COMPORTAMENTO
16/11/2017 10:25 -02 | Atualizado 16/11/2017 10:39 -02

O que leva homens a se masturbar diante de mulheres contra a vontade delas

Uma terapeuta e uma psicanalista discutem esse padrão comportamental perturbador, à luz das alegações feitas contra Louis C.K.

Em reportagem do New York Times publicada na última quinta-feira (9), cinco mulheres acusaram o humorista Louis C.K. de conduta sexual imprópria. A maioria das alegações é de que ele teria se masturbado diante delas sem consentimento.

As humoristas Dana Min Goodman e Julia Wolov contaram que foram convidadas a ir a seu quarto de hotel em 2002, onde o comediante teria ficado nu e se masturbado enquanto elas olhavam, "paralisadas". A atriz e roteirista Abby Schachner se recordou de Louis C.K. se masturbando audivelmente enquanto conversava com ela ao telefone em 2003, também sem o consentimento dela. A humorista Rebecca Corry disse ao NYT que em 2005 Louis C.K. perguntou se podia se masturbar diante dela, pedido que ela negou. Outra mulher, que compartilhou sua história de maneira anônima, se recordou de Louis C.K. ter se masturbado diante dela na década de 1990, no set do programa The Chris Rock Show. Mais tarde ela teria "questionado o comportamento dele".

Estes relatos estão longe de serem os primeiros de um homem poderoso que converte a masturbação em arma de agressão sexual. A jornalista de televisão Lauren Sivan contou ao HuffPost que dez anos atrás Harvey Weinstein a encurralou em um corredor e masturbou diante dela, ejaculando num vaso de plantas ao lado. A modelo Angie Everhart contou ao TMZ que Weinstein se masturbou em pé ao lado dela, enquanto ela dormia.

Nos últimos 30 dias, uma multidão de mulheres vem compartilhando denúncias de assédio e agressão sexual sofridas da parte de homens poderosos em suas áreas de trabalho. Alguns desses encontros envolveram masturbação não consensual. Trata-se de uma manifestação menos comentada de comportamento sexual predatório.

Em entrevista ao HuffPost, Quandra Chaffers, terapeuta de San Francisco especializada em comportamentos sexuais problemáticos, disse que não há nada de inerentemente incomum ou nocivo na masturbação, como ato sexual.

"A masturbação, por si só, é apenas um reconhecimento nosso de que o toque nos dá prazer, como comer quando estamos com fome", ela explicou. "Nossa sociedade ainda é muito puritana e tem medo do prazer. Não quero retratar a masturbação como algo negativo."

Mas, disse Chaffers, o desejo de masturbar-se diante de outra pessoa sem o consentimento dela deve ser entendido como uma manifestação de violência, e não um ato sexual pervertido.

"Gosto de usar a seguinte metáfora: se um agressor lhe batesse na cabeça com uma panela, você não diria que ele estava cozinhando", disse Chaffers. "O fato de um ato envolver a genitália não torna esse ato sexual. A pessoa usou a masturbação como uma arma. Não é diferente do que ela faria com uma arma de fogo. Trata-se de violência."

Ela destacou que, quando se fala em agressão sexual, o consentimento é tudo. Conduta imprópria expressa em masturbação sem o consentimento do outro tem intenção ou motivação psicológica que não diferem das intenções da agressão física ou verbal.

Às vezes, disse Chaffers, os perpetradores optam por masturbar-se em vez de agredir fisicamente sua vítima; é uma maneira calculada de evitar serem responsabilizados por uma agressão. "Existe uma preocupação grande em não serem pegos", ela explicou. "É como um assaltante de banco que usa uma máscara. A pessoa pensa: 'Se eu não a tocar ou não ejacular, não terei deixado rastros.'"

Chaffers reconheceu que existe outro fator que pode influir sobre o comportamento de alguns predadores sexuais: uma visão equivocada do que é violência sexual. "Alguns homens praticam o estupro coercivo e não sabem que o fizeram", ela disse. "Eles acham que é tudo bem, por exemplo, oferecer uma bebida a mais à mulher, na esperança de que alguma coisa a mais possa acontecer. Ensinamos os homens a pensar apenas: 'Eu não a segurei à força'. Nossas ideias de violência são muito restritas."

Essa ideia foi confirmada por algumas das reações vistas no Twitter na esteira das alegações envolvendo Louis C.K..

"Masturbar-se na frente de mulheres é crime? É estranho, sim. Exposição indecente, só se for feito em público."

O Departamento de Justiça dos EUA define agressão sexual como "qualquer tipo de contato ou comportamento sexual que ocorre sem o consentimento explícito da pessoa que o recebe".

A psicanalista Dayle M. Kramer disse ao HuffPost que, para ela, o desejo de masturbar-se e forçar pessoas a assistirem ao ato a contragosto nasce não apenas do desejo por poder e controle, mas também de sentimentos de raiva, fraqueza, humilhação e vergonha.

"Não existe um termo clínico para isso, é simplesmente vergonha", falou Kramer. "Não um tipo específico de vergonha. As pessoas podem senti-la de maneiras diferentes. Não sabemos se essa pessoa foi vítima de bullying na infância, se ela foi envergonhada. Não sabemos o que a levou a querer envergonhar a outras pessoas e a elas próprias."

Diante da pergunta sobre se o transtorno exibicionista – em que uma pessoa põe em prática seu desejo de exibir-se, acariciar-se ou estimular-se diante de um desconhecido – seria um possível fator motivador, Kramer respondeu com cautela.

"É preciso analisar o que o transtorno exibicionista significa realmente", ela ponderou. "Por que a pessoa se exibe? O que ela ganha com isso? E o que está procurando fazer? É preciso realmente conversar com a pessoa para descobrir. Não dá para simplesmente rotular as pessoas. Não sou a favor de rotular pessoas sem conversar com elas – acho isso perigoso. Nós nos apressamos a dizer que essa pessoa é narcisista, aquela outra é obsessiva. Esses rótulos nos ajudam a pensar que conhecemos alguém, sem conhecer a pessoa."

A terapeuta sexual Alexandra Katehakis, entrevistada pelo The Cut, descreveu a masturbação não consensual como manifestação de "hostilidade sexualizada" contra as vítimas, algo que às vezes pode ter suas origens identificadas em traumas ou abusos sofridos na infância. Kramer concorda com essa possibilidade.

"Todos passamos por diferentes fases de desenvolvimento", ela disse. "A masturbação seria ligada a uma fase no desenvolvimento dessa pessoa que ela não conseguiu concluir ou completar. Vemos partes diferentes de nós mesmos estacionadas em diferentes fases, e nosso comportamento reflete esse fato."

Mas Chaffers discorda da ideia de que especialmente as vítimas de violência sexual na infância tenham chances maiores de se tornarem perpetradores de violência sexual na idade adulta.

"Algumas análises recentes indicam que um conjunto de eventos traumáticos na infância está relacionado a abuso sexual cometido na idade adulta, mas não prevê a ocorrência de abuso, em algumas amostras de perpetradores. As análises apontam que o abandono e a violência física sofridas na infância são ainda mais indicativos", disse Chaffers.

Mas ela acredita que a história pessoal do perpetrador não é o fator mais importante que leva a comportamentos predatórios. "Se eu pudesse identificar uma razão que leva pessoas a perpetrarem abuso sexual, é a falta de empatia", disse a terapeuta. "Não um histórico de trauma, não uma preocupação com masturbação. É a falta de empatia." Ela acrescentou:

Vejo com frequência que os perpetradores têm uma percepção deturpada de suas vítimas. Eles acreditam que a criança que curte abraços e atenção desejou ser abusada ou sentiu prazer nisso, apesar das evidências no sentido contrário. Acham que suas colegas de trabalho quiseram realmente ser alvos das investidas sexuais de um homem poderoso, em vez de se fazerem conhecer no trabalho por seu próprio mérito, como acontece com os colegas homens. Do mesmo modo, quando trabalhei no passado com homens que cometiam violência doméstica, eles achavam que a vítima merecia a agressão, geralmente porque o desrespeitava, gritava de volta ou fazia alguma outra coisa que o autorizava a intensificar a agressão.

Alguns agressores sexuais são semelhantes, na medida em que escolhem vítimas vulneráveis e então criam uma narrativa falsa sobre a concordância da vítima com a violência. Quando são confrontados por provas de que a vítima foi ferida pela violência, lançam mão de táticas de negação, justificando seus atos, mentindo, esquecendo o que aconteceu, omitindo informações e atribuindo a culpa à vítima, para convencer a si mesmos e a outros que a agressão não teve problema.

Uma multidão de homens poderosos, incluindo Louis C.K. e Harvey Weinstein, vem fazendo manchetes recentemente por utilizar seus privilégios e status para desumanizar, assediar e silenciar mulheres que não têm meios de resistir ou reagir. Mas a violência sexual não é cometida habitualmente apenas por ricos e poderosos.

Depois de as notícias sobre Louis C.K. terem vindo à tona, na quinta-feira, muitas mulheres foram ao Twitter para falar das primeiras vezes em que foram forçadas a assistir a um homem se masturbando. "Qual foi a primeira vez que um homem bateu punheta na sua frente sem seu consentimento?" tuitou Eve Peyser, que escreve para a Vice. "Pergunto porque acho que isso já aconteceu pelo menos uma vez com a maioria das mulheres que conheço."

As respostas chegaram em grande volume: no metrô, num ponto de ônibus, numa quadra de tênis, numa ponte à noite. As mulheres, em sua maioria, ainda eram menores de idade quando isso lhes aconteceu pela primeira vez.

"Pense no que acontece no metrô, no ônibus ou no trem", disse Kramer. "Um homem se esfrega contra você com uma ereção, ou está com as mãos dentro das calças. Essas todas são formas de masturbação. Não é apenas quando o cara tira o pênis para fora."

A psicanalista comentou que, pelo fato de a masturbação tão raramente ser discutida na cultura mainstream, especialmente no contexto da agressão sexual, a vítima tem um incentivo a mais para guardar silêncio, e isso confere mais proteção aos predadores.

Kramer observou que, quanto mais ambíguo e escondido é um ato de violência sexual, menor é a probabilidade de a vítima denunciá-lo. "As pessoas têm mania de dizer 'vamos olhar um pouco para o lado', em vez de olhar de frente para o que aconteceu."

Chaffers comentou que para um predador optar por masturbar-se em vez de agredir sua vítima fisicamente muitas vezes é uma simples questão de preferência. "Pode ser apenas um tipo específico de fantasia que a pessoa curte", ela disse. "Como com o sexo consensual, todos temos nossas preferências. Mas o que há de comum nessas instâncias é que parte do prazer do perpetrador está em garantir que a outra pessoa não tenha prazer. Para ele, é chocante ou excitante pegar uma pessoa desprevenida ou fazer isso a alguém que não tem controle da situação."

Tanto Chaffers quanto Kramer destacaram que agressão sexual não é uma questão de sexo, mas de controle. O desejo de masturbar-se diante de outra pessoa sem o consentimento dela apenas enfatiza essa distinção.

"O raciocínio não é muito diferente de alguém que quer assaltar outra pessoa com arma de fogo, mas não gastar o dinheiro", disse Chaffers. "O que importa para o agressor é o poder que ele exerce sobre a vítima."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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