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14/04/2016 10:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Funcionários com treinamento especial impedem mais de mil tentativas de suicídio em ferrovias britânicas

Denis Sinyakov / Reuters
A train passes by flowers, left in memory of the victims of a bomb explosion, at Park Kultury metro station in Moscow March 29, 2010. Two female suicide bombers killed at least 37 people and injured 38 on two Moscow metro trains in the rush hour on Monday, officials said. The blasts took place at Lubyanka and Park Kultury metro stations. REUTERS/Denis Sinyakov (RUSSIA - Tags: DISASTER CRIME LAW TRANSPORT)

Mais de 450 potenciais tentativas de suicídio nas ferrovias britânicas foram impedidas em menos de um ano, graças a treinamento especial dado aos funcionários ferroviários para identificar pessoas em risco.

Desde abril de 2015, funcionários da Network Rail, operadoras de trens e a Polícia Britânica dos Transportes já fizeram mais de 458 intervenções – ou seja, mais que uma por dia—para ajudar pessoas vulneráveis que davam sinais de comportamento suicida.

A Network Rail estima que mais de mil potenciais tentativas de suicídio foram prevenidas entre julho de 2012 e julho de 2015, graças ao treinamento em Atendimento a Contatos Suicidas dado em parceria com a organização humanitária The Samaritans.

A cifra mais recente sugere um aumento importante no número de intervenções em 2014/15.

A Network Rail diz que o treinamento oferecido pela organização Samaritans é a razão pela qual seus funcionários fizeram mais intervenções para socorrer pessoas em risco

Uma representante da Network Rail disse ao Huffington Post UK que a empresa “atribui o aumento nas intervenções ao treinamento”.

“Foi por isso que investimos tanto no treinamento”, ela explicou. “Está claro que à medida que mais funcionários nossos fazem o treinamento e têm consciência do programa, mais intervenções estão sendo registradas.”

Mais de 11.500 funcionários da rede ferroviária concluíram o treinamento, que ensina as pessoas a ter confiança e a saber ouvir, para que possam aproximar-se de pessoas em sofrimento e conduzi-las até um local de segurança.

Andrew Wellbeloved, gerente de operações móveis da Network Rail, disse que pelo fato de ter feito o treinamento ele soube como abordar um homem que estava confuso, desorientado e em estado de desespero numa estação de trens no noroeste do país.

O homem estava sentado num banco da plataforma da estação, balançando-se para frente e para trás, com um pé diante do outro.

Quando Wellbeloved chegou perto, o homem disse que queria morrer. Wellbeloved o levou da plataforma para sua van, onde telefonou aos serviços de emergência, pedindo que não tocassem a sirene para não deixar o homem ainda mais assustado. O homem foi levado ao hospital.

“Eu estava nervoso porque nunca antes tinha estado numa situação assim, mas quando me lembrei do treinamento que fiz, isso me deu a confiança necessária para falar com o homem”, disse Wellbeloved. “Graças ao treinamento, pude ficar calmo e sentir confiança, como se soubesse o que tinha que fazer.”

Neena Naylor

A despachante de trens Neena Naylor interveio para ajudar uma mulher que estava parada numa plataforma da estação Birmingham New Street com um olhar vidrado. Naylor perguntou se poderia ajudá-la com alguma coisa.

“Ela se virou para mim, me olhou e falou ‘não sei’. Foi nesse momento que ela ficou histérica. Eu me lembro de ter dito: ‘Preste atenção só em mim. Não há mais ninguém aqui, ninguém mais tem importância, só você e eu.’”

“Foi o suficiente para mantê-la em segurança até a polícia dos transportes chegar.”

De acordo com a Network Railway, os suicídios em estradas de ferro representam 5% dos suicídios em todo o país. Em 2014/15, 314 pessoas se mataram nas ferrovias britânicas, um aumento de 4% em relação ao ano anterior e um número muito maior que os 220 suicídios verificados em 2002/03.

Ian Stevens, gerente do programa de prevenção de suicídios da Network Railways, explicou: “Qualquer morte que ocorra nas ferrovias ou nos trens já é uma tragédia. Mas o impacto é sentido não apenas por quem conhecia a pessoa que morreu: também afeta o condutor do trem, os funcionários da estação e as pessoas envolvidas em tudo o que acontece depois.”

“Queremos fazer todo o possível para impedir que os suicídios aconteçam, e, se acontecerem, para ajudar nosso pessoal a lidar com isso. Ao treinar milhares de funcionários ferroviários a identificar e ajudar pessoas vulneráveis, a Samaritans nos ajudou a salvar vidas, reduzir o trauma sofrido por nosos funcionários e manter a rede ferroviária funcionando para os milhões de passageiros que dependem dela.”

“Para fazer frente a este problema social e nos ajudar a garantir o funcionamento contínuo dos trens, é preciso haver uma colaboração contínua em todo o setor e com todo o mundo que trabalha com saúde mental.”

A Network Rail e a organização The Samaritans estão lançando uma nova série de cartazes a ser colocados em estações de trens na Inglaterra, Escócia e País de Gales, como parte da campanha “Estamos aqui para ouvir você”, que promove o serviço de ajuda às pessoas pelo telefone.

Os cartazes destacam palavras individuais dentro de frases, mostrando a mensagem oculta nas palavras das pessoas quando dizem que não estão bem.

Tudo bem eu viver solteiro. Acho que tudo bem. Não é o ideal para as crianças, mas elas parecem estar conseguindo lidar com isso.

A gente não só te ouve, a gente presta atenção.

SAMARITANS

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Um dos cartazes da campanha “Estamos aqui para ouvir você”, da The Samaritans

Stevens disse: “Milhões de pessoas viajam de trem e frequentam estações ferroviárias todos os dias, então estamos bem posicionados para apoiar a campanha ‘Estamos aqui para ouvir você’, da Samaritans, e ajudar a difundir a mensagem de que você não precisa enfrentar seus problemas sozinho quando a vida fica muito difícil. E temos orgulho de fazê-lo.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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