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18/12/2017 11:46 -02 | Atualizado 21/12/2017 17:26 -02

Festa do Terno de Reis: A tradição de Natal que se mantém viva na Bahia

Conteúdo patrocinado por Natura.

Ana Valéria Ribeiro/Especial para HuffPost Brasil

"Às vezes a gente já estava dormindo e escutava os instrumentos batendo nas casas da vizinhança, e os cachorros latindo. E a gente dizia: 'Olha, os reisados vão vir. Estão vindo aí'. Eu até me arrepio quando lembro. Eles começavam a tocar os instrumentos na porta da casa, e a gente levantava, se arrumava e colocava a água do café no fogo. Eles cantavam do lado de fora da casa, com a porta fechada. E diziam: 'Viva o Santo Reis!'. E meu pai, lá dentro, gritava: 'Viva!'. Então eles entravam pela sala grande, cantavam e dançavam. Era uma festa."

As lembranças de Maria dos Santos Lima remontam a quando ela tinha apenas sete anos de idade, primeira vez em que assistiu a uma festa de Terno de Reis, também conhecida como Folia de Reis ou Reisado. Ela acompanhou por muitos anos a tradição, que faz referência à história bíblica da cruzada dos três reis magos ao encontro do menino de Jesus, na ocasião do seu nascimento. A festa se popularizou pelo interior da Bahia, a exemplo da cidade de Belo Campo, onde Maria residia quando herdou da família o prazer em participar do evento.

De acordo com o costume, o grupo de músicos que integram o Terno de Reis percorre as casas da comunidade a partir do dia 25 de dezembro, levando música, dança, orações e a imagem do Santo Reis até as famílias. A festa só se encerra no dia 6 de janeiro, quando é comemorado o Dia de Reis. "É um grupo de pessoas diferenciadas, com respeito à fé. Eles não cantam simplesmente por cantar, não é para ganhar dinheiro, nada disso. É uma devoção, é por amor", descreve Maria.

Ana Valéria Ribeiro/Especial para HuffPost Brasil

Quando se mudou para Vitória da Conquista, também no sudoeste baiano, a dona de casa conservou o costume e, por muitos anos, abriu suas portas para a Folia de Reis. À medida que a visita dos foliões foi se tornando menos comum, ela passou a assistir a eles no Natal da Cidade, evento da Prefeitura Municipal que abre espaço para a apresentação dos grupos de Terno que ainda existem no município. Hoje, aos 58 anos, ela resume a experiência desse contato: "É como matar a saudade da minha alma".

Ao lado da casa de Maria, Dejanira Oliveira compartilha o mesmo sentimento. Assim como a vizinha, dona Deja conheceu a festa do Reisado ainda criança. Ela cresceu no distrito de Iguá, zona rural de Vitória da Conquista, e ainda se lembra de como era: "Quando chegava o Reis, a gente já estava se arrumando e fazendo as coisas, como bandeirolas e o meu-boi-bumbá. Já fiz tudo, até já cantei, com chapéu enfeitado e roupa bonita."

Aos 85 anos, dona Deja conta que o evento também era uma oportunidade de reencontrar e fazer novos amigos. Aliás, foi em uma festa de Terno de Reis que ela conheceu o marido, com quem foi casada por 54 anos. Quando ele faleceu, o Reisado ganhou mais um significado de saudade.

Em Vitória da Conquista, a tradição ainda tenta sobreviver. Um dos responsáveis por isso é Seu Agapito Pereira, que, ao lado da irmã, Zenite, criou o Terno de Reis "Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu". Já no início do mês de dezembro, a casa dos irmãos está inteiramente decorada - um pequeno altar rodeado por luzes natalinas exibe imagens bíblicas, com destaque para o Santo Reis. Além disso, troféus conquistados em apresentações do Natal da Cidade demonstram com orgulho o empenho do grupo. É na mesma sala onde fica esse altar que o Terno se reúne com gaitas, zabumbas, pandeiros, cantigas e muita alegria.

"Tudo isso começou com meu avô, na roça mesmo. Eles não usavam nem esse chapéu enfeitado, pegavam umas florzinhas no mato, enfiavam no chapéu e saiam pelo mundo cantando", conta seu Agapito. O costume foi passado de geração para geração. Hoje, dona Zenite já está com 103 anos e vive acamada. Seu Agapito, aos 84, perdeu as duas pernas para a trombose. Mas nada disso foi um obstáculo definitivo para a manutenção do Terno.

"Deus tirou os passos dele, mas não tirou a vida", lembra Anfísio Carvalho, 75, conhecido como Seu Piu. O folião se refere a Seu Agapito como "professor" de todos os demais membros. Para ele, o grupo é como uma grande família. Além do sentido literal do termo, já que alguns dos foliões são realmente irmãos ou primos, Seu Piu reforça o sentimento de união, devoção e amor que mantém a tradição de pé. "Esse Reis aqui só cai quando a gente morrer. Enquanto vida tiver, a gente não deixa cair", completa.

O Terno "Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu" se apresenta todos os anos em praça pública, no Natal da Cidade. Além disso, a partir do dia 1º de janeiro, ele leva a Folia de Reis por diversas casas da redondeza. No dia 6, os festejos são encerrados na residência de Dona Zenite e Seu Agapito, em uma grande comemoração que envolve reza, música, dança, comidas e bebidas. "Essa tradição de Terno de Reis é a melhor que existe no mundo. Para mim, não tem carnaval, não tem mais nada", enfatiza o anfitrião.

Para os foliões, a festa é esperada com entusiasmo durante todo o ano. "Quando entra o mês de dezembro, e a gente não vem aqui fazer um ensaiozinho, ficamos todos para baixo. Mas quando eles começam, aí fica todo mundo na alegria", revela João Maurílio, 63, o Jandim. Ele conta ainda que os encontros do grupo são muito mais pela diversão do que para fazer um ensaio propriamente dito. Seu irmão, Gerson Maurílio, 60, conhecido como Ziu, concorda: "Nós não precisamos nem de ensaio. Nós já vivemos ensaiados, nascemos desse jeito. É assim desde criança."

O encanto do Reisado é tão forte que até quem veio de muito longe para conhecer a festa não quis mais abandonar. Foi o caso de Keli Cristina Silva, natural de São Paulo, que começou a acompanhar o seu pai nas viagens para participar da Folia dos Ternos. Antes mesmo de se mudar de vez para a Bahia, ela já empunhava o pandeiro e fazia coro ao cântico do Terno de Reis de seu Agapito. Hoje, aos 34 anos, é uma das integrantes mais jovens do grupo. "É muita alegria. Só de você chegar em uma casa e ver a emoção das pessoas em te receberem bem, querer os Reis, pedir para cantar... Isso aí é uma grande satisfação para a gente", descreve.

Ao contar que eles são um dos poucos Ternos de Reis que ainda resistem na cidade, o grupo reconhece que a prática do Reisado tem se tornado cada vez mais rara. Para eles, uma das causas disso é que as pessoas jovens não têm interesse em aprender e participar da festa. Até mesmo o seu grupo, que já foi mais numeroso, hoje conta apenas com 12 pessoas. "Deus já levou muitos de nós. Mas até quem Deus levou deve estar tocando Terno de Reis lá em cima", brinca o folião Celestino Bastos, 66.

O cabeça do grupo se mostra confiante de que o Terno "Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu" continuará espalhando a festa pela comunidade por muito tempo. E com a espontaneidade e a alegria de quem faz Reisado há mais de 40 anos, e pretende nunca deixa-la morrer, Seu Agapito improvisa uma cantiga que traduz o sentimento e o simbolismo em torno da tradição: "E Santo Reis na sua casa é o quê? É sinal de alegria. E nós viemos cantar o Reis para quem? Para Jesus, José e Maria. Quando nós acabamos de cantar, o relógio batia doze horas. José 'tava' lá dentro, e Jesus 'tava' 'cá' fora."

Ana Valéria Ribeiro/Especial para HuffPost Brasil