OPINIÃO
30/12/2017 02:26 -02 | Atualizado 30/12/2017 02:26 -02

Por trás da cultura empreendedora dos EUA

Quatro lições que podemos aprender com os empresários dos Estados Unidos.

Kimberly White / Reuters
Steve Jobs e sua Apple representam a vibração do Vale do Silício.

Amados por uns, odiados por outros, o fato é que os Estados Unidos são exemplo a ser seguido no que diz respeito ao empreendedorismo. Começando com a Ford, passando por Apple e Microsoft, chegando aos dias atuais com Netflix, Facebook, Uber e Tesla, empreender e inovar está no DNA dos estadunidenses.

Empreendedores do mundo todo questionam o porquê de a cultura empreendedora ser tão desenvolvida na terra do Tio Sam.

Um levantamento realizado pela Global Entrepreneurship Monitor mostra que o Brasil possui uma taxa de empreendedorismo superior a dos EUA, e diversas startups inovadoras estão nascendo por aqui, como é o caso da Nubank e do Méliuz. Porém, quando examinamos de perto a cultura empreendedora dos dois países e, principalmente, seus ambientes, entendemos por que muitas teorias e exemplos que vêm de fora ainda soam utópicos por aqui.

Um outro ranking, divulgado pela U.S. News, analisou os 30 melhores países para se empreender. O Brasil, único nome da América Latina, aparece em 29º. A média de pontos dos EUA, 3º lugar na lista, em comparação com o Brasil nos faz visualizar o que foi dito acima.

Não bastassem os dados apresentados, ainda temos uma vilã: a burocracia. Se nos EUA você consegue abrir uma empresa em oito dias, no Brasil você precisa de 129, segundo pesquisa da Endeavor. Ah, e nem entrarei no mérito dos impostos e da corrupção, mas você com certeza sabe do que estou falando.

Os dois países apresentam cenários bastante diferentes, tanto economicamente quanto culturalmente. Não desmerecendo, de modo algum, os pontos positivos da cultura brasileira no que diz respeito ao empreendedorismo - Florianópolis e Belo Horizonte, por exemplo, criaram ecossistemas interessantes de inovação -, penso que podemos nos inspirar no que, na minha opinião, difere os estadunidenses dos demais povos do mundo: a mentalidade! Aquilo que muitos tem chamado por aqui de mindset.

Fracassou? Levante a cabeça!

Certamente você conhece um amigo que abriu um negócio e fechou as portas depois de um tempo. Agora, reflita por um segundo: o que lhe veio em mente quando você pensou nesse amigo? Que ele fracassou?

Bom, aí está uma diferença básica de mentalidade dos estadunidenses. Uma pessoa nascida nos EUA, muito provavelmente, admirará a coragem, a criatividade e a inventividade desse amigo. O País se acostumou a celebrar os "perdedores" que persistem a todo custo.

Para muitos povos, o fracasso é visto como um constrangimento para você e sua família. Nos EUA, os erros são vistos como aprendizado.

Perturbe a tradição! Quebre os moldes!

A chamada "liderança comando e controle" ainda impera por aqui. Hierarquias ainda são mais importantes do que boas ideias. E não falo de respeito: em muitas empresas brasileiras ainda prevalece a cultura do medo.

Já o Vale do Silício, por exemplo, se orgulha em "perturbar a tradição e quebrar os moldes". Para perturbar, precisamos de culturas abertas e empreendedoras que quebrem modelos de negócios tradicionais. Gestores dinossauros têm medo de mudanças. "Eu sempre fiz assim e deu certo" — aposto que você já ouviu essa frase por aí.

A mentalidade aberta e horizontal encontrada no Vale do Silício incentiva a colaboração ao mesmo tempo em que inspira uma competição amigável. Assim, impulsiona a inovação constante. Mas, vai dizer isso para o chefe da firma...

Encontre e desenvolva talentos

As empresas dos EUA possuem abordagens criativas para encontrar e desenvolver talentos. É comum, por exemplo, os recrutadores identificarem e monitorarem os graduandos com melhor potencial nas universidades.

Eles não fazem apenas entrevistas convencionais. Em vez disso, convidam os alunos a criarem estudos focados na solução de problemas reais enfrentados pelas empresas. Os melhores desempenhos conseguem estágios e, eventualmente, empregos.

Encontrar, contratar e desenvolver os melhores talentos é uma jornada sem fim. As empresas estadunidenses reconhecem que a tecnologia pode levar inicialmente a uma inovação disruptiva, mas elas precisam de pessoas inteligentes para transformar essa inovação em um negócio lucrativo.

Seja empático

Muitas empresas começam com uma grande ideia ou um produto inovador. A diferença entre invenção e inovação é a visão. Os inventores começam com uma ideia e depois procuram por alguém que precise disso. Já os inovadores começam com uma grande necessidade não atendida e, então, buscam uma solução única para essa necessidade.

Os estadunidenses são naturalmente empáticos. O World Giving Index lista o País como a quinta nação mais generosa quando se trata de doar dinheiro para projetos ou ajudar um estranho. Quando visitei os EUA, percebi isso. Por duas vezes, locais perceberam que eu estava perdido e me ofereceram ajuda. Essa empatia significa que eles estão naturalmente sintonizados com a busca de uma necessidade insatisfeita - um talento essencial para ser inovador.

Uma segunda vantagem dessa generosidade é o apoio financeiro. Muitas pequenas empresas são construídas com capital de familiares ou amigos, pessoas que realmente querem ajudar seus conhecidos, mesmo quando os investidores dizem que a ideia é ruim ou não dará um retorno financeiro.

*Texto publicado originalmente no blog matheusdesouza.com.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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