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16/03/2016 19:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Na Casa Civil, Lula pode salvar o governo Dilma do impeachment ou ser engolido pelo antipetismo, dizem especialistas

Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Se o anúncio de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o novo ministro-chefe da Casa Civil, feita nesta quarta-feira (16), não foi surpresa para ninguém, o mesmo não pode ser dito sobre as suas reais intenções para aceitar o posto no governo da presidente Dilma Rousseff (PT).

Especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil avaliaram de maneira distinta a presença de Lula no Planalto, em pleno momento de maior pressão neste segundo mandato de Dilma. O impeachment se acena com força, passados os protestos que reuniram milhões de pessoas pelo País.

Lula será capaz de articular politicamente uma saída? Ou ele só assumiu o ministério para ganhar foro privilegiado e não ser preso pelo juiz federal Sérgio Moro, que comanda a Operação Lava Jato? Os pontos de vista, mais uma vez aqui, não são consonantes.

Mas os especialistas veem o movimento do ex-presidente de uma maneira uniforme em um aspecto central: trata-se da ‘cartada final’, ou um movimento de ‘estágio terminal’. Confira abaixo as opiniões sobre a indicação de Lula para a Casa Civil.

Ida de Lula para a Casa Civil

“Tenho falado à imprensa que trata-se de uma medida extremamente apelativa. É uma situação que beira o desespero, com argumentações fracas e que, obviamente, subestimam a compreensão da sociedade. As manifestações de domingo, dia 13, deixaram muito o que elas queriam dizer, que não aceitavam nenhum acusado na Operação Lava Jato e que fosse cumprida a lei. É evidente que trata-se de um movimento para escapar do juiz Sérgio Moro. É uma estratégia para tirar o Moro da jogada e ficar sob os cuidados do Supremo Tribunal Federal (STF), onde ele Lula) tem uma influência bem maior, já que nos últimos 14 anos eles (PT) indicaram 50% dos nomes que lá estão.

Roberto Gondo - Pós-Doutorado em Comunicação Política pela Escola de Comunicação e Artes/Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisadores e Profissionais de Comunicação e Marketing Político (Politicom)

“Essa notícia era especulada desde o final de semana. Obviamente que após tanta manifestação contra o governo no domingo passado e a oficialização da delação do (senador) Delcídio do Amaral (PT-MS) fez com que a decisão do ex-presidente Lula fosse mais ponderada, tanto que a pasta de destino dele acabou sendo mudada de última hora (da Secretaria de Governo para a Casa Civil). Várias leituras são possíveis, a questão de ganhar foro privilegiado e não poder ser julgado pelo juiz Sérgio Moro é uma, como também é verdade que ele chega ao governo com a missão de tentar melhorar a articulação política, para que a base possa evitar a abertura do processo de impeachment de presidente Dilma. Os dois pontos são verdadeiros”.

Marco Antônio Teixeira – Doutor em Ciências Sociais (2004) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisador do Departamento de Gestão Pública junto a Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (EAESP-FGV)

“Acho que tem o óbvio fator do foro privilegiado, acho que ele ganha com isso e vai permitir que ele possa ver discutidas no Supremo as denúncias que pairam sobre ele. É algo que vai demorar. É um ponto a ser considerado, já que até agora a Lava Jato só recaiu sobre políticos do PT, do PP e alguma coisa do PMDB, ou seja, só governistas e não sobre os da oposição que também estão envolvidos em corrupção. As denúncias contra o Lula são controversas, e se ele voltasse a São Bernardo do Campo após os protestos de domingo, era enormes as chances de que ele fosse preso. Praticamente colocaram o Moro como salvador nacional. O Lula na Casa Civil também vai permitir que se tente salvar o governo Dilma, que é muito ruim do ponto de vista da gestão da economia e da articulação política, para barrar o impeachment e dar rumo ao governo”.

Wagner Iglesias – Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de Políticas Públicas da USP

Dilma passa a ser uma ‘presidente figurativa’ com a presença de Lula

“As leituras são variadas, mas podemos dizer que temos um ‘semi-presidencialismo’ instalado agora. Queira ou não, ele (Lula) ganha essa condição de chefe de Estado justamente por ter mais projeção do que a própria Dilma. É um risco, uma última cartada, e é também um risco que impõe dois cenários: ou ele salva o governo, que chega até o seu destino final, ou afunda com ele” – Marco Antônio Teixeira

“Não sei bem se isso acontece. Ela tem uma certa experiência na Presidência, e é formalmente a presidente da República. Acredito que o Lula ficará mais responsável pela parte política, pela articulação do Executivo com o Legislativo, mas as outras pastas como a de Relações Exteriores, de Saúde, Educação, isso tudo deve ficar com a Dilma porque não teria sentido o Lula influir nesses setores, ou nas política pública como o Bolsa Família. Ele fará, penso eu, uma articulação política forte, para reagrupar forças, evitar o impeachment, e, eventualmente, retomar as bases da economia”- Wagner Iglesias

Papel do PMDB

“O PMDB é sim um fiel nesta balança. É um partido que sempre foi rachado, e tem uma ala do PMDB que o governo precisa, por hoje eles não possuem votos suficientes para barrar o processo de impeachment (171, ou seja, um terço da Câmara), por mais que digam o contrário. As manifestações de rua ainda não foram contra os políticos do PMDB, e pode ter certeza que se isso ocorrer eles mudarão de posição (...). Há uma pressa e uma preocupação de figuras como o Eduardo Cunha pelo impeachment, justamente para tirarem o foco e se salvarem” – Roberto Gondo

“É uma jogada muito forte do governo, que impacta todos os atores políticos. Veja que o PSDB já foi impactado, e acredito que os movimentos sociais irão se reagrupar em torno de Lula. Até mesmo essa oposição de esquerda ao governo, que só critica, fica em uma posição difícil, que é apoiar um governo cheio de problemas até 2018 e então tentar uma formação que a permita chegar ao poder, ou senão o PSDB e o PMDB formam um governo novo. O PMDB também foi impactado por essa cartada final, digamos assim. Acho que o PMDB é um partido que rotineiramente tem um DNA governista, e eu acredito que seguirá rachado, com uma parte vindo em apoio ao governo” – Wagner Iglesias

Futuro

“O Lula tem aquela argumentação em prol das políticas publicas, de tirar o País da crise, mas com que dinheiro? Acho que teremos muitos processos em todo o Brasil contra a nomeação dele, inclusive a ONU possui um critério de combate a privilégios de classe de poder em favor da democracia. Isso está evidentemente focado na busca pelo foro privilegiado. O País pegou fogo, o colapso do PT é iminente. O PT já perdeu. E esse problema do Lula é moral, diria que é um golpe velado, ouso dizer que é explícito. As ruas precisam entender isso. Quanto ao que virá depois, vejo um processo semelhante ao que ocorreu com o (ex-presidente Fernando) Collor, com o vice assumindo e levando até 2018. Hoje, porém, não vemos nenhuma liderança, o Aécio (Neves) está caindo, temos a Marina correndo por fora e há ainda o Geraldo Alckmin, mas outras opções devem surgir até lá” – Roberto Gondo

“Não faço prognóstico. Devemos esperar até a decisão do Supremo quanto ao rito do impeachment” – Marco Antônio Teixeira

“Se falhar em impedir o impeachment, o Lula cai junto com a Dilma. Se isso ocorrer, cai todo mundo, cai todo o ministério, e aí caberá ao vice Michel Temer recompor, como fez o Itamar Franco em 1992 após o impeachment do Collor. Se não for estancado o processo, se o Lula não articular, a Dilma cai, o ministério cai e ele volta a ficar sem foro. Seria uma derrota completa. Creio que tenha sido uma jogada de audácia muito grande, mas já não tinha muito o que fazer. Acho que ele corria sério risco de ser preso, Moro é o herói nacional e isso é uma pena, porque mostra que a população está descrente da política, preferindo um juiz, um apresentador de TV, um empresário. É um sinal claro que o nosso sistema político tradicional está falido” – Wagner Iglesias

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