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15/12/2017 21:03 -02 | Atualizado 15/12/2017 21:03 -02

'Elfo na Prateleira' expõe ‘situações horríveis’ enfrentadas diariamente por cadeirantes

Com determinação e espírito natalino, Alfie mostra a quase interminável lista de problemas enfrentados por pessoas com deficiência.

Neste mês de dezembro, crianças em todo o mundo se encantarão com seu 'Elfo na Prateleira' fazendo travessuras pela casa. Inspirada no livro Elf on the Shelf: A Christmas Tradition, publicado em 2005 nos Estados Unidos, a brincadeira consiste em colocar o boneco em vários pontos da casa para observar as crianças e "contar ao Papai Noel" como se portaram. As obedientes, claro, receberão seu presente no dia de Natal.

Mas, para uma família de Cornwall, no Reino Unido, seu elfo não conseguirá subir as escadas ou se esconder em lugares inusitados.

O elfo Alfie (@Elf_On_Wheels) usa cadeira de rodas e, neste Natal, está chamando a atenção para a quase interminável lista de problemas enfrentados por pessoas com deficiência: desde banheiros não adaptados até a falta de rampas nas principais ruas.

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Alfie mostra como os ganchos são essenciais em banheiros adaptados.

O elfo representa o filho de Rachel George, Adam, de 11 anos, que enfrenta os mesmos desafios que Alfie quase que diariamente. Rachel, que tem dois filhos, não queria invadir a privacidade de Adam, mas estava desesperada para compartilhar os obstáculos imperdoáveis enfrentados por ele todos os dias. Por isso, decidiu documentar a vida de Alfie.

"As coisas que Alfie está enfrentando são todas as coisas que meu filho tem enfrentado", disse Rachel ao HuffPost UK. "É difícil compartilhar algumas coisas, porque me preocupo com a privacidade de meu filho e não compartilharia nada que o deixasse constrangido no futuro. Não compartilharia uma foto de meu filho enganchado ao vaso, mas acho importante que as pessoas vejam, para que entendam como isso é normal", acrescentou.

"O elfo Alfie gentilmente deu permissão para tirar fotos suas e compartilhá-las on-line."

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Rachel e o filho Adam.

O elfo Alfie se tornou uma espécie de porta-voz para 13,3 milhões de pessoas com deficiência no Reino Unido.

Rachel, cuidadora em tempo integral e educadora no lar que escreve no blog ordinaryhopes.com, explica: "As pessoas com deficiência enfrentam muitas dificuldades, mas frequentemente não gostam de mencioná-las. As pessoas enfrentam dificuldades, assim como Alfie, todos os dias", afirma.

"Às vezes, quando reclamam, ouvem que não deveriam esperar ser capazes de ir a todos os lugares, e isso machuca. Também faz com que outras pessoas tenham menos disposição de se manifestar", continua.

"O elfo Alfie está preparado para enfrentar tais comentários sem se magoar, porque está cheio de determinação e espírito natalino. Alfie me proporciona uma maneira divertida e leve de dizer coisas sérias sobre situações muito reais e horríveis."

A família enfrenta dificuldades e exclusão todos os dias, e Rachel, de 42 anos, diz que, ao longo do tempo, "todas essas coisas se acumulam e magoam".

Por exemplo, na cidade onde moram, muitas das lojas têm degraus, tornando praticamente impossível para a família levar o filho a esses lugares, bem como a atrações turísticas e parques locais, que não estão adaptados para usuários de cadeiras de rodas.

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Alfie não pode entrar nas lojas por causa dos degraus.

"A maioria dos parques não tem nada acessível para Adam", explica Rachel. "Você pode imaginar as reclamações de pais de crianças sem deficiências físicas se os parques locais não tivessem brinquedos? Para meu filho, os parques poderiam também ter um grande sinal com o símbolo de uma cadeira de rodas e os dizeres 'Mantenha-se à Distância!".

Também há a questão de acessibilidade aos banheiros, que Rachel descreve como um "grande problema", especialmente porque, em alguns casos, ela teve de deixar a porta aberta enquanto o filho ia ao toalete.

Ela explica: "Muitos lugares pensam que atender a padrões mínimos é o suficiente, mas acho que, no mínimo, devemos ser capazes de ir ao toalete e fechar a porta. Os toaletes de nosso zoológico local nem sequer permitem que façamos isso".

"Meu filho consegue usar o banheiro, mas precisa de um gancho para alçá-lo de sua cadeira de rodas e um assento para que se apoie sobre algum tipo de revestimento e coloque seu colete sanitário antes de ser sustentado sobre o vaso."

Segundo ela, é um equipamento de instalação simples e que não necessita de muito espaço. "Nosso banheiro em casa mede 2,28m x 2,54m e conseguimos instalá-lo."

O grupo de organizações britânico Changing Places faz campanhas a favor de banheiros totalmente adaptados e mais espaçosos, com assentos de altura justáveis e ganchos. No entanto, atualmente existem apenas 1.044 toaletes adaptados em todo o Reino Unido, muito menos do que o necessário para as centenas de milhares de pessoas que precisam deles.

Até agora, o elfo Alfie ajudou a chamar a atenção para as inadequadas instalações sanitárias em sua comunidade. Depois que Rachel postou a experiência de Alfie em uma loja da Sainsbury nas redes sociais, onde o elfo foi ao café para comer uma "mince pie" [empada natalina com frutos secos, sebo e carne moída] e não conseguiu usar o banheiro -- porque este não atendia às suas necessidades --, ela recebeu uma ligação do gerente da loja dizendo que eles estavam fazendo tudo o que podiam para corrigir o problema.

"O gerente daquela loja me ligou para dizer que ficou triste ao tomar conhecimento de nossa história", lembra. "Ele [disse que] irá fazer todo o possível para encontrar uma maneira de que a equipe responsável por alterações nas lojas instale um gancho e mude o assento instalado, e assim todos possam comprar, comer, beber e ir ao toalete na loja", explicou. "Ele irá me ligar em algumas semanas com mais informações."

Uma coisa que Rachel quer fazer com a ajuda de Alfie é destacar as empresas que oferecem serviços positivos para pessoas com deficiência. "Estamos destacando todos aqueles que estão 'na boa lista', como a GM Coachworks, que chegou em menos de 24 horas para consertar o guincho da cadeira de rodas de nosso carro", acrescenta. "Eles entenderam que um guincho quebrado significava que não podíamos sair e foram brilhantes."

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Alfie carrega seu colete sanitário na esperança de encontrar um toalete que possa usar.

As histórias de Alfie também estão educando o público em geral sobre questões relacionadas às pessoas com deficiência que muitos desconhecem.

"As pessoas que não sabiam sobre as dificuldades enfrentadas por usuários de cadeira de rodas me contataram dizendo que é muito útil ver as aventuras de Alfie", explica.

"Ao mesmo tempo, usuários de cadeiras de rodas podem compartilhar fotos de Alfie com problemas de acessibilidade sem que ninguém sugira que estão reclamando sem necessidade."

Na corrida até o Natal, Alfie visitará atrações locais e fará algumas compras natalinas para ver como as empresas estão se saindo para atender às pessoas com deficiência.

Em última análise, Rachel quer que Alfie ajude a tornar o mundo um lugar melhor para as pessoas com deficiência -- incluindo seu filho --, de modo que possam viver sem se sentirem alienados ou discriminados, o que pode ter um grande impacto sobre a qualidade de vida de uma pessoa.

"Adam enfrenta desafios quase todos os dias em que saímos -- enquanto ele for criança, posso fazer muita coisa para aliviar esses desafios e protegê-lo deles, mas um dia ele será um adulto e não quero que enfrente as mesmas dificuldades que as gerações anteriores enfrentaram", diz.

"Precisamos desafiar as coisas agora ou nada mudará."

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Alfie estava inconsolável depois de não conseguir usar o banheiro em um supermercado local.

Rachel espera, de todo o coração, que 2018 seja menos difícil para os usuários de cadeiras de rodas.

"A Lei de Igualdade é antecipatória. Empresas e organizações devem olhar para a frente para identificar o que precisa ser feito para que ninguém seja tratado de forma menos favorecida devido à sua deficiência", explica.

Como parte disso, ela quer ver lojas, atrações turísticas, supermercados, teatros e centros de lazer se perguntando o que podem fazer para melhorar suas instalações.

Rachel também quer ver a acessibilidade aos sanitários abordada em larga escala.

"A acessibilidade aos banheiros é uma questão importante. Ninguém reservaria entradas ao teatro e um restaurante se o teatro não tivesse banheiros -- ainda assim, isso é exatamente o que enfrentamos", afirma.

"Meu filho fingiu que estava doente no ano passado para evitar ir ao cinema com os amigos, porque sabia que não havia toaletes na cidade."

"A acessibilidade aos cinemas é, muitas vezes, também muito precária, com um espaço para cadeira de rodas etiquetado no fim de uma fileira, em uma posição em que você precisa erguer o pescoço. Se você precisa de um cuidador, mas também vai com amigos, precisar sentar-se perto de seu cuidador, porque há apenas um assento ao seu lado. Por que os assentos não podem ser removidos de áreas dentro do cinema para que os usuários de cadeiras de rodas possam realmente estar com seus amigos?".

"Meu filho merece uma vida melhor. Todos merecemos. A igualdade tem de significar todos."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

Lego City - Boneco de cadeira de roda