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09/04/2016 20:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Arthur Zanetti e a ginástica mental de um campeão olímpico: 'Ginástica não é esporte só para meninas'

Tricampeão sul-americano, bicampeão dos Jogos Pan-Americanos, campeão mundial e medalhista de ouro na Olimpíada de Londres.

Arthur Zanetti é um fenômeno do esporte brasileiro.

Nenhum atleta olímpico tem resultados tão consistentes quanto o ginasta de 1,56 metro e 61 quilos na prova de argolas. Próximo de completar 26 anos - o aniversário é no dia 16 de abril -, Zanetti construiu sua carreira de modo sólido. Passo atrás de passo. Vitória atrás de vitória. Sem megaexposição.

Nesta entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil, o ginasta do Grande ABC paulista não mostra nenhum sinal de afobação. Prefere demonstrar confiança em suas chances e levantar a bola da equipe brasileira, que, no ano passado, conseguiu a primeira classificação para uma Olimpíada.

"É uma coisa que sempre falei, que eu sempre quis. Queria ver o Brasil crescendo, com a equipe masculina na Olimpíada. A gente precisava trabalhar nisso, colocar como objetivo. E precisamos correr atrás. O que a gente precisava fazer para conquistar vaga? Para onde teríamos que ir?", disse, ainda feliz com a vaga inédita pra o Time Brasil conquistada no Mundial de Ginástica de Glasgow.

Mas e segurar a pressão de todos os olhares e da reconhecida cobrança extrema do torcedor brasileiro? Arthur não dá de ombros para a pergunta, mas tampouco vê problema. "Olimpíada em casa é especial. É importante ter amigos e familiares por perto. E vencer aqui seria uma satisfação a mais, com certeza."

Para chegar com a cabeça inteira - e longe das chances de lesões -, Arthur ainda não teve a participação na Copa do Mundo de São Paulo, entre 20 a 22 de maio, confirmada. É possível que fique fora da competição. Tudo em nome do ouro olímpico.

Nas próximas linhas, Arthur fala sobre como é ser um dos poucos atletas brasileiros com ensino superior, sobre o machismo no esporte e sobre a divisão de funções domésticas com a namorada. Nas palavras dele, a assinatura de um campeão olímpico:

HuffPost Brasil: Mesmo competindo profissionalmente e com uma agenda cheia, você conseguiu completar os estudos e formou-se na universidade. Você sente que falta incentivo para os atletas brasileiros buscarem formação? Faz diferença ter terminado a faculdade?

Arthur Zanetti: Na minha faculdade, particularmente, [professores e colegas] sempre me ajudaram muito. Sempre me apoiaram totalmente. Toda vez que eu viajava, tinha um trabalho a fazer para compensar as faltas. Eles me passavam atividades, me ajudavam. Eles sempre estiveram comigo, me apoiando, me ajudando. Até hoje... Mas é com os atletas mesmo. Precisa mudar um pouco a cabeça e ter um estudo. Ginástica vai acabar um dia. E você não pode ser um profissional, um técnico, porque você precisa ter uma graduação. E como vai ser? Vai começar do zero, passar por quatro anos de faculdade? Eu demorei, foi quase o dobro do tempo normal dos outros alunos, mas eu me formei. Estou formado em educação física e estou competindo. É importante ter uma formação para seguir a vida.

Toda vez que o Brasil organiza eventos de grande porte, a desconfiança surge. Na sua visão, corremos algum risco de ter a imagem arranhada ao sediar os Jogos Olímpicos deste ano?

Não acredito. O Brasil vai fazer uma boa Olimpíada. Estive o ano passado no Rio de Janeiro, visitei as instalações e elas já estavam praticamente prontas. Os ginásios, tudo com detalhes já quase concluídos. Vamos fazer bons Jogos. Aí tem a parte da cidade mesmo, dos problemas da cidade. E a torcida que vai esperar o maior número de resultados bons, torcendo para que nada dê errado.

Arthur com o ouro olímpico, em Londres

É preciso dividir as tarefas da casa porque não é justo deixar para uma pessoa. Quando minha namorada e eu estamos juntos, precisamos nos ajudar. E assim é sempre mais divertido também.

O Brasil tem uma cultura machista muito enraizada em diversos setores da sociedade. Você chegou a enfrentar algum episódio assim por ser ginasta? A sua vitória em Londres há quatro anos ajudou outros homens a entrar no esporte?

Pelo contrário; não sofri com o machismo. Quando as pessoas me encontram, elas me apoiam, querem falar comigo. E, com os resultados, ainda mais quando você ganha, você mostra o esporte. Aí dá para ver que [o machismo] é uma cultura que criaram e que não é verdadeira. Não tem essa coisa de "este esporte é só para meninas". A gente pode dizer, com certeza, que isso é um mito.

E como homem, na sua relação pessoal com a sua namorada, qual é a sua parte das tarefas domésticas? Você cozinha? Vocês moram juntos?

Não estou morando com ela no momento. Mas a vida é em conjunto e tem de saber dividir as coisas. Eu praticamente não cozinho, então ela faz mais parte da comida, por exemplo. Mas eu fico com a louça, guardo tudo, ajudo. É preciso dividir as tarefas porque não é justo deixar para uma pessoa. Quando a gente está junto, precisamos nos ajudar. E assim é sempre mais divertido também.

Como espectador, quais as provas que você pretende ver no Rio? Comprou algum ingresso? Já está atrás de alguma prova?

Vôlei, com certeza. Tanto o masculino, quanto o feminino. É um esporte que eu gosto. O handebol e o tênis eu também pretendo ver.

Algum atleta específico que não dá para deixar passar?

Um atleta que eu acho fantástico é o Usain Bolt [velocista]. Ver uma final dele, sabe? Ele é completo, está à frente dos outros. É uma das maiores motivações para a Olimpíada, com certeza.

Galeria de Fotos Arthur Zanetti: Esperança de ouro na Olimpíada Veja Fotos