ENTRETENIMENTO
16/03/2016 12:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Viola Davis fala sobre seu começo humilde e sua luta pela diversidade em Hollywood

Viola Davis nasceu na casa da avó, em uma fazenda em St. Matthews, estado da Carolina do Sul (EUA), em 1965. Ela se mudou para Central Falls, Rhode Island, ainda criança e cresceu, como ela descreve, em meio à “extrema pobreza e disfunção”.

Davis se apoiou na inspiração para guiá-la da infância até a idade adulta e tentou alcançar as “estrelas” no começo de sua carreira como atriz, quando era adolescente. Atualmente, Davis não consegue compreender o nível de sucesso atingido em sua vida — ela agradece simplesmente o fato de ter comida na geladeira.

“É como estar sobre um oceano que é azul e verde e poder ver o fundo, você nem pode acreditar naquilo, é de tirar o fôlego”, Davis disse em entrevista ao The Huffington Post, quando perguntada sobre como se sente ao refletir sobre sua trajetória. “É o mesmo tipo de sentimento que sinto quando penso que cresci em um apartamento que estava no terceiro andar de um prédio infestado de ratos... Sempre sonhei apenas em ter uma casa com uma escada em espiral, ou pensei em ter um marido e fazer três refeições ao dia ou abrir a geladeira e ver alguma comida. Eram sonhos realmente simples.”

Sonhos. É o que inspira Viola Davis todos os dias, e é o motivo pelo qual ela decidiu se unir à organização de assistência médica internacional Direct Relief, no The Vaseline Healing Project, que visa proporcionar cuidados dermatológicos, vaselina e suprimentos médicos para ajudar a curar a pele de pessoas afetadas pela pobreza ou emergências em todo o mundo.

“Por ter crescido na pobreza, sei que soluções muito simples teriam expandido minha vida — sabonete, alimentos, roupas limpas”, Davis disse ao HuffPost. “Sei que a ideia de soluções simples para problemas maiores poderia fazer a diferença para que as pessoas retomem [o controle] de suas vidas.”

Davis parece saber algo sobre encontrar soluções. Além de ser uma voz para o The Vaseline Healing Project, é uma das vozes mais poderosas que representam mulheres negras na indústria do entretenimento atualmente. Com toda a discussão em torno do movimento #OscarsSoWhite (O Oscar é tão branco), Davis se posicionou para compartilhar sua visão sobre a questão da diversidade em Hollywood.

Quando participou do programa Today, transmitido pela rede de TV norte-americana NBC, em fevereiro, a atriz, formada pela escola de artes Juilliard, disse:

“Acho que uma das coisas que as pessoas não entendem [é que] você tem de separar oportunidade de talento — que as pessoas sentem que, se os papéis não estão lá, isso significa que não existe talento lá fora. Não é verdade. A verdade é que, se você criar essas narrativas, então os papéis vão aparecer para as pessoas que estão esperando na fila”.

A atriz ampliou os comentários quando conversou com o HuffPost no The London Hotel, na cidade de Nova York, em fevereiro.

“Realmente me apaixonei por atuar — o ofício da interpretação. Não queria ser apenas uma celebridade”, Davis explicou. “Eu, provavelmente, tenho o mesmo tipo de passado de uma Julianne Moore ou Sigourney Weaver, mas elas foram muito além em termos de oportunidade. E essa é a diferença. Você trabalha e o que investe em seu talento não encontra um correspondente na oportunidade de narrativas que existem. Então você tem de levar tudo o que tem e derramar sobre [interpretar] a detetive em Paranoia [filme do qual participou em 2007].”

(Nota: Davis interpretou uma baita detetive).

Aos 50 anos, a atriz realmente acertou seu passo, ganhando popularidade depois de sua incrível interpretação de Mrs. Miller, em Dúvida, de 2008, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Davis participou de apenas alguns minutos do filme, mas roubou a cena de sua colega de elenco mais famosa — você sabe, aquela atriz chamada Meryl Streep.

Sobre sua performance, o The Washington Post disse: “Em uma cena totalmente chocante, ela, sozinha, define este filme fascinante, emergindo como a personagem mais conflituosa e interessante — não por acaso, em um filme totalmente focado em rigor espiritual — e a voz moral mais atraente e inquietante”.

As coisas só melhoraram de lá para cá, e Davis conseguiu o papel principal do filme Histórias Cruzadas, interpretando Aibileen Clark, uma empregada doméstica da década de 60, que ajuda a uma mulher branca a escrever um livro sobre o racismo que domésticas negras enfrentam quando trabalham com famílias brancas.

Adaptado do livro The Help, da escritora Kathryn Stockett, o filme recebeu quatro indicações ao Oscar em 2012 — Melhor Filme; Melhor Atriz para Davis e Melhor Atriz coadjuvante tanto para Octavia Spencer e Jessica Chastain. Spencer levou a estatueta para casa por sua interpretação da empregada Minny Jackson.

“Tudo mudou com Histórias Cruzadas [título original do filme] e a indicação para Melhor Atriz”, Davis disse ao HuffPost, comentando sobre encontrar papéis, e acrescentou: “Mas, sabe, esta é uma conversa de três ou quatro horas, porque existe um método para a loucura com todas as oportunidades que você recebe. Recebi muitas oportunidades. Não são as mesmas que as das minhas colegas caucasianas, mas certamente são muitas”.

Desde Histórias Cruzadas, Davis apareceu em Tão Forte e Tão Perto, Os Suspeitos, Enders Game – O Jogo do Exterminador, James Brown, entre outros.

Também irá estrelar uma agente anti-heroica do governo, Amanda Waller, em Esquadrão Suicida, com previsão de estreia no Brasil em 4 de agosto deste ano.

“Quero que [meus papéis] sejam diferentes, porque me vejo definitivamente mais expansiva, provavelmente, do que a indústria me vê. Essa é a razão pela qual meu marido [Julius Tennon] e eu abrimos uma produtora, porque quero fazer tudo”, disse sobre sua empresa, a JuVee Productions, que recentemente produziu Lila & Eve.

“Sabe, por muito tempo me desculpei por isso, por querer fazer tudo, porque aquilo parecia quase egoísta para mim, tipo ‘quero tudo!, quero tudo!’”, Davis acrescentou. “Mas é o que dizemos aos nossos filhos... você diz a eles que é possível; você tem de dizer isso para eles.”

E, no mundo de Davis, qualquer coisa é possível. Ela interpreta a professora Annalise Keating na série da rede de TV ABC How to Get Away with Murder, que vai ao ar nas cobiçadas quintas-feiras, ao lado de Grey's Anatomy e Scandal, produzidas pela Shondaland. Com o papel, Davis ganhou o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática, a primeira mulher negra a vencer nessa categoria. Seu discursou abordou todos os pontos de nossa conversa.

“Estava muito calma e muito focada naquele momento, porque sabia exatamente o que queria dizer. E o que quis dizer é que não posso ser quem sou, se sou a terceira garota a partir da esquerda”, explicou. “Distinguir oportunidade de talento é algo que as pessoas precisavam saber. Ninguém está escrevendo para nós, ninguém está nos dando esses trabalhos. Então não podemos apenas pensar por que não estamos lá em cima, se não há nada lá para que possamos estar.”