Corpo, mente, ciência e religião. Tudo o que sabemos sobre a ayahuasca em 4 tópicos

O cipó alucinógeno ayahuasca (“cipó das almas” na linguagem indígena quí-chua) é usado há centenas de anos por indígenas da América do Sul. No Brasil, a história mais comum é ligar a manifestação religiosa do Santo Daime ao lavrador Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu. Teria sido com ele, no início do século passado, o surgimento da doutrina que faz uso regular da bebida que provoca êxtase induzido e altera a consciência.

O chá voltou ao noticiário nesta semana depois que os pais de Rian Brito, o neto de Chico Anysio encontrado morto, afirmaram que o comportamento do jovem mudou muito após ele ingerir a substância.

Para esclarecer mitos que cercam a substância, o HuffPost Brasil reuniu informações sobre a ayahuasca de fontes de referência. Qual seu potencial de dependência? O que a ciência já sabe? Quem faz uso da bebida? É religião ou apenas uma droga? As respostas você acompanha nas próximas linhas.

1. O corpo fala

Como praticamente toda substância, os efeitos da ayahuasca podem variar muito de pessoa para pessoa. É o que explicou ao jornal Extra o psiquiatra Jorge Jaber, especialista em dependência química pela Universidade de Harvard e assessor da presidência da Associação Brasileira de Psiquiatria.

"Os efeitos desse chá incluem alterações perceptivas e delírios que podem desencadear quadros psiquiátricos graves em pessoas com predisposição. Se usada em ritual religioso, há pouco risco. Mesmo assim, pode desencadear doença permanente."

Em reportagem para a Superinteressante, de tempos atrás, o repórter Cláudio Angelo conta em detalhes como foi a sua experiência pessoal:

"Passei muito mal"

Algumas pessoas têm experiências espirituais transformadoras com a ayahuasca. Muitas “se encontram” no chá e acabam virando adeptas, o que, efetivamente, melhora sua vida. Mas, da primeira vez, não tem jeito: quase todo mundo passa mal. Foi o meu caso. Passei mal, e muito. Peguei “peia”, como dizem os huasqueiros.

Tomei ayahuasca na União do Vegetal (UDV, uma religiões que fazem uso da bebida), em São Paulo. O chá tinha um gosto amargo. Mas o pior ainda estava por vir: a borracheira. Os fiéis viam a Luz, eu via estrelas. Era o meu estômago, avisando do vômito iminente. Saí do salão de culto e vomitei no primeiro balde que encontrei. Depois vieram calafrios e tremores intensos, que duraram quase 2 horas – uma eternidade para mim. Enquanto os demais se concentravam num plano superior, eu só conseguia me concentrar no meu combalido corpo físico. Depois do enjôo, tive uma cólica que durou o resto da sessão. Só consegui comer no dia seguinte. A borracheira me esborrachou.

Mas, como se sabe, muita gente ingere a substância sem que passe por problemas.

2. Rituais de até cinco horas

Músicas, danças e hinos sagrados também são bastante comuns nos rituais que utilizam o chá. Os detalhes de cada passo do encontro, que pode durar até cinco horas, você pode encontrar aqui.

Não é uma regra comum, mas parte dos rituais daimistas ocorre em regiões mais rurais ou em parques e espaços públicos diversos.

"Fluxo de energia" e "energia" podem fazer que homens e mulheres sejam separados durante os rituais. Idade e estado civil também contam.

Em entrevista ao Extra, o mestre Almir Nahas, de 58 anos, do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, diz que aqueles que quiserem fazer parte da seita devem ser levados por outra pessoa que já segue a religião. A partir daí é feita uma entrevista com o diretor do núcleo.

"Perguntamos o objetivo da pessoa, o histórico das suas crenças e se ela passa por algum tratamento psicológico. Se ela tiver crise depressiva ou se tomar remédios controlados, pode não ser autorizada a entrar."

3. A medicina começa a estudar a bebida

Vamos à Folha de S. Paulo, em reportagem publicada em junho do ano passado: Um estudo publicado em 2014 na Revista Brasileira de Psiquiatria que ganhou repercussão internacional mostrou que após a ingestão de um copo (entre 120 e 200 ml, de acordo com o peso da pessoa) do chá, os sintomas de depressão foram reduzidos em média 80%, avaliados com questionários preenchidos pelos pesquisadores.

Na ocasião, o psiquiatra Jaime Hallak disse ao jornal que o potencial farmacológico do chá já desperta o interesse de empresas do ramo.

A ideia seria pensar numa formulação em que princípios ativos da bebida sejam administrados com segurança e sem gerar tantos efeitos colaterais. Outros estudos, como este publicado pelo UOL, falam no uso do chá para combater a depressão recorrente.

Outra pesquisa, esta de 2013, fala em usos do daime para combater o Parkinson. E, para Dartiu Xavier da Silveira, professor de psiquiatria da Unifesp e um dos responsáveis pelo estudo, a ayahuasca poderá ser usado no futuro para combater dependência química e ansiedade.

4. Droga e religião

No Brasil, o Conselho Nacional Antidrogas (Conad), retirou a ayahuasca da lista de drogas alucinógenas no dia 10 de novembro de 2004. A partir de então ficou permitido o uso em rituais, mas complemente banidos o comércio e propagandas. O daime chegou a ser proibido em 1985, mas liberado logo depois.

Não há números confiáveis sobre o número de usuários no País, mas sabe-se que a doutrina divide-se em duas principais vertentes: o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU) e o Centro Eclético de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra (CEFLURIS). Mas há inúmeros centros independentes. As influências vêm das religiões africanas, crenças indígenas, mas também do espiritismo e do cristianismo.

Raimundo Irineu Serra, o precursor de tudo

Draulio de Araújo, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, diz que o daime pode provocar visões "realistas". “Ao aumentar a intensidade das imagens lembradas ao mesmo nível da percepção visual, a ayahuasca dá status de realidade a experiências internas”, comenta ele, em entrevista à revista Galileu.

Para Draulio, a ayahuasca é, sim, uma droga. Embora não seja possível registrar um alto poder de dependência, seu uso traz riscos.

"Sabe-se que é importante evitar o uso da ayahuasca nos casos em que o indivíduo esteja fazendo uso de medicamentos que alteram os níveis de serotonina, como é o caso de alguns antidepressivos que estão baseados na inibição seletiva de recaptação de serotonina, por exemplo, o Prozac."