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30/03/2016 00:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Desejo de protagonismo é o que uniu o PMDB para deixar o governo Dilma Rousseff, diz Ibsen Pinheiro, fundador do partido

Antonio Cruz/ Agência Brasil

Em uma sala para 150 pessoas é provável que houvesse pouco mais do que o dobro da capacidade. Se numericamente quantidade havia de sobra, em termos de qualidade o parâmetro poderia ser questionável, sobretudo por um nome que ajudou a fundar o PMDB, em 1966, e que teve na sua trajetória a árdua tarefa de conduzir o processo de impeachment de 1992, do então presidente Fernando Collor.

Aos 80 anos, o gaúcho Ibsen Pinheiro foi saudado por todos os presentes na reunião desta terça-feira (29), que marcou a saída o oficial do partido da base da presidente Dilma Rousseff (PT). Fundadores como ele eram poucos naquela sala da Câmara. Calejado por uma vida pública de cinco décadas, o gaúcho de São Borja não titubeou ao abordar, sobriamente, sobre os motivos que fizeram o PMDB desembarcar do governo.

“Tenho a impressão que o principal motivo não é o mais agudo. O principal é o desejo partidário de ter papel ‘protagônico’ no processo eleitoral de 2018. Internamente há uma frustração por não termos tido esse desempenho e por isso que digo que a principal causa é essa vocação contida do PMDB para a disputa do poder nacional. Uma causa aguda atual é a crise política. Eu acho que é da cultura do PMDB arbitrar as crises políticas porque sem a arbitragem política da crise a primeira vítima é a política. A única arbitragem política da República foi no caso do presidente Collor. Ali a instituição política arbitrou e preservou regime democrático a ponto de não precisarmos mais falar no período democrático”.

A opinião de Ibsen, um nome que já declarou anteriormente ser contrário ao impeachment de Dilma, contrastou com a de outros peemedebistas que, ao contrário dele, preferiram embarcar em discursos menos pragmáticos, adotando posturas mais políticas, daquelas tradicionais típicas de época de campanha eleitoral.

Para Ibsen Pinheiro, o PMDB teve outros motivos que não o impeachment ou a crise política para querer o poder (Marcelo Bertani/ALRS)

“Essa decisão representa um PMDB unido, com dois terços da bancada, que atende a um claro popular. No PMDB é difícil ter unidade, mas essa maioria formada aqui é soberana”, afirmou ao HuffPost Brasil o deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). “O PMDB é o partido do povo, das lutas. Esse é o legado que essa reunião deixa para o Brasil”, destacou o senador Valdir Raupp (PMDB-RO).

Vice-presidente do partido, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) manteve o tom dos colegas ao dizer que a política existe “para ajudar a melhorar a vida do povo brasileiro”. “Nós seremos independentes. O que for importante para o Brasil nós vamos votar. Se for para a posição do governo e for bom para o Brasil, os parlamentares vão analisar. Se for algo que não concordemos, nós diremos claramente. Não teremos mais atrelamento à base do governo”.

‘Aliado ao mar? Que se afogue’

Gaúcho como Ibsen, Eliseu Padilha é um dos nomes do partido mais próximos ao vice-presidente da República, Michel Temer, este também presidente nacional do PMDB. Ministro de Dilma até dezembro do ano passado, Padilha se tornou um dos principais articuladores pela saída da legenda do governo tão logo anunciou a sua saída da pasta da Aviação Civil. Ao HuffPost Brasil, disse não estar feliz em ver a sua tese se sair vencedora no partido. Há coisas maiores a se pensar.

“Hoje, aqui, depois de um trabalho de uns 15 dias, de negociações internas muito grandes, profundas, nós conseguimos chegar a um mesmo resultado: unidade absoluta do partido e por certo isso dando certeza à liderança do nosso presidente Michel Temer”, afirmou. Talvez mais sintomático tenha sido a impressão de que até mesmo em uma questão como o impeachment, ao ver um “aliado ao mar”, é melhor que ele “se afogue”.

“O que o PMDB pode fazer na questão do impeachment é não fazer nada. Qualquer partido, seja o PMDB ou qualquer outro, não vai decidir impeachment para haver ou não haver (...). Porque o presidente do PMDB, por definição constitucional, nos impedimentos da presidente, ou do presidente, é o vice-presidente que assume. Portanto, não tem que fazer absolutamente nada. O que fizer pode tirar o processo da linha e nós não temos porque interferir nele”.

Personagem de menor estatura interna no PMDB, o deputado Carlos Marum (MS) virou notícia mais pela sua defesa apaixonada do colega, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), no Conselho de Ética do que por qualquer outra proposta na Câmara. Mas foi outro a celebrar o ponto alto que acena ao partido em um horizonte próximo. “Estou aliviado com a decisão do partido e confiante que estamos prontos para a tarefa e a missão que o destino nos confia que é assumir a presidência”.

Com mais “tempo de cancha”, como se diz no Sul do Brasil, Ibsen sabe que os desafios do PMDB, caso venha a assumir o País com Temer a frente, serão inúmeros. De atirador, passará a alvo. São tempos em que, no fim das contas, as ruas verde e amarelas ou até as vermelhas sinalizam com total desdém à política, um aspecto perigoso em regimes democráticos. Mas membro fundador espera que a sabedoria, ao invés do desejo pelo poder, impere se tal momento chegar.

“A expectativa que eu tenho é que todos percebam que negar a política é por si só uma atitude política. Quem está negando a política está fazendo política. E só tem uma coisa pior do que a política mal feita: é a política bem intencionada e equivocada, porque todas as ditaduras partiram da pregação da pureza (...). A política tem os seus vícios porque ela é a expressão mais clara do sentimento comum, das virtudes comuns e dos vícios comuns. O que procuram as instituições? Se atualizarem pelo regramento, que é o mecanismo de vedação dos vícios. Acredito que esse sentimento é uma generalização que as próprias pessoas perceberão que não se pode generalizar”.

Levando em conta a grave crise política e econômica, somada ao processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode cassar a chapa Dilma-Temer nas eleições de 2014, não ser consumido pelos seus próprios vícios é um bom conselho, vindo de um nome de respeito no partido, para o PMDB.

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