POLÍTICA
18/05/2017 20:47 -03 | Atualizado 18/05/2017 20:47 -03

Ponto forte de Temer, apoio político inicia ruptura com debandada do governo

"Se não tenho apoio do Congresso, tô ferrado", diz Temer em gravação com empresário da JBS.

Presidente Michel Temer perde apoio após acusação de obstrução à Justiça.
Ueslei Marcelino / Reuters
Presidente Michel Temer perde apoio após acusação de obstrução à Justiça.

"Se não tenho apoio do Congresso, tô ferrado".

A frase é do presidente Michel Temer em diálogo em março pelo empresário Joesley Batista, da JBS. A gravação é parte de delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato.

Sem saber que estava sendo gravado, o peemedebista critica a atuação da oposição no Congresso, que classifica como "rasa" e ressalta a importância da base.

A revelação de que o presidente teria negociado uma mesada de R$ 500 mil para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), contudo, começou a romper a base. A entrega de cargos começou nesta quinta-feira (18).

Um desembarque do PSDB - ainda indefinido - é considerado um ponto-chave para o futuro do governo. Na tarde de quinta-feira, o líder da legenda na Câmara, deputado Ricardo Tripoli (SP) defendeu a entrega de cargos caso as investigações contra Temer avançassem.

O novo presidente do partido, por outro lado,Tasso Jereissati, fez um apelo para que os ministros se mantivessem nos cargos. Nos bastidores, Bruno Araújo (Cidades) e Aloysio Nunes (Relações Exteriores) são apontados como os mais propensos a deixar o governo.

Temer é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), aberto nesta quinta com base na delação da JBS. Ele é acusado de obstruir a Justiça. O presidente nega as acusações e diz que "não comprou o silêncio de ninguém".

Desde que assumiu o Palácio do Planalto, o peemedebista se apresenta como um presidente que prioriza o diálogo com os parlamentares, em contraposição à sua antecessora, Dilma Rousseff.

Em entrevista à TV Bandeirantes em abril, Temer destacou o bom trânsito no meio político. "Os tais índices de popularidade, eu não tenho índice elevado, mas um índice pequeno. O grande apoio que eu tenho é do Congresso nacional. Vocês se lembram que eu consegui aprovar matérias que estavam lá paradas há décadas", afirmou.

Debandada

No início da noite desta quinta, o PPS anunciou a saída do governo. "Tendo em vista a divulgação do conteúdo da delação premiada de sócios da JBS envolvendo o presidente Michel Temer e a gravidade da denúncia, o PPS (Partido Popular Socialista) decidiu deixar o governo federal", afirmou Davi Zaia, presidente do partido, em nota.

O ministro da Cultura, Roberto Freire, entregou o cargo à tarde. Na carta de demissão, ele classifica a decisão como "irrevogável", "tendo em vista os últimos acontecimentos e a instabilidade política gerada por fatos que envolvem a Presidência da República".

Também do PPS, o titular da Defesa, Raul Jungmann, contudo, irá permanecer na função "pela relevância de sua área de atuação de segurança do Estado brasileiro neste momento de crise e indefinições", de acordo com Zaia.

Considerado o mais infiel da base, o PSB também articula o desembarque. O partido se reunirá no sábado para definir a questão.

De acordo com o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), no encontro será decidido se a legenda deixa o governo e entrega os cargos e também o apoio às eleições diretas. Parlamentares mais governistas, contudo, ainda resistem ao rompimento.

Nesta quinta, o presidente da legenda, Carlos Siqueira, pediu ao ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, entregue o cargo e volte a exercer o mandato de deputado federal pelo partido.

"O que se justifica pelo fato de que o partido não pode admitir, que um de seus membros faça parte de um Governo antipopular que perdeu, por inteiro, sua legitimidade para governar o Brasil, afirmou Siqueira, em nota.

Em abril, o PSB fechou questão contra a reforma da Previdência. Isso significa que integrantes da legenda que votarem a favor da PEC podem ser punidos. A decisão também vale para a reforma trabalhista, em discussão no Senado. Na Câmara, o partido se dividiu na votação, após o Planalto cobrar fidelidade.

Parlamentares do PMDB insatisfeitos com o governo, como o deputado Celso Pansera (RJ) e os senadores Roberto Requião (PR) e Kátia Abreu (TO) também assumiram uma posição crítica sobre as revelações da JBS.

<center><blockquote class="twitter-tweet" data-lang="pt"><p lang="pt" dir="ltr">O país está sendo passado a limpo.Um pacto supra partidário pela reconstrução do Brasil precisa ser feito.Deixar diferenças de lado e lutar.</p>&mdash; Senadora Katia Abreu (@KatiaAbreu) <a href="https://twitter.com/KatiaAbreu/status/865063398328987648">18 de maio de 2017</a></blockquote><script async src="//platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script></center>

Entre os partidos do centrão, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI) manteve o apoio a Temer. O líder do PSD no Senado, Omar Aziz (AM), por sua vez, afirmou que o conteúdo das delações é grave e que não descarta um desembarque.

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A mais grave crise do Governo Temer
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