MULHERES
28/05/2016 10:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Principais movimentos feministas do País vão lutar contra os retrocessos do governo de Temer

“Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

Simone de Beauvoir escreveu a frase acima no século passado. Mas talvez seja mais atual do que a própria filósofa imaginaria. Desde a época em que o Brasil viveu uma Ditadura Militar, esta é a primeira vez em que o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos é extinto por um governo.

Criada para dar visibilidade e garantir o direito de minorias, a Pasta foi riscada da história do governo brasileiro no dia 12 de maio, quando o presidente em exercício Michel Temer assinou os seus primeiros decretos no Diário Oficial da União. Ele deu lugar à Secretaria da Mulher que será comandada pela deputada Fátima Pelaes (PMDB), considerada uma “defensora da família e da vida desde a concepção”.

Ano passado, os principais movimentos feministas do País conseguiram reunir milhares de mulheres na Marcha das Mulheres contra Cunha, em protesto à PL do Aborto, em nome de seus direitos e pedindo a saída do presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

O HuffPost Brasil conversou com representantes dos principais coletivos e organizações feministas que estavam à frente desta luta que tomou o País. Como, para elas, o governo do presidente interino e a extinção do Ministério pode agravar o temido retrocesso em liberdade e direitos das mulheres, tão discutido e temido por elas?

A representante do coletivo feminista Juntas, Sâmia Bomfim, salienta que Temer governa para e pelas elites e que, por isso, um retrocesso que já foi iniciado no governo Dilma pode se perpetuar.

"Quando Dilma encolheu a Secretaria das Mulheres para que ela se fundisse à de Direitos Humanos e Igualdade Racial foi um gesto que impactou muito nossas vidas, pois na prática isso significou menos verbas e políticas públicas para melhorar a vida das mulheres. O movimento de mulheres tem se renovado e se fortalecido muito nos últimos tempos, quase todos os dias há mobilizações nas redes e nas ruas, ou seja, não vai ser fácil para Temer mexer com os nossos direitos"

O fato de nenhum partido da base aliada de Temer ter indicado uma mulher para ser ministra, no olhar de Bomfim, assusta e mostra "que estamos ainda muito atrasados no quesito participação feminina na política, algo que tem avançado muito nos últimos tempos em todo o mundo”.

Com Dilma, o Brasil tinha aproximadamente 13% de representatividade feminina nos Ministérios. Com Temer, o Brasil despenca 22 posições no ranking de igualdade de gênero do Forum Econômico Mundial.

A fundadora do Católicas Pelo Direito de Decidir, Maria José Rosado, de 73 anos, afirma que o "governo Temer é para se temer e para se lutar também".

"O atual ministro da Saúde chamou membros de igrejas cristãs para tratar de assuntos que concernem às mulheres, como a legalização do aborto. Isso é a expressão do quanto os grupos fundamentalistas religiosos dominam o governo. Dormimos em uma democracia e acordamos numa teocracia."

E continua:

"O ministro da Saúde teria, por obrigação, chamar para conversar todo o setor médico deste País que tem um amplo conhecimento do que acontece em relação à saúde, que tem pesquisas, que tem acúmulo de conhecimento sobre o assunto. Como uma organização feminista defendemos a legalização do aborto, e não o aborto. Quando há uma legislação em relação ao aborto, as mulheres são livres para abortar ou não abortar".

A integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF), Tica Moreno, afirma que se faz necessário articular uma resistência não apenas por causa do processo de impeachment, mas por "uma resistência de médio-longo prazo que seja capaz de frear os retrocessos nos nossos direitos e na economia".

Nalu Faria, coordenadora da Marcha Mundial de Mulheres em São Paulo, afirma que o Brasil vive o momento mais difícil de sua história após o fim da ditadura militar.

"Vivemos hoje uma situação de recomposição da direita e de sua capacidade de empreender uma contra-ofensiva às mudanças (mesmo que tímidas) ocorridas no País nos últimos anos. Chega a ser assustador pois querem empreender um controle total da economia em favor do grande capital e ao mesmo tempo de fazer retroceder avanços sociais, diretos conquistas e, mais do que isso, recompor relações hiperconservadoras de dominação e exploração."

Seguir o conselho de Beauvoir, neste contexto, parece ser o melhor caminho.

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