ENTRETENIMENTO
20/12/2017 18:43 -02 | Atualizado 21/12/2017 14:06 -02

Conversamos com Gail Simone, a verdadeira heroína feminista das HQs

Ela já escreveu quadrinhos de Mulher-Maravilha e Aves de Rapina — e ajudou a tornar o mundo dos super-heróis mais acolhedor para garotas.

Gail Simone em painel sobre quadrinhos e diversidade na CCXP 2017.
André Conti/Galpão de Imagens
Gail Simone em painel sobre quadrinhos e diversidade na CCXP 2017.

Se hoje as personagens femininas das histórias em quadrinhos de super-heróis são menos objetificadas e mais tratadas como verdadeiras personagens, a quadrinista norte-americana Gail Simone, 43, com certeza tem um (ou mais) dedinho de "culpa" nisso.

Em 1999, ela e outros artistas do meio criaram o site Women in Refrigerators ("mulheres em refrigeradores", em tradução livre) para listar as diversas violências que mulheres sofrem nesses gibis — e apenas como solução narrativa para fazer a história do herói ir adiante, frequentemente em busca de vingança.

"Não é tropo usar personagens femininas longevas e adoradas dessa maneira para personagens homens validarem suas vinganças?", questiona Simone em entrevista ao HuffPost Brasil, na última Comic Con Experience (CCXP), em São Paulo. "De novo e de novo algumas de minhas personagens favoritas perderam seus poderes, foram estupradas, assassinadas, esquartejadas e colocadas em refrigeradores, essas coisas horríveis."

O título do site refere-se a um momento escabroso protagonizado pelo lanterna verde Kyle Rayner, em um quadrinho da DC lançado em 1994. Ele encontra dentro de uma geladeira o cadáver de Alex, sua então namorada. Ela tinha sido morta por Major Força, antagonista do Lanterna Verde.

"Uma vez que isso acontece, a história se torna sobre o herói jurar vingança, e não mais sobre a heroína", explica Simone. "E está em todo tipo de ficção. Chegou ao ponto em que até Hollywood reconheceu isso e deu às pessoas a pausa para pensar: 'podemos parar de ser preguiçosos com histórias?' e 'nós consideramos que há leitoras por aí?'."

Outro "clássico exemplo" de uma mulher no refrigerador, ela conta, é A Piada Mortal (1988), o icônico quadrinho do Batman escrito por Alan Moore e desenhado por Brian Bolland. No enredo, o Coringa invade a casa de Batgirl e dispara um tiro à queima-roupa contra ela — e o saldo do ataque para a heroína é precisar usar uma cadeira de rodas.

Em 1995, Batgirl voltou com outro nome, Oráculo, como uma uma hacker de altíssima capacidade e o cérebro por trás das Aves de Rapina, cuja estreia nos quadrinhos aconteceu naquele ano. Em sua passagem pelo título, Simone abordou as consequências do ataque por meio do transtorno de estresse pós-traumático da heroína.

Reprodução
Capa de 'Crosswind' (Image Comics), novo quadrinho de Gail Simone, desenhada por Cat Staggs.

"Sou uma grande fã de Alan Moore — só não sou fã desse trabalho em particular. Porque parece que naquele tempo era isso o que devia ser feito com as personagens femininas", diz.

"Foi só depois que os gênios John Ostrander e sua parceira [Kim Yale] a transformaram em Oráculo [em Esquadrão Suicida] e fizeram dela essa personagem incrível que sobreviveu a uma invasão domiciliar e a essa violência. Esta é apenas minha opinião".

A carreira de Simone nos quadrinhos começou quando ela finalmente decidiu se arriscar a fazer algo criativo que não fosse arrumar o cabelo de outras pessoas. Ela estudou teatro na faculdade e trabalhou como cabeleireira. "Minha família me dizia que eu nunca conseguiria pagar minhas contas escrevendo, então fui fazer outras coisas", conta. No entanto, a vontade de ser artista falou mais alto.

"Eu sentei e pensei 'eu absolutamente não sei desenhar, não sou escultora, não sou pintora, não sou musicista'. Fui até o fim da lista e a única coisa que senti que realmente queria fazer era escrever."

Ela teve uma coluna de sátira sobre a cultura dos quadrinhos em um site, começou a escrever para a revista de Os Simpsons e depois foi contratada pela Marvel para trabalhar em Deadpool. Foi na DC, entretanto, que Simone se firmou como uma das roteiristas mais notáveis dos quadrinhos contemporâneos de heróis. Os quatro anos em que ela escreveu Aves de Rapina são idolatrados pelos fãs, bem como os ciclos de Mulher-Maravilha, Sexteto Sinistro e Batgirl nos quais trabalhou.

Sua passagem por essas HQs foi marcada principalmente pela qualidade da representatividade de mulheres, fazendo diferente de muitos artistas que as hipersexualizam nas páginas e deixa as leitoras indignadas.

"Eu gosto de quadrinhos sensuais, mas rejeito a ideia de que há apenas uma ideia do que é sexy", explica.

"Sempre costumo me certificar de que temos diferentes tipos de corpos, tamanhos, motivações e coisas que possam distinguir uma personagem feminina da outra. Essa diferença é importante porque, quando a objetificação acontece, você diz 'esse tipo de coisa é sexy, e quem quiser ser sexy tem que lutar ser assim'. E isso não é realista. O sexy vem um pouco da surpresa e do não esperado."

André Conti/Galção de Imagens
Simone em painel na CCXP.

Esta iniciativa gerou um saldo para a roteirista. No início do século, quando começou a carreira, ela recebia mensagens de ódio por email — mas também mensagens positivas. "Se você não recebe críticas ou emails negativos, provavelmente não está fazendo nada de novo. Estou completamente tranquila se as pessoas ficarem bravas, pois significa que estou incomodando um pouco."

De lá para cá, Simone tem somado dezenas de títulos no currículo. Atualmente, ela trabalha com Cat Staggs na fantasia policial Crosswind, a ser lançada pela Image Comics nos Estados Unidos no início de 2018. A trama está centrada em um assassino de aluguel e uma dona de casa que trocam de corpo. "Uma mistura de Sexta-Feira Muito Louca com Os Bons Companheiros", como define a editora.

Para o selo Vertigo, da DC, ela tem trabalhado em Clean Room, sobre uma jornalista que investiga uma guru de autoajuda; e para a própria DC, um crossover de Mulher-Maravilha e Conan, o Bárbaro, que neste dezembro chega ao quarto número.

É impossível falar de feminismo nos quadrinhos de super-heróis sem mencionar Gail Simone ou Women in Refrigerators — e é possível considerar que a demanda pela boa representatividade feminina na cultura pop tenha começado no meio dos quadrinhos, nos últimos anos. A roteirista diz que está feliz com o filme da Mulher-Maravilha e valeu ter esperado "cada ano" de sua vida por ele.

Divulgação/DC Entertainment

"E não apenas por isso, mas por mudar o jogo também. Mulher-Maravilha é o filme que Hollywood achava que nunca poderia ser feito, nunca seria lucrativo, ninguém iria vê-lo, ninguém se importaria, mas tornou-se um grande blockbuster. Isso quebra a barreira para vários filmes que ainda serão feitos."

"Imagine todas as meninas pequenas e meninos pequenos que assistirem a esse filme na juventude, o efeito profundo que terá neles, em comparação ao tipo de filmes de super-heróis que vimos antes ou filmes protagonizados por mulheres", diz com entusiasmo.

Gail Simone não menciona isso, mas ela com certeza tem um (ou mais) dedinho de "culpa" nisso.

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