POLÍTICA
17/03/2017 11:19 -03 | Atualizado 17/03/2017 14:40 -03

Os principais pontos da entrevista de Dilma Rousseff ao Valor Econômico

“O gato angorá [Moreira Franco] tem uma bronca danada de mim porque eu não o deixei roubar, querida. Chamei o Temer e disse: 'Ele não fica!'”

Ex-presidente Dilma Rousseff em conferência em Lisboa
PATRICIA DE MELO MOREIRA via Getty Images
Ex-presidente Dilma Rousseff em conferência em Lisboa

Presença frequente em eventos internacionais sobre direitos sociais nos últimos meses, a presidente afastada, Dilma Rousseff, diz que saber de irregularidades no governo não quer dizer que tenha conseguido impedí-las. "Saber demais não significa que você é capaz de impedir algumas coisas", afirmou em entrevista ao Valor Econômico.

Ao citar o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o ex-titular da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, a petista disse que "sabia exatamente quem eles eram". "Inclusive uma parte do que sou e da minha intolerância é porque eu sabia demais quem eles eram", disse.

Ambos são citados na Operação Lava Jato, acusados de arrecadar dinheiro via caixa 2 para campanhas do PMDB.

De volta ao bairro de Tristeza, em Porto Alegre (RS), a ex-presidente começa a rotina com uma pedalada matinal, algumas vezes interpelada por admiradores. Em outra parte do tempo, ela se dedica à leitura.

Na conversa, ela critica também a conduta de seu sucessor, Michel Temer, e do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), autor da frase de que era preciso "estancar essa sangria" sobre a Lava Jato.

Confira os principais pontos da entrevista.

Moreira Franco

"Saber demais não significa que você é capaz de impedir algumas coisas. Por exemplo, o gato angorá [Moreira Franco] tem uma bronca danada de mim porque eu não o deixei roubar, querida. É literal isso: eu não deixei o gato angorá roubar na Secretaria de Aviação Civil. Chamei o Temer e disse: 'Ele não fica. Não fica!'. Porque algumas coisas são absurdas, outras não consegui impedir. Porque para isso eu tinha de ter um nível de ruptura mais aberto, e eu não tinha prova, não tinha certeza, entendeu? Não acho que é relevante fazer fofoca, conversinha."

Michel Temer

"O Temer é isso que está aí, querida. Não adianta toda a mídia falar que ele é habilidoso. Temer é um cara frágil. Extremamente frágil. Fraco. Medroso. Completamente medroso. Padilha não é. A hora em que ele [Temer] começa assim [em pé, mostra as mãos em sentido contrário, com os dedos apertados em forma de gancho]. É um cara que não enfrenta nada!"

Temer e Cunha

"Olha, minha filha, não sabíamos que o nível de cumplicidade dele com o Eduardo Cunha era tão grande. Nenhum de nós sabia, nem o Lula. Depois é que descobrimos. Ele sempre negou essa cumplicidade que agora todo mundo já sabe."

Aliança com Cunha

"Tinha gente que dizia pra mim: 'Tem que fazer aliança com Eduardo Cunha', mas o rompimento, olhando de hoje, era inexorável. Não existe acordo com Eduardo Cunha. Existe submissão. As 19, ou 15 ou 38 perguntas ao Temer, o pacote de [José] Yunes, o que você acha que é, querida? Você está falando de um gângster inteligente. Devia ajoelhar e aceitar as condições?".

Corrupção

"O que eu tenho certeza que o meu governo jamais fez foi compactuar com a corrupção. Entro num tema que acho sério, que é o sincericídio do ministro por um mês, do Planejamento, o senador [Romero] Jucá, quando disse que tinha que estancar a sangria e usou palavras, assim, pornográficas para descrever as relações políticas no Brasil."

Erros

"Acho que cometi um erro importante, o nível de desoneração de tributos das empresas brasileiras. Reduzimos a contribuição previdenciária, o IPI, além de uma quantidade significativa de impostos. Com isso, tivemos uma perda fiscal muito grande. Nossa expectativa era evitar que a crise nos atingisse de forma pronunciada (...) Erro foi a desoneração porque, ao invés de investir, eles aumentaram a margem de lucro às custas de mais fragilidade nas contas públicas. Se for olhar o nível de despesas de pessoal no meu governo, é menor do que nos anteriores. A crise fiscal não derivou de excesso de gastos, mas essa renúncia tinha a intenção de beneficiar o conjunto da economia, o que não ocorreu."

Manifestações

"Ainda vamos precisar de uma distância histórica para entender. Tem uma parte simples, mas não responde tudo. É mais fácil distribuir renda do que ampliar serviços. A renda tem um tempo político mais rápido que o acesso a serviços. E como, de fato, o fim da miséria é só o começo, as pessoas sempre querem mais."

Longe do poder

"Posso até sentir, mas não agora. Sempre fui uma pessoa que se acostuma com a vida. Tinha uma vida lá, com um ritmo e uma função. Era obviamente interessante, sempre vai ser. Instigante, importante, né? Aqui tenho outra vida. Gosto muito de ler, de ver filme. Escuto ópera."

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