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14/03/2016 14:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Lula e o PT perderam a chance de desmantelar o sistema do qual 'quiseram fazer parte' e que hoje os condena, diz Luciana Genro

Fábio Pozzebom / Agência Brasil / 22/06/2014

Se preparando para as eleições municipais deste ano em Porto Alegre (RS), a ex-deputada Luciana Genro (PSol) acredita que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT hoje se tornaram alvos de um sistema burguês que “só protege seus filhos legítimos”, do qual o petista e o partido foram úteis, mas agora não o são mais.

Essa foi uma das análises expostas ao HuffPost Brasil pela ex-candidata à Presidência da República, em 2014, uma crítica dos rumos do País e do PT há mais de dez anos – a discordância levou-a a ser expulsa da legenda em 2003, ano que foi chave para a fundação do PSol, que busca se colocar como uma “alternativa coerente” para a esquerda política.

A entrevista foi concedida na última quinta-feira (10), três dias antes dos protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff que reuniram milhões de pessoas em mais de 120 cidades no Brasil e outras dezenas no exterior. Ainda assim, com tal pressão popular, Luciana Genro acredita que um eventual governo do vice, Michel Temer (PMDB), pode ser desastroso.

A seguir, os melhores trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Qual é a análise que a senhora faz do cenário nacional e, sobretudo, da situação do PT?

Luciana Genro : Vejo que a condução coercitiva do Lula foi desnecessária, autoritária e até ilegal. Isso não é novidade no Brasil, que possui um sistema penal extremamente cruel com acusados pobres. Temos 30% da massa carcerária presa sem julgamento. O Lula não foi preso, foi tratado com dignidade pelos policiais, algo que não acontece com os mais pobres, esse espetáculo midiático é um exagero, mas é também uma constante com os pobres, expostos na televisão de maneira vexatória.

Não é só com o Lula, e eu como advogada criminalista tenho lutado no âmbito do sistema, porém condenar a espetacularização da condução coercitiva dele (Lula) não significa defendê-lo. Ele não merece, não por ser um político corrupto comprovado, isso não está provado, mas sim por estar sendo investigado se agiu por interesses de empreiteiras comprovadamente corruptas. Essa ilação feita pelo juiz Sérgio Moro e pelo Ministério Público Federal (MPF), falando em dinheiro para o Instituto Lula e para a empresa de palestras advindo do esquema da Petrobras, não é desprovida de fundamento. É uma investigação que deve ser feita.

Eu não condeno de nenhuma forma a Operação Lava Jato, ela tem cumprido um papel importante para mostrar que as elites políticas não estão a salvo de investigações. Mas isso também não significa chancelar o sistema judicial como um todo, que é seletivo. As suspeitas sobre o PSDB são tratadas de outra forma pelo sistema. Não posso dizer que seja responsabilidade do juiz dessa operação, mas isso existe, vide o que acontece com FHC e com o PSDB.

Não surpreende. As instituições do sistema burguês protegem os seus filhos legítimos, e o Lula não o é. Ele passou para o outro lado, mas no momento não serve mais e está sendo descartado. O PT perdeu a oportunidade de desmantelar esse sistema, a Rede Globo recebeu muita verba publicitária do governo e até o Lula soltou uma nota elogiando o Roberto Marinho (fundador da emissora) quando ele morreu. Eles (Lula e PT) aproveitaram 12 anos para controlar o sistema que está se voltando contra ele porque o PT não tem mais função. A política econômica distribuiu bordas do bolo, não mexeu no miolo e manteve a mesma logica vigente, sem mexer no lucro dos bancos, e agora não consegue fazer nada porque está sendo descartado. Ele (Lula) agora é vitimado pelo sistema para o qual tentou se moldar e se adequar.

Recentemente algumas lideranças do PT gaúcho, como Tarso Genro e Olívio Dutra, teceram fortes críticas ao partido. Dá para dizer que no Rio Grande do Sul ainda se encontrar forças mais próximas aos valores de fundação do PT?

Vejo que existem lideranças importantes no PT gaúcho. Tanto o Tarso quanto o Olívio se posicionaram de forma crítica ao partido, mas eles têm sido vozes sem força real no interior do partido. Aqui eles não têm a mesma força de antes, muito menos em nível nacional. Para seguirem coerentes ao que acreditam, mais cedo ou mais tarde eles terão de sair do PT ou se aposentar da política. Dentro do PT as críticas e tentativas que eles e outros têm feito não tem tido efeito.

Já se comentou no fim do ano passado que existiria um grupo de até 25 parlamentares do PT discutindo uma saída desse bloco do partido, a fim de fundar uma nova dissidência, como foi o caso do PSTU e do PSol. É possível ver algum impacto desse tipo de discussão para as eleições municipais deste ano?

Para essas eleições municipais não, mas não descarto que venha a ter um peso em 2018. Quando fizemos aquela primeira luta, em 2003, nós tínhamos um número grande de parlamentares críticos aos rumos que o primeiro mandato do governo Lula estava tomando, mas ele estava no auge da popularidade, então sair do PT naquele momento significava um prejuízo eleitoral importante. Por isso, só três deputados e uma senadora tiveram coragem de ir contra a direção do partido, o que nos levou a sermos expulsos. Nós estávamos conscientes dos caminhos a tomar naquela época, mas agora é uma situação diferente. Sair do PT é se livrar de um fardo eleitoral, fica mais fácil acreditar em uma ruptura significativa do que essa que existe hoje. Estamos observando para ver o que vai acontecer.

A minirreforma política aprovada pelo Congresso no ano passado, somada à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de proibir o financiamento empresarial de campanhas a partir das eleições deste ano, mudam de alguma forma a sua campanha para a Prefeitura de Porto Alegre?

Muda para melhor nesse aspecto. A gente se defronta com máquinas menores, embora a desigualdade permaneça, com um Fundo Partidário diferente. O PMDB é o nosso maior adversário aqui em Porto Alegre, não sei quantas vezes maior do que o nosso é o recurso do Fundo Partidário deles. E como não temos a tradição de doações de pessoas físicas como nos EUA, é bastante importante esse dinheiro do fundo na campanha. Há também um aspecto muito ruim que é a legislação ter diminuído o tempo de televisão, mantendo ainda a desigualdade. Pela lei anterior nós iríamos ter uns 30, 40 segundos, agora com a nova lei terei só uns 10 segundos, e é quase impossível falar qualquer coisa em 10 segundos. Nesse aspecto piorou, e há também o problema nos debates. Como estou bem nas pesquisas, ainda mais depois que a Manuela D’Ávila (PCdoB) saiu da disputa e que também estava entre as primeiras, é provável que me chamem. Posso ser excluída dos debates na TV.

Isso era algo que eu iria abordar na sequência. A senhora acha que a saída da ex-deputada Manuela D’Ávila da disputa pela prefeitura lhe foi benéfica? Pretende contar com o apoio dela?

Sim, a saída da Manuela favorece a minha candidatura. Os símbolos que ela carregou durante a sua história política são os de renovação. Agora essa renovação politica fica na minha mão e do PSol nesse eleição aqui. Creio que a saída dela seja resultado de uma situação política difícil para os defensores do governo Dilma. Claro que o fato de ter uma filha recém-nascida foi determinante, mas ela carregaria um fardo muito pesado de ser defensora da Dilma, do Lula e do PT, que indicaria o vice dela na chapa, então isso causava dificuldade. As chances do PSol, que já eram boas, sem a presença dela são maiores.

Composição da senhora com o PT em Porto Alegre é algo descartado?

Nossas alianças são nacionalmente autorizadas. Hoje temos com o PCB e com o PSTU. Temos diálogo com a Raiz, esse novo partido que ainda não está formado que a (deputada federal) Luíza Erundina (SP) iniciou, com o PPL que se desvinculou do governo para fazer uma oposição à esquerda, e com os movimentos sociais não vinculados a partidos. Minha tentativa de aliança é com esse setor fora das castas políticas, daqueles desgastados pela corrupção investigada na Lava Jato.

A atual situação política do País, com a sociedade cada vez menos identificada com os partidos políticos, pode ser avaliada como o suspiro final da democracia representativa tradicional? O caminho seria o Brasil ir em direção a um modelo de democracia participativa, com mais poder para a população dizer o que pensa e o que quer?

cho que esse é o caminho necessário, mas não necessariamente o que vai acontecer. O sistema político sempre encontra formas de se reciclar, ou encontrar saídas até mais autoritárias. Existe o risco de fechamento de espaços democráticos no País, o que refletiu nessa nova lei eleitoral, a qual restringiu o espaço dos partidos pequenos e ideológicos como o PSol. (A democracia participativa) é o caminho possível dentro de uma situação de descredito e desgaste das instituições.

O caminho ideal é a ampliação da democracia, com mais participação popular, e será um dos eixos da minha campanha municipal. Só assim será possível construir uma democracia real, na qual a cidadania tenha voz ativa, que possa participar de decisões políticas, sabendo como se faz um orçamento participativo, seja através de conselhos populares, plebiscitos, referendos, consultas e outros diversos mecanismos inclusivos.

Para finalizar, a senhora arrisca um palpite a respeito do que o futuro nos reserva em Brasília?

Não arrisco. A situação está muito indefinida, é difícil prever o que vai acontecer, mas o certo para mim é que uma queda da Dilma, acompanhada de uma ascensão do Temer, não é viável para o regime democrático do Brasil. Esse seria um governo muito fraco, que não teria condições de sobrevivência. Essa possibilidade de cair a Dilma e o Temer assumir é inaceitável e, no meu modo de entender, bastante improvável.

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