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17/03/2016 11:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Em dia de #ForaDilma e violência, por que a PM e a CET fecharam a Avenida Paulista antes dos protestos em São Paulo?

Elaine Cruz/Agência Brasil e Reprodução/Facebook

“A Constituição garante o direito de quem quer se manifestar e o direito à segurança de quem não quer. Nós vamos conciliar os dois”. A frase é do secretário estadual de Segurança de São Paulo, Alexandre de Moraes, e foi dita em janeiro deste ano, após um dos atos do Movimento Passe Livre (MPL), quando não foi aceito o bloqueio da Avenida Paulista.

“Dois homens estão trancando uma faixa da (Avenida) Rebouças agora segurando um cartaz escrito ‘Fora Lula’ . Os policiais desviaram a faixa de ônibus e está tudo certo. Quando os Secundaristas trancavam as vias, os policiais chegavam com cassetete e bomba na mão”, descreveu nesta quarta-feira (16) a estudante Marcela Reis.

Dois homens estão trancando uma faixa da Rebouças agora segurando um cartaz escrito "Fora Lula" . Os Policiais...

Publicado por Marcela Reis em Quarta, 16 de março de 2016

As duas falas indicam um modo operacional distinto na hora de organizar, garantir a segurança e, eventualmente, reprimir manifestações de rua na Avenida Paulista. O relato da estudante no Facebook não foi isolado, como postou o presidente da ONG Associação Inclui Mais, Leo Pinho.

“Já participei de muitas manifestações na ‪Paulista‬ sempre defendendo mais direitos para os trabalhadores e trabalhadoras, para as juventudes e em sua imensa maioria a Polícia Militar nos atacou, com bombas de gás, cassetetes, intimidação e prisões, no máximo deixava em uma faixa. O‪ MPL‬ recentemente teve até que dar roteiro antes da manifestação e nem assim, a PM‬ não deixou de descer o pau.

As pessoas de bem sempre justificaram dizendo que a Paulista é uma avenida de ligação (atrapalha o direito de ir e vir), lá tem hospitais (e se alguém morre por causa da manifestação) e fora os chamamentos de ‘vagabundos’. Agora, quando setores midiatizados (que se acham informados porque lêem e vêem a Veja, Folha, Globo a grande mídia brasileira - sem ao menos se perguntar que interesses eles representam) e defendem a ruptura democrática (destituir um presidente sem ter crime de responsabilidade, sem acusação nenhuma).

A PM faz escolta, tira selfie e não ataca sequer uma bomba para dispersar. E as ‘pessoas de bem’ que ali protestam (as mesmas que sempre atacaram manifestações de trabalhadores e trabalhadoras na Paulista) agora justificam que é para o bem do País. ‪#‎Cinismo‬ ‪#‎Hipocrisia‬”.

Já participei de muitas manifestações na #Paulista sempre defendendo mais Direitos para os Trabalhadores e...

Publicado por Leo Pinho em Quarta, 16 de março de 2016

Apesar do isolamento da Paulista na noite desta quarta-feira, como parte dos protestos que aconteceram pelo Brasil, um casal acabou quase sendo linchado por manifestantes, em flagrante feito em vídeo pela reportagem da Rádio CBN. Segundo eles, a agressão começou porque ambos não concordavam com o motivo do ato, o que gerou o descontrole de alguns dos presentes, que partiram para agressões físicas e verbais.

No Twitter, a postura distinta da PM e da CET também não passou desapercebida.

À BBC Brasil, a única informação prestada pelos policiais na manhã desta quinta-feira (17) era de “não haver previsão para abrir” a Paulista, que segue bloqueada nos dois sentidos pela presença de manifestantes contrários à presidente Dilma Rousseff, ao ex-presidente e agora ministro-chefe da Casa Civil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o partido de ambos, o PT.

A reportagem do HuffPost Brasil entrou em contato com as assessorias de imprensa da PM, da CET e da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP), a fim de saber se há ou houve alguma orientação diferenciada para os protestos desta quarta e quinta-feira.

A CET informou que “está no local desde às 18h30 de quarta-feira” e que o objetivo dos agentes da companhia é a “operacionalização do trânsito com bloqueios, garantindo a segurança de motoristas e pedestres”, fazendo ainda “desvios e a reprogramação de semáforos, se necessário”. A orientação é que se busque o uso do transporte público para chegar até a avenida.

Os demais órgãos não haviam respondido até a publicação dessa matéria, que será atualizada com os respectivos posicionamentos assim que forem recebidos.

‘Golpe petista’

Um grupo de 30 manifestantes iniciou uma vigília no vão livre do Masp, na Avenida Paulista, nesta quarta-feira, contra o que chamam de "golpe petista" - em referência à nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro-chefe da Casa Civil.

A manifestação, que estava prevista para começar às 18h, foi antecipada por um aposentado. Com um pedaço de papelão nas mãos, onde se lia "FUGIR JUSTIÇA NÃO", ele se colocava em frente dos carros e pedia buzinadas de apoio. "Saí da zona norte, peguei metrô, e estou aqui fazendo a minha parte. Lula não pode ser ministro. Isso é um golpe", disse Lorival Andrade, de 57 anos.

Lorival conquistou muitas buzinadas de apoio, mas reagiu mal à crítica de um outro aposentado que reclamou do pouco talento do manifestante em produzir cartazes de impacto. "Com esse papelão, essa letra verde pequenininha, não há Cristo que consiga ler. Tem que se manifestar, mas com capricho", argumentou Antônio Campos, 68 anos.

Às 18h, quando outros manifestantes chegaram, o discurso era que o horário escolhido para a manifestação era propício para "trabalhadores de verdade é que pagam seus impostos". Assim, entre outros imprevistos, a designer de joias Flávia Lecena confirmou que precisou desmarcar a terapia para participar do evento ("o que era um absurdo porque terapia é bastante caro", disse ela).

Aos gritos de 'Lula na cadeia', o grupo se mostrou dividido em relação à ideia de permanecerem no Masp até Lula desistir do ministério. "Aqui é perigoso, passou de certa hora fica cheio de maconheiro e black bloc", disse Carmen Lucci, de 65 anos. Já o biomédico Lucas Egas, de 33 anos, espera revezar com outros amigos e passar o tempo que for necessário no vão livre do Masp. "O problema é que os chamados coxinhas trabalham", disse irônico.

Os manifestantes empunham bandeiras do Brasil e seguram cartazes com críticas a Lula assumir o cargo. As frases "Lula na cadeia" e "Fora PT" são repetidas pelos participantes do protesto. No início do ato, ele não chegou a atrapalhar o trânsito. Os participantes só invadiam a pista quando o semáforo estava fechado.

Segundo a porta-voz do movimento Nas Ruas, Carmen Lutti, que é assistente social e advogada, o ato foi organizado por um "grupo de cidadãos indignados". Ela disse que o movimento ainda não tem nome oficial e é formado por amigos e integrantes do Nas Ruas.

Confronto no ABC paulista, em Curitiba, no RS e em Brasília

Logo após a Polícia Militar colocar um cordão de isolamento em frente ao prédio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, na noite desta quarta-feira, os ânimos de manifestantes pró e contra o ex-presidente se exaltaram e houve confusão entre os grupos. A PM precisou utilizar bombas de gás lacrimogêneo.

Antes do enfrentamento, os manifestantes estavam trocando apenas palavras de ordem, como "Fora, ladrão" e "Não fui pago para estar aqui". Os militantes a favor de Lula eram, em sua maioria, filiados ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Já os contrários ao ex-presidente eram moradores locais e curiosos que estavam passando pela rua, que foi totalmente fechada.

Durante o protesto, a Polícia Civil de São Bernardo também ameaçou estourar bombas contra os manifestantes.

Em Curitiba (PR), a sede da CUT foi apedrejada durante a madrugada, sendo ainda pichada com mensagens de ódio. Em Caxias do Sul (RS), um episódio de violência semelhante ao da Avenida Paulista também foi registrado em vídeo.

Manifestação na Praça Dante Alighieri tem princípio de violência após um homem surgir junto à uma jovem com camisa vermelha. Imagem Paulo Pasa

Publicado por Folha de Caxias em Quarta, 16 de março de 2016

Em Brasília os ânimos também estiveram exaltados. Os manifestantes que se encontravam desde o final da tarde, diante do Palácio do Planalto, concentraram-se no início da noite diante do Congresso Nacional. Eles gritavamm "vem todo mundo", instigando os demais ativistas, além lançarem mão de palavras de ordem como "devolve meu dinheiro, Lula cachaceiro". O boneco do ex-presidente Lula, chamado de pixuleco, foi pendurado no mastro onde fica hasteada a bandeira nacional.

Os manifestantes carregavam faixas pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff e bandeiras do Brasil. Do outro lado, policiais equipados com capacetes e escudos concentraram-se na rampa por onde autoridades têm acesso ao Parlamento. Um cone de contenção da Polícia Militar foi arremessado no espelho d'água diante do Congresso.

Um princípio de tumulto também foi registrado no gramado do Congresso. Policiais usaram spray de pimenta para dispersar os manifestantes, que por sua vez revidaram jogando garrafas e dois objetos em chamas. O confronto gerou correria no gramado, mas os manifestantes voltaram a se concentrar em frente ao espelho d'água.

Alguns deputados tiveram de deixar a Casa pela garagem lateral do Senado ou pelos anexos do Congresso Nacional. Parlamentares como o líder do PMDB, Leonardo Picciani (RJ), demonstraram apreensão e pediram indicação para os policiais legislativos sobre a saída mais segura do Congresso.

(Com Estadão Conteúdo)

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