MULHERES
09/06/2016 13:43 -03

Estes famosos reforçam a cultura do estupro. Mas eles não vão nos silenciar

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Só quem passou por uma experiência de abuso pode, de fato, relatar o trauma.

Mas é possível generalizar: qual a mulher que nunca se sentiu violentada?

Existe a ideia de que o mito é o único conhecimento compartilhável pelo senso comum. Mas o mito é sempre uma espécie de conotação - ele nunca vai permear a sociedade com um único significado. Pelo contrário, as significações são infinitas.

É a partir dessa ideia que entende-se que o mito do estuprador-monstro-desconhecido-morador-do-beco-escuro não faz sentido quando se trata da perpetuação da violência contra a mulher. Há muito deixou-se de acreditar nessa narrativa. E ai não é questão de opinião, mas sim de estatística.

Os dados do Mapa da Violência 2015 são claros: em 67,36% dos relatos obtidos, as violências foram cometidas por homens com quem as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo: companheiros, cônjuges, namorados ou amantes, ex-companheiros, ex-cônjuges, ex-namorados ou ex-amantes das vítimas. Já em cerca de 27% dos casos, o agressor era um familiar, amigo, vizinho ou conhecido.

A cultura do estupro não é limitável. Está em todas as classes sociais e em qualquer região do País. Segundo a ONU Mulheres, é "o termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. Ou seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio da culpabilização da vítima".

Em tempos de estupros coletivos, Hannah Arendt se faz necessária: há, também em nossa sociedade, a banalização do mal. A filósofa defende em sua obra que há uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, razão pela qual aceita e cumpre ordens sem questionar.

E o machismo faz isso. Você segue o fluxo. Você não se questiona. Quando casos como o do estupro coletivo ocorrido com a jovem carioca chegam a público, é esperado que a sociedade se questione. Talvez, como nunca antes, o Brasil se questionou.

Por que, entre aqueles 30 homens, nenhum foi capaz de dizer "não"? Há na construção social do papel masculino a obrigatoriedade e a rigidez de se mostrar o poder. E o poder, em muitos casos, é confundido com o uso do pênis. Ele vem sob a forma da dominação sexual ao subjugar o outro. Mais especificamente, a mulher. É a ideia de que se tem propriedade sobre o corpo feminino. E por isso pode violentar, pode opinar, pode comandar, pode conduzir.

E vai além. Esses comportamentos são manifestados de diversas formas: os fiu-fius da rua, as piadas sexistas, as ameaças, o abuso psicológico, as propagandas preconceituosas, as músicas machistas, a objetificação do corpo feminino, o assédio moral ou sexual, a erotização infantil, o estupro e o feminicídio. Enquanto existir essa cultura do estupro, as mulheres viverão em permanente ameaça.

São diversas as problematizações sobre esse tipo de opressão e quanto mais próxima a relação for com o agressor, mais difícil de percebê-las. Quem nunca passou a mão na cabeça do irmão homem sob o argumento de "no fundo ele é um cara legal"? Ou aquele parceiro de mesa do bar que conta vantagem de "quantas pegou"? Qual a mulher não ouviu ~conselhos~ para trocar de roupa? Ou beber menos? Ou não frequentar determinados lugares?

A coisa complica ainda mais quando os agressores são os ~caras legais~, ~desconstruidões~ e ~feministos~. O quão mais distante ele for do estereótipo do "monstro", mais será exigido da autocrítica.

Por isso, quando as pessoas não conseguem acreditar que o acusado foi capaz de cometer a violência, a atenção é voltada para quem o acusa. E quando o agressor é um famoso, então, é ainda mais difícil de lidar. É óbvio pensar que o motivo de as celebridades se safarem de penalizações se deve ao fato de terem muito dinheiro. Mas pouco se discute sobre as consequências e as representações culturais dessas ações.

Um agressor de Hollywood não é menos violento que o da Rocinha. Mas a mulher da Rocinha é, sim, mais vulnerável que a atriz do Oscar. Isso, contudo, não protege as mulheres famosas. Pelo simples fato de serem mulheres, elas são vítimas possíveis. E isso porque a cultura das celebridades é calcada em aplaudir e proteger, além de silenciar quem ameaça, principalmente, os homens famosos.

Se mulheres que têm suas vidas expostas passam por crises, as manchetes e o público não perdoam. Até hoje, Britney Spears tenta recuperar sua imagem, por exemplo. Mas Chris Brown, em contrapartida, segue sendo cultuado e premiado.

Esta lista traz uma pequena amostragem de 20 homens que são adorados por muitos fãs e bastante criticados por outros. Mas o que é inegável é que em comum a todos há um passado (e presente) permeado por violência contra mulheres e posicionamentos que reforçam a cultura do estupro.

Mas eles não vão nos calar: