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28/02/2016 13:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Por que Divertida Mente é um filme adulto e tem tudo pra ganhar o Oscar

Divulgação

Na disputa por dois Oscar (Filme de Animação e Roteiro Original), Divertida Mente (Inside Out) se tornou sucesso de crítica e de público – 132 milhões de dólares arrecadados no fim de semana de estreia em todo o mundo – e deverá levar a estatueta de melhor longa de animação com sua trama voltada para toda a família. Em tese. Porque o filme cai muito bem mesmo é para os adultos.

Com roteiro interessante e a riqueza gráfica e cheia de detalhes já conhecida da Pixar, é uma história sobre o que se passa dentro da cabeça de Riley, uma menina de 11 anos. A garota basicamente se divide em cinco emoções básicas: Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo. Cada uma equivale a um personagem, caracterizado por cores e comportamentos – a Raiva explode com facilidade, a Alegria é eufórica, a Tristeza é baixo-astral, Nojinho é fresquinha e o Medo tenta fugir de tudo.

O diretor do longa, Pete Docter, chegou a afirmar que os personagens são baseados nas seis emoções universais propostas pelo psicólogo norte-americano Paul Ekman. A versão final do filme traz apenas cinco, já que a Surpresa foi descartada por sua “redundância” em relação ao Medo, segundo Docter.

Após uma apresentação individualizada, logo percebemos que as emoções se embaralham na cabeça de Riley, mesclando, em medidas nada definidas, a Raiva com a Alegria, o Nojinho com o Medo e outras combinações possíveis.

A Tristeza, porém, é vetada com frequência, principalmente quando se aproxima das memórias-base da garota. Ela é considerada, pelas demais emoções, um elemento que contamina. O curioso é que, por mais que seja repelida, é a Tristeza a representação gráfica mais adorável e carismática:


Essas emoções são apresentadas durante um recorte da vida de Riley, mais precisamente quando ela é obrigada a se mudar de Minnesota para São Francisco com os pais. O que parecia empolgante pela novidade começa a se descontruir em problemas – simultaneamente, as emoções de Riley saem do controle e suas ilhas de personalidade, armazenadoras de memórias e definidas como Família, Amizade, Honestidade, Bobeira e Esporte, começam a desmoronar.

A tentativa de impedir o “reinado” da Tristeza faz a Alegria colocar em risco as memórias de Riley, deixando-as escapar por locais não visitados da mente da garota. Esse embate entre o triste e o alegre de cada um de nós não é novidade, mas há uma pressão social para que não se reconheça o valor da tristeza, pondera Karin de Paula, psicanalista e doutora em Processos de Singularização pela PUC-SP.

“Sem querer fazer uma celebração da tristeza — esta é, sem dúvida, desorganizadora e mobilizadora do novo. Ninguém (a sociedade) quer saber disso! Curiosamente, no referido filme americano, a personagem Tristeza está domesticada e é colocada na função de dar soluções para a trama montada. Sintomático!”

A história sobre as emoções em Divertida Mente é simplista. Afinal, temos um espectro muito mais complexo do que seis emoções básicas, e elas estão fortemente conectadas à experiência particular e, portanto, única de cada um. Tomá-las como uma ideia normativa acaba anulando o sentido que uma experiência possa ter permitido para alguém, alerta Paula. “[Essas emoções] Sustentam muitas idealizações e não permitem a alguém se apropriar de sua própria vivência.”

A garotinha Riley, depois de atravessada pelo desconhecimento de suas emoções, tem seu sofrimento nomeado apenas quando a Tristeza contamina suas lembranças e joga luz sobre a saudade que ela está sentido de Minnesota e sobre a frustração com os pais por causa da mudança, entre outras antíteses à Alegria. Em um paralelo com vidas reais, tais reações podem encontrar identificação com algumas pessoas, mas não chegam a ser universais porque cada um tem uma vivência única.

Mesmo assim, Divertida Mente encanta crianças e adultos por trazer representatividade gráfica para assuntos abstratos e complexos. Hoje em dia, predominam as receitas e passo-a-passos de como ser feliz ou eliminar a tristeza, tratada como inconveniente na contemporaneidade.

Ainda que o filme sugira uma “organização das emoções”, o que aponta para uma simples adaptação a situações – e sabemos que a vida não é assim –, é um alívio ver a Tristeza tomando as rédeas, mesmo que em um filme moralizante.

A Tristeza gera empatia e revela ser imprescindível para a vida. Em uma cultura tão voltada para a medicalização ou domesticação das emoções, essa frestinha aberta para a tristeza merece ser festejada.

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