COMPORTAMENTO
20/12/2017 20:07 -02 | Atualizado 21/12/2017 11:56 -02

5 relatos de mulheres que provam por que o 'sexo ruim' ainda precisa ser questionado

"Você se questiona o quanto está sendo conivente com a própria situação de violência. O consentimento é muito simples de definir, mas para quem vive aquele momento é muito difícil de perceber os constrangimentos."

'Cat Person', da autora Kristen Roupenian, viralizou nas redes sociais.
Reprodução/Flickr/Narghee-la
'Cat Person', da autora Kristen Roupenian, viralizou nas redes sociais.

"Você já está aqui", "Você já foi longe demais", "Você queria", "Você pediu", "Até já tirou a sua roupa", "Respira. Não vai demorar ", "Ele pode ficar bravo", "Não sei como dizer que não quero mais", "Ele vai achar que eu sou louca".

O sexo ruim pode te fazer sentir como se tivesse sido violada. Te deixa confusa e com nojo. Mas não há ninguém para culpar, já que você não foi explicitamente forçada a nada. Você poderia ter dito não, mas você não o fez. Você não encontrou as palavras ou não teve coragem de dizê-las. É um sentimento horrível, mas não necessariamente é algo capaz de te traumatizar. É algo que você escolhe deletar e deixar para trás. Você tenta não pensar sobre isso e, talvez, até brinque com suas amigas sobre toda a situação em um almoço no dia seguinte. Para muitas mulheres, o sexo ruim é a norma e não a exceção.

O texto mais lido da revista americana The New Yorker em 2017 é um conto que vai muito além da ficção ao trazer a problematização do que é um sexo ruim, ou melhor, do que significa consentir com uma relação sexual.

Cat Person, da autora Kristen Roupenian, viralizou nas redes sociais após a sua publicação em 11 de dezembro por uma característica muito simples: Qualquer mulher heterossexual que vive no século 21 conhece alguém ou já viveu uma situação similar a de Margot.

Margot é uma menina de 20 anos que conhece Robert, um cara mais velho, no cinema em que ela trabalha. Eles começam a flertar e a conversar por aplicativos de mensagens. Nos diálogos milimetricamente pensados, Margot consegue forjar um ideal do que Robert seria - e se apaixona por ele. No encontro real, para além da performance digital, a menina simplesmente não se sente mais atraída pelo homem-mais-velho-sábio-e-protetor. Mas Margot já estava na cama de Robert, e sem roupas.

A habilidade de Roupenian está, sobretudo, nas descrições das cenas e dos pensamentos das personagens que dialogam com os relacionamentos contemporâneos. Ainda, a autora foi capaz de trazer um retrato das relações permeadas de violências, mesmo quando não há estupro ou assédio escancarado.

"Eu acho que esse conto é maior do que a relação específica de Margot e Robert, porque fala como muitas mulheres, especialmente mulheres jovens, se colocam no mundo: Não irritando as pessoas, assumindo a responsabilidade pelas emoções de outras pessoas, se esforçando extremamente para manter todos ao seu redor felizes. É um reflexo da sociedade e é uma auto-proteção dessas meninas, mas também é muito cansativo. Você replica esse comportamento por um tempo suficiente até parar de perceber", declarou a autora Kristen Roupenian em entrevista a New Yorker.

Em depoimento ao HuffPost Brasil, cinco mulheres de idades similares a de Margot compartilharam as suas experiências de consentimento em um sexo ruim, quando, na realidade, tudo o que elas precisavam era saber que elas tinham todo o direito de dizer 'não'.

Reprodução/Flickr
Mulheres relatam situações de sexo ruim.

Ana*, 23 anos: Saiba o que te dá prazer e se conheça em todos os níveis.

Namorei por dois anos e meio. Foi bem aqueles namoros de adolescência, nos conhecemos no colégio e começamos a namorar com 16 anos. Com menos de um mês, fomos além do beijo. Eu odiava. Tira a camiseta, faz oral, não sentia prazer no oral e tudo quando falava sobre sexo com minhas amigas eu ouvia "mas você é a namorada dele, ou voce dá ou você perde".

Com 9 meses juntos ele tentou transar comigo mesmo eu falando não. Ficou um clima mega chato. Ele chorou, falou que eu não o amava. Na semana seguinte perdi a virgindade. Eu já tomava anticoncepcional por causa de cólicas fortes, mas insisti na camisinha. Não sangrei e doeu muito. A segunda vez foi na mesma noite. Sangrei muito. Entrei em pânico, chorei sozinha na cama dele, já que não dormíamos juntos aquela época. Eu passei a noite acordada lembrando das duas vezes que ele veio para cima de mim. Eu falando não, ele falando sim e que eu era namorada dele. Ele tentava ir fundo e eu fingia alguma cara como se estivesse gostando. Ele estava suado, ficava me mudando de posição (inspirado por pornô né, já que ele era virgem e as posições eram horríveis). No dia seguinte, ele veio com mensagens de que era a "melhor noite da minha vida, voce é demais, etc".

Fui me convencendo que uma hora o sexo ia melhorar. Não melhorou. Passei o resto do relacionamento tentando transformar o sexo em algo mais agradável, mudar a posição, insistir no oral em mim antes, trocar de camisinha. Mas a sensação era sempre a mesma de quando eu perdi a virgindade. Eu cheguei a dormir uma ou duas vezes no meio da transa. Ele nem percebeu. Eu nunca gozei com ele, mas ele fazia a festa. Eu odiava quando a gente ficava junto de madrugada e eu ia sentindo o que ia acontecer, nem adiantava fingir que estava dormindo que ele dava um jeito de me acordar.

Chegou um ponto que eu só aceitava, transava 10 minutinhos, fazia caras, bocas e gemidos, ele gozava e eu dormia. Depois de um tempo rolou ainda o "vamos transar sem camisinha, estamos juntos faz tempo". Foi h-o-r-r-í-v-e-l. Eu pedia para ele parar e ele insistia que estava gostoso, que era mais suave.

Quando a gente terminou o relacionamento eu disse quanto eu odiava transar com ele. Foi a primeira vez que só ele percebeu que só ele sentia prazer nesse tempo todo.

Hoje, eu sei que é importante descobrir o que a gente realmente gosta. Se dar um tempo. Não é porque você é namorada de alguém que você deve algo a esse alguém. Se descubra - e isso pode significar muitas coisas, desde afetivas, fazer uma terapia, descobrir seu corpo, etc. E não sinta medo de dizer não, não peça desculpas por dizer não. E principalmente: não fique com alguém que te pressiona e não aceita o seu não. Fale com suas amigas, não guarde tudo pra si. E jamais se depile porque um cara tem nojo, se ame e descubra o que você gosta e no seu tempo.

Joana*, 24 anos: Ele precisa saber que ele não te satisfaz sexualmente, mesmo que isso machuque o ego.

Namorei um cara durante 2 anos. No começo, o sexo era muito bom. Mas, conforme o tempo passou e, devido a alguns acontecimentos, a relação esfriou. Consequentemente, aconteceu o mesmo com o sexo. Um dia, eu estava na casa dele, tinha ido dormir lá. Tudo o que eu não queria fazer era transar. Ele, por outro lado, ficava me provocando o tempo inteiro, insistindo.

Eu estava desanimada e fui honesta. Eu já havia dito com todas as letras que ele não me satisfazia mais sexualmente, pelo menos não como as coisas estavam. Ele ficou bravo com minha desanimação e começou a falar muitas coisas que me magoavam. Pra evitar brigar e me desgastar (mais) tentei deixar rolar. Acontece que, como eu previa, foi péssimo. Tudo o que eu conseguia pensar era: "Goza logo por favor." Queria que aquilo terminasse o mais rápido possível. Foi ridículo. Mais pro fim do ato, desisti de tentar fazer parecer algo bom e pouco tempo depois disso terminamos o relacionamento. Além disso, ele vivia querendo mostrar que sabia fazer as coisas, mas sempre que eu pedia pra que ele fizesse algo diferente no oral, por exemplo, ele não me ouvia e continuava a fazer do jeito que ele queria, sem ligar para o que eu gostava.

Hoje, eu gostaria que alguém tivesse me dito: Não faça isso. Você não precisa se sujeitar a uma situação como essa, você não é um objeto de prazer para ele. Arrume suas coisas e vá embora. Termine logo e seja mais feliz sozinha.

Flávia*, 24 anos: Não tenha medo de dizer não. Você não é frígida nem louca.

Dei match com um cara no Tinder e ele estudava na mesma faculdade que eu, só que fazia outro curso. Eu nunca tinha visto ele. Marcamos de sair perto da faculdade e logo de saída ele se mostrou um chato de carteirinha: quis escolher o bar (sequer perguntou se eu tomava cerveja e me levou num bar da Brahma) e simplesmente não parava de falar sobre ele mesmo, sobre a família e os amigos dele, sobre as viagens dele, sobre o surfe que ele praticava, sem me dar nem um tempinho pra falar qualquer coisa que fosse, nem mesmo comentar as histórias dele. Eu estava ficando cada vez mais indignada com a situação, mas como ele não parava de falar eu não achava deixa pra ir embora.

Aí, num ato de desespero, consegui ir ao banheiro. Só que e quando eu voltei para a mesa ele tinha pagado a conta (sim, sem me consultar) e perguntou se eu queria carona pra casa. Eu pensei "poxa, depois dessa, bem que eu queria mesmo não ter que pagar táxi" e aceitei. Porém, ele estacionou numa ruazinha sem ninguém e meio que começou a dar a entender que queria que rolasse uma pegação. Na hora eu não queria, mas fiquei pensando que não tinha como eu negar, primeiro porque eu tinha topado até ali e segundo porque estava no carro dele em uma rua escura e deserta. Daí acabei topando, pensando "ah que se dane, só uns beijinhos". Só que foi o pior beijo da minha vida: o cara mordia minha língua, meus lábios, meu queixo e todo o meu rosto. Estava doendo! Se fosse só isso, beleza. Só que, uns dez minutos depois que começamos a nos beijar, ele me puxou pra cima dele (de roupa mesmo) e ejaculou. Tipo, realmente gozou por baixo da roupa. Eu fiquei sem reação, achando que ele ficaria constrangido, mas ele só sorriu e disse "olha só o que você fez comigo!".

Eu fiquei sem entender nada e pedi pra ele me levar pra casa. Ele queria me beijar de novo, mas eu me esquivei e saí do carro. Por semanas, o cara ficou me convidando pra tomar cerveja e eu ignorando. O último contato que eu tive com ele foi um emoji de cervejinha que ele me mandou - e daí, eu acabei bloqueando o contato.

Hoje em dia eu sei que eu poderia ter dito não, sei que eu deveria ter dito não. Só que, na hora, tanta coisa te impede. Você tem medo de tudo, desde ser agredida até ficar conhecida como "frígida" ou pior.

Luisa*, 22 anos: É preciso ter coragem de admitir que o sexo é uma bosta.

Eu namorei um cara durante 2 anos. Eu o conheci na balada e nós ficamos. Foi péssimo, mas eu estava com umas amigas, que ficaram com amigos dele, e queriam encontrar com eles de novo. Como elas eram muito tímidas, eu meio que fui conversando com o cara e a gente foi se aproximando. Eu fui achando ele muito gente fina, a gente tinha gostos parecidos e fui curtindo ele cada vez mais. Só q ele morava em outra cidade, então não dava para se ver o tempo todo. Na primeira vez que a gente transou, não foi legal. Eu não senti nada. Não curti, mas fingi que sim. Eu já estava meio apaixonada, não queria magoá-lo. E como eu tomava pílula, achava também que não tava legal porque a pílula diminuía a minha libido. E eu fui levando a situação. Sempre arranjava justificativas porquê não tinha sido bom e todas as vezes fingia que o sexo estava ótimo. Como eu tava apaixonada, também me dizia que não ia terminar por causa só do sexo.

Mas eu terminei e conheci o meu namorado atual. Foi ai que parei para pensar no quanto eu deveria ter terminado antes aquele relacionamento. As mulheres sofrem tanta pressão que, quando o sexo não é bom, a gente acha que a culpa é nossa ou que tudo bem, é assim mesmo. E se a gente gosta do cara, o sentimento acaba valendo mais do que só o desejo físico. Mas não é bem assim. A culpa não é nossa e tudo bem se a gente quiser terminar com alguém porque a gente não gosta do sexo, sabe?

Eu queria ter dito isso para mim anos atrás. É preciso ter coragem de compartilhar e admitir, mesmo que para pessoas próximas, que o sexo é uma bosta e que isso está afetando o nosso relacionamento.]

Rafaela*, 24 anos: O consentimento é simples de definir, mas para quem vive aquele momento é muito difícil de perceber os constrangimentos.

Eu só pude refletir sobre o consentimento depois que eu terminei o meu relacionamento. Eu comecei a sair com várias pessoa e usei aplicativos. Como eu sou bissexual, eu consegui perceber que a partir do momento que você já marca um encontro, não importa se você está afim ou não de transar, os homens já partem do pressuposto que vocês vão transar. Essa é a mentalidade masculina predominante principalmente nesses apps. Eu já fui beber uma cerveja com cara e percebi que na hora H eu não estava tão afim assim.

E é muito doido você transar com uma pessoa que você conheceu há 3 horas. Você pode estar com muita vontade, mas no momento do sexo em si tem um distanciamento porque você simplesmente não conhece essa pessoa. Eu passei por isso várias vezes. E eu não percebia isso, o quanto invasivo isso era, simplesmente porque eu me desligava do meu corpo. Era mais fácil eu simplesmente aceitar e esperar acabar.

Isso sem contar os casos de homens que achavam que porque nós transamos uma vez, você deveria estar sempre disponível para eles. Já aconteceu de um cara dormir comigo e na manhã seguinte me acordar passando a mão no meu corpo, sem ao menos me perguntar qualquer coisa e eu fingia que eu estava dormindo. Raramente eu conseguia pedir para parar ou explicar porque aquilo me incomodava.

Esse consentimento precisa ser questionado. Você começa a perceber que essas situações são nuances de uma violência, sim. Você se questiona o quanto está sendo conivente com a própria situação de violência. O consentimento é muito simples para algumas pessoas definirem, mas para quem vive aquele momento é muito difícil de perceber os incômodos e constrangimentos.

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