", como modelo de parceiro perfeito, por exemplo, por dividir as responsabilidades domésticas com sua esposa. Assim, discute-se o machismo enraizado que permite que categorias de "masculino e feminino" ainda sejam muito naturais em determinados espaços, como o mercado de trabalho e o lar. Estaríamos caminhando para uma sociedade em que estes papéis de gênero convergem para uma noção melhor de igualdade?

​A mídia vive de modelos, de representações idealizadas. Tais modelos são exceções que confirmam a regra, já que o público sabe que há uma distância quase intransponível entre um modelo (ou ator) e uma pessoa comum.

Forma-se mais um segmento de consumo do que uma transformação social, mesmo porque essa captura por parte da mídia é outro exemplo da tendência contemporânea de apostar nas mudanças individuais e comportamentais, deixando de fora as transformações coletivas que são mais efetivas.

Por exemplo, ainda estamos distantes da aprovação da igualdade salarial entre homens e mulheres, da paridade entre homens e mulheres nas posições de comando, do equilíbrio entre homens e mulheres na política.

Alçar alguém a um exemplo ou modelo é o mesmo que esperar que uma mudança de comportamento organicamente resolva problemas estruturais.

Divulgação/GNT
Padrão Rodrigo Hilbert de 'Homão da Porra' marcou 2017.

E qual o papel do homem na sociedade de hoje?

Não deveríamos mais falar em homem no singular, já que graças ao conceito de gênero sabemos que há muitas formas de ser homem.

A historiadora feminista Margareth Rago defende que o feminismo veio libertar as mulheres e defendê-las em sua pluralidade de formas de existência. O feminismo afasta a ideia da mulher compreendida de uma forma unívoca.

Também é possível afirmar algo similar sobre os homens. Há uma diversidade de homens e reconhecer isso já é uma forma de desconstruir o poder e a mística que alçou "o homem" como sinônimo de ser humano ou cidadão.

Esse modelo é uma imposição cultural que visa à dominação e acaba por subalternizar as mulheres. Por outro lado, também afasta homens que nunca puderam - e muitos nem querem - ser esse homem-padrão, o ideal social do dominador.​

Por que, na sua visão, a construção cultural do que é "ser homem" está sempre associada à virilidade e à violência?

​Trata-se de um ideal cultural que está em xeque, eu diria que até em crise, há décadas. Pense na velha afirmação de que "homem não chora". Quem hoje em dia ainda acredita nisso? Sensibilidade e masculinidade não são necessariamente opostas ou incompatíveis, assim como a violência não é a prova de que alguém é "homem de verdade".

A própria noção de "homem de verdade", que exclui homossexuais da masculinidade, torna-se, a cada dia, mais contestável. O que já foi um dia compreendido socialmente como um homem está em transformação, assim como aqueles que ainda o encarnam sob o escrutínio cotidiano.

Assistimos às mudanças estruturais e legais que t​​​​​​êm ocorrido, como o reconhecimento do nome materno como a principal identificação aqui no Brasil, a obrigatoriedade de assumir a paternidade, de pagar pensão alimentícia e a ilegalidade do uso da violência contra mulheres.

Como os homens podem internalizar essas mudanças e, de fato, contribuir para a igualdade de gênero no mundo e para a não perpetuação da violência contra a mulher?

​É fundamental fugir do estereótipo de que todo homem é um agressor em potencial, o que não condiz com a realidade, assim como impede a sociedade de perceber que há também desigualdade e violência entre homens.

Há múltiplas maneiras de ser homem e, entre elas, há aqueles que não aceitam e até se voltam contra a violência. Muitos homens homossexuais, por exemplo, também foram historicamente alvo de violência por parte de alguns homens. Mas há homens de diversas orientações sexuais que não agem de forma violenta, assim como até podem ser aliados contra a masculinidade hegemônica que também os oprime, agride ou os relega à subalternidade.

Em outras palavras, em uma perspectiva de gênero, portanto não-essencialista, homens podem ser feministas, contra a violência e a favor da igualdade.

Tudo depende de terem acesso a um vocabulário mais amplo para compreenderem a si mesmos e seu lugar no mundo. Mas para isso é preciso algumas mudanças, como a inclusão da temática de gênero no ensino, uma perspectiva afeita às diferenças na ordem institucional e também, por que não, por sua disseminação cultural via mídias. ​

Recebemos Judith Butler no Brasil e ela foi alvo de uma "caça às bruxas" por parte da população. Por que essa reação tão agressiva à teoria de Butler?

Grupos de interesse que vão muito além de qualquer pauta moral disseminaram, em redes sociais, a ideia de que Butler era a encarnação do conceito de gênero, um referente que usam para reforçar uma aliança circunstancial entre setores conservadores e autoritários, religiosos e agnósticos.

Tais grupos, a despeito de tudo o que os distingue, têm o objetivo comum de impedir a expansão dos direitos sexuais e reprodutivos e controlar as políticas públicas, em especial as educacionais, para disseminar suas pautas políticas autoritárias e econômicas neoliberais. ​

Divulgação
Pabllo Vittar e o empoderamento da população LGBTQ.

Ao mesmo tempo que há essa rejeição, há a captação pelo mercado publicitário de pautas voltadas para a "diversidade" e o "empoderamento". Isso abre espaço para o debate e para o protagonismo de indivíduos antes marginalizados. Um exemplo é a drag queen Pabllo Vittar. Como lidar com essa apropriação? E de que forma ela favorece ou prejudica a comunidade LGBTQ?

​Diversidade, empoderamento e protagonismo fazem parte de um vocabulário neoliberal que precisa ser discutido em sua exploração comercial, assim como em seus efeitos conflitivos para as relações sociais.

Diversidade é um termo que domestica as diferenças criando a imagem de que é possível conviver com o outro, desde que cada um fique no seu quadrado, algo perfeito para a segmentação midiática e comercial.

Empoderamento parte do pressuposto de que o poder pode ser transferido para certos indivíduos, mascarando o fato de que sempre há relações de poder e que mudanças sociais não serão disseminadas apenas alçando algumas pessoas como exemplos ou heróis.

Protagonismo é um termo claramente midiático herdado da televisão e do cinema, mas que passou a pautar lutas políticas do presente por meio da competição por atenção nas redes sociais.

É na chave da diversidade-empoderamento-protagonismo que as mídias têm criado seus modelos de comportamento disseminando uma versão neoliberal, individualista e mercadológica da antiga política das identidades que perdura desde os anos 1970.

Por que, então, temos medo de falar sobre questões de gênero quando o tema vai além da "lacração"? Qual o papel das políticas públicas nessa discussão?

​A discussão sobre gênero nas mídias ainda carece de aprofundamento e sofisticação. Apesar das simplificações, essa discussão tem incomodado e ecoado em segmentos sociais autoritários e/ou conservadores.

É no intento de explorar o potencial político e eleitoral desses segmentos que alguns grupos têm forjado uma aliança circunstancial materializando uma campanha contra os direitos sexuais e reprodutivos, os quais apresentam esses direitos como se fossem uma ameaça ao invés de uma conquista.

"No fundo, vivemos uma disputa entre defensores dos direitos humanos, em particular os sexuais e reprodutivos, e aqueles que buscam impedir seu avanço para manter - ou restaurar - uma ordem social hierárquica e autoritária que subalterniza mulheres, homossexuais, pessoas trans, intersex e tantas outras. Não por acaso, é pelo controle de políticas públicas como as educacionais que lutam os conservadores, pois políticas públicas podem transformar estruturalmente nossa sociedade."​

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