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16/03/2016 11:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Lava Jato: Delação de Delcídio pode fazer PGR abrir investigação contra o senador Aécio Neves

Marcos Oliveira/ Agência Senado

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) pode ser alvo de uma investigação em razão do teor da delação premiada feita pelo senador e ex-líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral (PT-MS). Nela, o parlamentar que chegou a ser preso na Operação Lava Jato afirmou que Aécio recebia vantagens ilícitas desviadas da diretoria de engenharia de Furnas. Além disso, Delcídio relatou que Aécio atuou para maquiar as contas do Banco Rural durante CPI Mista dos Correios.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) estuda pedir a abertura de inquérito junto ao ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), para apurar a participação de Aécio. Segundo apurações dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, os investigadores acreditam que há indícios suficientes para que o tucano seja alvo de investigação – a citação no caso da CPI é considerada mais grave.

Delcídio, que presidiu a CPI dos Correios em 2005, afirmou que "segurou a barra" para não virem à tona informações sobre a movimentação financeira de empresas de Marcos Valério que atingiam o tucano e seus aliados. Além disso, o senador petista disse ter ouvido que Aécio possui conta bancária no paraíso fiscal de Liechtenstein. A revista Época traz reportagem nesta quarta-feira (16) com documentos sobre essa conta, expondo ainda que o caso foi arquivado em 2007 sem sequer ter sido apurado integralmente.

O grupo de trabalho ligado ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deve se debruçar nos próximos dias sobre a delação do senador para definir quais fatos têm indícios suficientes para gerar pedidos de abertura de inquérito ao Supremo. Eles devem aguardar a chegada de Janot, em viagem internacional na Suíça nesta semana, para definições cruciais sobre o rumo da investigação. "Se houver um indício a gente vai abrir investigação, independente de quem seja", disse Janot ao jornal O Estado de S. Paulo, diretamente de Paris.

Em nota, o presidente do PSDB afirmou que as citações feitas pelo ex-líder do governo no Senado ao seu nome são "todas elas falsas". Segundo o tucano, as menções são "mentiras" que não se sustentam na realidade e se referem apenas a "ouvi dizer" de terceiros. O tucano rebateu cada um dos três pontos em que Delcídio o citou.

"Defendo que tudo seja apurado, investigado em profundidade. É isso que vai separar o que eventualmente é verdadeiro...

Publicado por Aécio Neves em Terça, 15 de março de 2016

Questionado pelo jornal O Estado de S. Paulo se tinha provas de tudo que afirmou em sua delação, Delcídio disse que pode comprovar os fatos com agendas, viagens e relatando com precisão os acontecimentos.

“É como eu registro no meu dia a dia. Outras situações que já fazem parte dessa investigação (da Lava Jato) vêm comprovar tudo mesmo. Como toda agenda de político eu registro tudo, datas, horários. Não tenho dúvida de que em função das agendas, dos indícios, o que foi afirmado vai ser comprovado. Aliás, em boa parte dos episódios mencionados já há comprovação até mesmo por outras colaborações. Sei que algumas coisas que relatei já foram confirmadas por executivos de uma empreiteira”.

Dilma também pode ser investigada

A PGR vai avaliar também a possibilidade de abertura de um novo inquérito da Lava Jato que pode ter, entre os investigados, a presidente Dilma Rousseff. Em delação premiada, o senador e ex-líder do governo Delcídio do Amaral relatou que a presidente tentou interferir nas investigações por meio do Judiciário.

Uma das investidas, segundo Delcídio, foi por meio da nomeação do desembargador Marcelo Navarro Ribeiro Dantas para o Superior Tribunal de Justiça (STJ). De acordo com investigadores, a suposta indicação de Navarro com intuito de liberar da prisão executivos presos na Lava Jato tem potencial para se tornar um pedido de abertura de inquérito ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A Procuradoria precisa avaliar, contudo, quais serão os personagens investigados nesta nova frente. Para explicar a tentativa de interferência do Planalto na Lava Jato, Delcídio menciona, além do próprio Navarro e da presidente, os nomes do atual ministro-chefe da Advocacia-Geral da União, José Eduardo Cardozo, e dos presidentes do STJ, Francisco Falcão, e do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski.

Na delação, o senador petista afirmou que a presidente mostrou preocupação sobre o "compromisso" de Navarro antes de nomeá-lo ministro do STJ. Por conversas anteriores com Dilma e Cardozo, segundo Delcídio, "ficou bastante claro que o objetivo imediato era de liberação das pessoas mais importantes presas, mas também de uma preocupação mais ampla" com a Lava Jato.

"Que a Operação Lava Jato sempre trouxe muita desestabilização política dentro do Congresso Nacional e isto sempre preocupou o Planalto, inclusive a presidente Dilma; que esse caso de Marcelo Navarro, especificamente, era um assunto que conversava muito com a presidente Dilma e com o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo", diz Delcídio, no depoimento.

Em setembro, ao tomar posse no STJ, Navarro assumiu a relatoria dos habeas corpus de executivos e empreiteiros presos pelo juiz Sérgio Moro, que conduz as investigações sobre o esquema de corrupção na Petrobras na primeira instância. Após ficar vencido na 5ª Turma do Tribunal, quando votou pela liberdade dos presidentes dos grupos Andrade Gutierrez e Odebrecht, Navarro anunciou que deixaria a relatoria dos casos da Lava Jato.

(Com Estadão Conteúdo)

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