MULHERES
22/12/2017 10:00 -02 | Atualizado 22/12/2017 11:03 -02

As mulheres do início do século 20 que acabaram com o 'Clube do Bolinha' da Disney

Nos anos 1930 e 1940, mulheres foram contratadas para trabalhos de animação antes realizados por homens. O caminho delas para o sucesso foi tudo menos fácil.

COURTESY MINDY JOHNSON
Ginni Mack, que trabalhou como contornista, e Walt Disney reveem trabalhos de arte de

Quando Mary Fleener tinha 8 anos de idade, estava procurando alguma coisa no subsolo de sua casa e topou com uma pilha de desenhos inacabados de personagens icônicos da Disney – Mickey Mouse, Bambi e Pateta, entre outros. Mary perguntou à sua mãe, Virginia, de onde vinham os desenhos, e Virginia explicou que ela mesma os tinha feito, anos antes, quando trabalhara para Walt Disney.

Mary ficou atônita. Ela não sabia que sua mãe tinha trabalhado fora de casa algum dia. "Fiquei pasma", ela recordou em entrevista ao HuffPost. "Você era uma pessoa bacana que trabalhava para a Disney?"

A descoberta dos desenhos para a Disney jogados no lixo deixou Mary – que hoje tem mais de 60 anos e é ela própria artista bem-sucedida de quadrinhos – estarrecida por dois motivos. Primeiro, foi o choque de descobrir que sua mãe tinha tido uma carreira secreta de animadora profissional. Mas o que a deixou igualmente pasma foi a revelação subsequente de que cada quadro de cada filme de animação que ela adorava foi feito por uma mão humana. "De repente entendi que essas imagens foram desenhadas por pessoas", ela comentou.

Por pessoas, sim. E, em muitos casos, de uma maneira ou outra, por mulheres.

COURTESY MINDY JOHNSON
Helen Siebert, supervisora de coloristas, trabalha sobre "Como é bom se divertir", por volta de 1947.

Segundo o próprio Walt Disney, as mulheres eram candidatas ideais para o departamento de contornos e coloração de sua empresa em sua fase inicial, responsáveis por darem dimensão, profundidade, detalhes e cores aos desenhos de animadores do início do século 20. Mindy Johnson escreve sobre isso em seu livro Ink & Paint: The Women of Walt Disney's Animation. Sim, eram os animadores, em sua maioria homens, os responsáveis por desenhar as formas e os movimentos iniciais dos personagens da Disney, e, por serem os originadores, eles eram vistos geralmente como os "artistas de habilidade maior", escreve Johnson. Mas, depois de feito o trabalho dos animadores, as contornistas (que destacavam o contorno das figuras desenhadas) e coloristas entravam em ação para refinar e ressaltar seus desenhos.

Os trabalhos exigiam calma e precisão imensa, características frequentemente associadas à feminilidade na época. Como explicou um press release divulgado pelo estúdio Walt Disney na década de 1920, "as meninas não apenas têm mais paciência e uma visão mais refinada para detalhes, linhas e cores, como possuem infinitamente mais paciência para fazer um trabalho mais bem acabado, tão necessário para este trabalho com celuloides."

Nas décadas de 1920 e 1930, o departamento de nanquim e coloração era o único departamento criativo dos Estúdios Disney a ser aberto às mulheres. E, ainda mais desanimador, o departamento só contratava profissionais com menos de 35 anos. Uma chamada lançada por artistas na época, descoberta por Mindy Johnson, diz: "Nas mulheres com mais de 35 anos, os músculos começam a enrijecer, e elas não conseguem dominar a técnica de nanquim e pincel tão bem quanto meninas mais jovens".

Por volta de 1934, porém, a Disney começou a lançar um esforço mais coordenado para incorporar mulheres a seu local de trabalho. Além de trabalharem como secretárias e estenógrafas, algumas poucas ascenderam nos escalões dos setores criativos da empresa. Bianca Majolie começou a trabalhar na Disney nesse ano e acabou por tornar-se a primeira mulher a ser artista de storyboard – a única mulher numa sala com 15 homens. Enquanto os homens se orgulhavam de seu humor do tipo pastelão e suas gags bobinhas, Majolie incorporava emoção em suas histórias, algo que acabaria por virar uma constante na fórmula dos desenhos animados da Disney. Ela acabou criando os roteiros de clássicos como "A Gata Borralheira" e "Peter Pan". Hazel Sewell, cunhada de Walt Disney, também inovou, virando diretora de arte na década de 1920 e trabalhando com filmes como "Bambi" e "Branca de Neve".

Mas a maioria das mulheres ainda trabalhava com contornos a nanquim e coloração, em um setor separado de seus outros colegas e que ocupava uma ala isolada da sede da Disney em Burbank. Johnson acredita que a segregação por gêneros foi fruto em parte de um esforço para garantir o relativo conforto das mulheres, que não estavam acostumadas a ambientes de trabalho dominados por homens. Mas a quarentena era também uma precaução de segurança. O departamento de nanquim e coloração trabalhava com nitrato de celulose, material altamente inflamável, então era necessário que os profissionais do departamento trabalhassem em um espaço isolado. Se um animador fumante visitasse o local, por exemplo, poderia atear fogo ao departamento.

"Um grãozinho que fosse de poeira parecia uma pedra enorme na tela", Mindy Johnson disse ao HuffPost. "Não podia haver gente andando pelo ambiente, que precisava ser controlado e contido."

"Não era um ambiente tipo a cozinha de Betty Crocker, mas tipo o laboratório de Marie Curie."

Courtesy Mindy Johnson
Hazel Sewell comanda o departamento de nanquim e coloração da Disney, por volta de 1934.

Desde que era criança Virginia Fleener sonhara em ser desenhista de moda, em traduzir seu amor pelo desenho em algum tipo de trabalho profissional. "Minha mãe era costureira", disse Virginia, 95 anos, ao HuffPost. "Cresci apreciando a sensação e textura de tecidos."

Mas seus sonhos mudaram de rumo quando ela entrou para a faculdade, se apaixonou e se casou. "Decidi ter filhos e virar dona de casa", ela explicou. Então, em 1941, menos de um ano depois de se casar, o marido de Fleener foi recrutado pela Marinha para combater na Segunda Guerra Mundial. Como muitas mulheres na época, Fleener de repente foi obrigada a procurar trabalho.

Ao mesmo tempo, a guerra tinha criado caos no departamento de animação da Disney. Alguns funcionários se alistaram nas forças armadas, outros foram recrutados, e os que restaram tiveram que começar a criar vídeos de treinamento de guerra. Quase da noite para o dia, disse Mindy Johnson, o estúdio começou a parecer uma base militar. Os funcionários tinham que usar distintivos identificadores e bater ponto quando chegavam e saíam todos os dias.

"As pessoas não sabiam no que estavam trabalhando. Para manter o estúdio funcionando, eles estavam produzindo muitos filmes de treinamento militar, e muitos deles eram altamente classificados", disse Johnson.

Quanto ao departamento de nanquim e coloração, em 1941 ele estava reduzido à metade de suas dimensões de um ano antes. Então os estúdios Disney começaram a distribuir mensagens em escolas de arte de Los Angeles e publicar anúncios em jornais locais. Um dos anúncios dizia: "Quer uma carreira com arte? A Walt Disney precisa de mulheres jovens com formação em trabalhos com nanquim e cores, agora! Uma grande oportunidade para garotas que se destacam."

Virginia Fleener viu um dos anúncios, se candidatou e, aos 20 anos de idade, conseguiu o emprego. "Era um lugar tão bom de se trabalhar naquela época", ela recordou. "Uma vez entrei no elevador e adivinhe quem estava lá? Walt Disney!"

Ela começou a trabalhar no departamento de nanquim e coloração em 1942, mas poucas semanas mais tarde foi transferida para o departamento de animação, um setor da Disney que dez anos antes era proibido para mulheres. "O estúdio vai perder muitos de seus homens para as forças armadas", explicou um memorando de 1942 dos arquivos dos estúdios Walt Disney. "Se muitos outros forem convocados, não é impossível que moças comecem a ser treinadas para desempenhar as funções hoje reservadas a homens."

Algumas mulheres já trabalhavam nos departamentos de cinematografia e editorial, e, pelo fato de a Disney ser uma empresa cujos funcionários eram sindicalizados, as mulheres podiam disputar pagamento justo. "Elas deixaram os pincéis de lado e começaram a trabalhar com canetas", disse Johnson.

Após a guerra, contudo, muitos homens voltaram a seus cargos anteriores na Disney, empurrando as mulheres de volta ao departamento de nanquim e coloração. Os salários das mulheres, se tivessem subido durante a guerra, foram reduzidos também, disse Johnson.

Fleener não se recorda de ter se sentido discriminada em seu local de trabalho. Indagada se em algum momento enfrentou sexismo ou qualquer tipo de assédio baseado no gênero, ela respondeu: "Não pensávamos assim naquela época. Ouvimos falar de coisas que aconteciam em Hollywood. Sempre havia fofocas, mas não sabíamos se eram verdade."

Courtesy Mary Fleener
Um desenho do Pato Donald feito por Virginia Fleener.

Fleener foi uma das primeiras mulheres a penetrar no clube do Bolinha da animação. Muitas outras vieram depois. Jane Baer começou a trabalhar na Disney em 1954 como animadora de "A Bela Adormecida". Com 20 anos de idade, ela foi uma de dez mulheres contratadas para trabalhar no filme. Elas trabalhavam juntas em uma sala grande que Baer descreve como "o curral". Baer é a única dessas mulheres ainda viva hoje.

"Eles acharam que seria boa ideia contratar garotas porque tínhamos o traço delicado necessário para desenhar as linhas finas da princesa Aurora", ela disse ao HuffPost.

Baer, que hoje tem 83 anos, cresceu em Winnipeg, Canadá, onde tinha o que descreve como uma "vida ordinária". Seus pais economizaram dinheiro suficiente para mandar um de seus filhos à faculdade: o irmão de Baer. "Para que desperdiçar o dinheiro com uma menina?", explicou Baer. "Para eles, eu ia me casar, ter filhos, e pronto."

Seu pai a incentivou a fazer aulas de arte na adolescência, mas nunca imaginou que sua filha pudesse desenhar a não ser como hobby. "A expectativa é que fôssemos estenógrafas e secretárias e depois nos casássemos e tivéssemos filhos", disse Baer. "Minha mãe nunca voltou a trabalhar depois de se casar. Nunca aprendeu a dirigir carro. As coisas eram diferentes."

Mas Baer, que se descreveu como "muito teimosa", não se deixou desanimar. Determinada a virar artista, como seu pai, ela decidiu que o primeiro passo para isso seria estudar na faculdade ArtCenter de Design, na Califórnia. "Quando me falavam que eu não podia fazer uma coisa, apenas aumentava minha determinação de fazer", ela explicou. "Meu pai disse que não financiaria meus estudos no ArtCenter, mas eu resolvi fazer de qualquer maneira."

Baer foi aceita no ArtCenter e pagou as mensalidades ela própria com o dinheiro que ganhou trabalhando como designer gráfica. Ela dividia uma casa com uma mulher texana mais velha que passara recentemente por seu quinto divórcio, e Baer pagava pela hospedagem cozinhando e cuidando da faxina. Pouco depois de ela se formar, para sua sorte, a Disney começou a contratar mulheres.

As mulheres que trabalharam sobre "A Bela Adormecida" se tornaram grandes amigas, em parte, segundo Baer, porque não havia o ambiente competitivo tão comum em locais de trabalho povoados principalmente por homens. Como Baer, muitas das outras mulheres com quem ela trabalhou tinham sido educadas para ser secretárias, esposas e mães.

"Não tínhamos nenhuma aspiração de fazer mais do que estávamos fazendo", ela disse. "Não éramos desencorajadas, mas tampouco éramos incentivadas a virarmos grandes animadoras. Estávamos contentes, até certo ponto, em fazer o que fazíamos."

Embora os estereótipos de gênero tenham potencialmente limitado as ambições profissionais de Baer, ela disse que suas experiências com homens no local de trabalho foram, de modo geral, positivas. "Os homens passavam por nossa sala depois do almoço, brincavam conosco e nos distraíam do nosso trabalho", ela comentou. "E nós éramos criticadas por incentivar isso. Mas não havia nada de sexual nisso, que eu tivesse percebido. Não havia ninguém tipo Harvey Weinstein, pelo menos que eu tivesse conhecimento. Os homens mais velhos nos tratavam com muita gentileza."

Baer trabalhou em vários filmes da Disney, incluindo "O Caldeirão Mágico" e "O Príncipe e o Mendigo". Em 1984 ela abriu seu próprio estúdio de animação, a Baer Animation, com seu então marido, Dale Baer. Mais tarde, trabalho no icônico "Uma cilada para Roger Rabbit", criando a maravilhosa sequência Toon Town. Mas foi seu primeiro filme, "A Bela Adormecida", que inspirou Gretchen Albright quando esta era criança.

COURTESY MINDY JOHNSON
A artista Gyu Fujikawa trabalha sobre um produto de

Esse clássico dos contos de fadas era o filme favorito de Albright. "Eu brincava com uns adesivos que minha mãe me deu, fazendo de conta que estava aprontando os personagens para uma apresentação", ela recordou.

Albright, que tem 67 anos hoje, se sentiu atraída pelo mundo do cinema desde jovem, em parte porque seu pai trabalhou como contrarregra por 50 anos. Ela nunca se imaginou fazendo animação, mas em 1972, depois de se formar na UCLA com diploma de francês, viu que a Disney estava contratando profissionais para seu departamento de xerografia. Ela se candidatou e conseguiu o emprego. "Não é o mesmo aparelho de Xerox que a maioria das pessoas conhece", ela explicou. "É um processo em três salas."

Pouco depois ela foi transferida para o departamento de nanquim e coloração, como colorista. Para ela, o trabalho parecia uma extensão adulta de um ritual que lhe dera tanto prazer em sua infância, brincando com adesivos de Bela Adormecida. "Na coloração, a gente coloria os personagens, nas etapas finais deles. Eram incrível. Pensei: 'Não acredito que me estão pagando para fazer isso!'."

Pelo fato de trabalharem juntas por muitas horas seguidas, Albright e as outras mulheres na seção de nanquim e coloração "ficaram íntimas como irmãs". Juntas, trabalharam em clássicos da Disney incluindo "A Pequena Sereia" e "O Rei Leão", o favorito pessoal de Albright. Ela passou tempo suficiente na Disney para trabalhar em todos os setores do departamento de nanquim e coloração e, finalmente, comandar a divisão inteira; em seguida, ajudou a conduzir os animadores da Disney para a era digital. Ela disse que em todos seus anos na Disney se recorda de apenas um incidente pouco importante ocorrido com um colega homem.

"Um colega de trabalho estava passando pelo laboratório de pintura, carregando um objeto enorme que parecia um telefone, e eu fiz algum comentário sobre o tamanho do objeto. Ele respondeu algo como 'quer experimentar?'. Pensei: 'Foi mal'. Mas ele provavelmente achou que estava sendo engraçado. Isso nunca voltou a acontecer."

Os ambientes de trabalho da Disney dos quais Albright se recorda ainda eram segregados por gênero, até certo ponto. Quando ela começou a trabalhar ali, notou que havia 'tipo um ambiente de clubinho no terceiro andar do prédio de animação, ocupado quase que apenas por homens'. Albright não se preocupou muito com isso, mesmo porque sua área era povoada apenas por mulheres. "Eu estava mais interessada no trabalho que estávamos fazendo que com quem o estávamos fazendo", ela acrescentou.

Virginia Fleener não se recorda de ter ouvido comentários indesejados de homens no trabalho, mas sua filha Mary se lembrou de um incidente estranho que envolveu um desenho. Mary disse que um dia, quando tinha uns 21 anos, sua mãe saiu do trabalho cedo para ir ao dentista. Quando Virginia retornou, havia um desenho sobre sua mesa de um uma mulher na cadeira do dentista com um homem olhando tão fundo em sua garganta que tinha penetrado dentro dela. A legenda dizia: "Isto talvez doa um pouquinho".

"Havia paqueras na época. Não era tudo super correto, certinho", disse Mary, falando da era de sua mãe. "Minha mãe tem um monte de caricaturas dela que os homens desenhavam. Muitos desses homens provavelmente aprontavam todas, como hoje. Apesar de desenharem Bambi, eram velhos de cabeça poluída."

Baer, Fleener e Albright declararam que seus locais de trabalho eram, de maneira geral, lugares onde as mulheres podiam desenvolver seus talentos em segurança, diferentes dos ambientes tóxicos e misóginos descritos em notícias recentes publicadas pela imprensa. No início deste mês o diretor da Disney Animation John Lasseter anunciou que está tirando licença da Pixar, depois de ser acusado de comportamento que deixou colegas de trabalho dele se sentindo "incomodadas e desrespeitadas". É possível que nos anos 1940, 1950, 1960 e 1970 não houvesse tantos chefes predatórios quanto parece haver hoje, mas parece provável que comportamentos que hoje encaramos como problemáticos fossem vistos como normais nos locais de trabalho de meados do século 20.

O livro de Mindy Johnson inclui um trecho tirado de um manual de 1919 para secretárias, detalhando como as mulheres devem reagir se seus superiores homens agem de maneira inapropriada. Embora o manual não tenha saído dos arquivos da Disney, ele revela muito sobre o comportamento que se esperava das mulheres na época. "A mulher precisa aprender a não enxergar que o olhar do homem é ardente demais, a não sentir aquela mão que é colocada sobre a dela." Se a mulher quisesse reagir, deveria fazê-lo com "tato e cortesia, pois não é a recusa que tem efeito tanto quanto o modo como ela é apresentada".

Olhando para trás, Baer concluiu que o ambiente da Disney era mais patriarcal do que ela se deu conta na época. Mas ela acredita que esse ambiente mudou com o passar do tempo. "Ainda existe um clube do Bolinha, mas a porta agora está sendo aberta, graças à Deus", ela disse. "A mentalidade está ficando mais aberta e renovada. Não é fechada às mulheres, como antes. Mesmo que isso nunca fosse mencionado no passado, estava ali. A gente sabia que não podia pressionar demais, senão seríamos descritas como assanhadas. Hoje, não. Hoje a situação é muito animadora."

Courtesy Mary Fleener
Desenho que um colega homem deixou na mesa de Virginia Fleener.

Hoje Jane Baer tem 83 anos, Gretchen Albright tem 67 e Virginia Fleener tem 95. Muitas das colegas de trabalho delas já faleceram, mas as três mulheres ficam animadas e espantadas diante da próxima geração de quadrinistas e animadoras, especialmente as mulheres, que têm os sonhos grandes e as altas expectativas que elas não tinham.

"No mundo de hoje, as mulheres podem fazer tudo", falou Baer. "Fui a uma convenção de animação no fim de semana e fiquei estarrecida com o grande número de moças altamente talentosas que estavam ali, interessadas em todas as facetas da animação. Achei o máximo. A porta está escancarada."

As jovens animadoras de hoje com certeza se beneficiaram da experiência de mulheres como Baer, Albright e Fleener, que provaram que as mulheres têm muito mais a oferecer ao mundo da animação que "um traço delicado". As mulheres hoje estão representadas em quase todos os aspectos da produção, embora ainda em porcentagens reduzidas. Em 2015, as mulheres compuseram 10% dos diretores e produtores de animação, 17% dos roteiristas, 21% dos artistas e desenhistas e 23% dos animadores, segundo o Sindicato da Animação. Organizações como a Women in Animation se esforçam para aumentar a participação feminina; no momento, o objetivo da Women in Animation é até 2025 chegar a uma representação igual de homens e mulheres nas produções de animação.

Mary Fleener, em especial, atribuiu boa parte de seu sucesso ao fato de ter sido criada por "uma mãe que fez arte quando quis, do jeito que queria. Eu herdei seus genes artísticos e usava seus materiais."

O trabalho de Mary é muito diferente do de Virginia. Em lugar de princesas sorridentes e animais silvestres antropomorfizados, Mary desenha quadrinhos underground, feministas e impudicos, incluindo sua série semiautobiográfica "Slutburger Stories". O nome brinca com um termo pejorativo para designar uma mulher promíscua.

A capa da primeira edição de "Slutburger" mostra uma mulher desenhada no estilo cubista, como se tivesse sido pintada por uma prima feminista de Picasso movida a alucinógenos. A mulher surreal está sentada num copo enorme de martini, e suas pernas verdes, cor-de-rosa, roxas e amarelas terminam em saltos altos multicoloridos. Seu rosto é um quebra-cabeça; seus muitos braços a mostram como uma deusa Kali festeira. Ela usa alguns dos braços para posar e outros para se acariciar, exemplificando o "multitasking" constante que é uma parte intrínseca da experiência feminina.

Há algo de mágico em "A Bela Adormecida", da Disney, a história da bela princesa Aurora, que devido a uma maldição da fada Malévola é fadada a dormir um sono profundo até que um beijo de amor verdadeiro a desperte. Mas o filme clássico, baseado em um conto de Charles Perrault, não ajuda muito com a representação de gêneros em 2017. Afinal, Aurora passa a maior parte do filme inconsciente. Sem uma personagem animada como Aurora, contudo, que os chefões da Disney acharam que exigia mãos femininas para ser desenhada, talvez nunca tivesse surgido uma Slutburger, emergindo de sua taça de martini com os mamilos expostos.

Aurora pode viver feliz para sempre, mas Slutburger consegue viver do jeito que ela própria quer.

MARY FLEENER
Mary Fleener, criadora de "Slutburger Stories", atribui boa parte de seu sucesso ao fato de ter sido criada por mãe artística.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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