LGBT
19/02/2016 15:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

'Prova da farinha': Novo secretário de Direitos Humanos do Rio já fez piada com comunidade LGBT em 1999

Montagem/Reprodução Facebook

Em seu terceiro mandato como deputado estadual, Paulo Melo foi protagonista de uma passagem para lá de polêmica. O novo secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro fez piada com a comunidade LGBT em 1999, quando da discussão na Assembleia Legislativa (Alerj) durante uma votação do projeto para tornar de utilidade pública o Grupo Arco-Íris (voltado para a causa LGBT).

A revelação, baseada nos arquivos da Alerj, foi feita nesta sexta-feira (19) pelo jornal Extra. Melo votou a favor da proposta naquela oportunidade, porém usou a seguinte argumentação para rebater os defensores da ‘cura gay’, colocada pelo também deputado Wolney Andrade:

“Sr. Presidente, não gostaria de criticar. Penso que devemos acreditar na recuperação do ser humano em todos os níveis. Em alguns casos, exigem-se provas científicas. No interior, existe a ‘prova da farinha’. Se não passar pela ‘prova da farinha de trigo’, não há justificativa. Voto favoravelmente ao projeto, porque devemos investir em todas as propostas, mas "garrafa que levou querosene não perde o cheiro jamais”.

Para quem não sabe, a tal ‘prova da farinha’ é de conteúdo extremamente ofensivo e jocoso, tendo como base um suposto ‘teste’ para afirmar de alguém seria homossexual ou não.

O antecessor de Melo na pasta, pastor e deputado federal Ezequiel Teixeira (PMB-RJ), não perdeu a chance de repercutir a passagem e atacar o governo fluminense.

Mantenho firme minha convicção. Sempre acreditei na transformação do ser humano. O meu substituto na Secretaria de...

Publicado por Ezequiel Teixeira em Sexta, 19 de fevereiro de 2016

Diante da repercussão da passagem resgatada do seu passado político, Melo desmentiu que tenha sido preconceituoso. Ao G1, o secretário garantiu que tudo o que disse foi para “defender a causa” e que a passagem foi tirada do contexto completo, o que leva a uma interpretação equivocada do que ele teria tentado afirmar.

“No momento em que a gente discute uma causa tão séria recuperam uma frase fora do contexto. Quem dizia esta frase era um homossexual da minha cidade, barbaramente assassinado. Ele me visitava frequentemente, pediu para que eu a usasse e, no dia do debate, pessoas (da oposição) diziam (no plenário) que tinha cura, tinha um ex-pastor que dizia isto. Isto não existe, (a orientação sexual) é uma opção. Aí falei isto: 'Garrafa que levou querosene não perde o cheiro', mas falei para defender a causa (gay)”.

No ano passado, Melo chegou a atacar a Bancada Evangélica da Alerj justamente por conta de um projeto para punir a discriminação no Rio. Ele aproveitou a oportunidade para afastar de si o discurso do seu antecessor, que foi exonerado após dizer que acredita na cura gay e comparar a homossexualidade com doenças. “Doença é vício em droga, câncer, Aids, tuberculose. Sexualidade é opção. Ninguém conhece mais a sensibilidade do seu corpo, do seu direito, do seu prazer do que a própria pessoa”, completou ao G1.

Tudo o que o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), não quer é mais confusão. “Me surpreendi também (com as declarações de Teixeira) e assumo meu erro e minha culpa. Não é o perfil que eu esperava à frente da secretaria. Tenho um carinho muito grande pelo povo evangélico e o próprio apoio que recebi de diversas denominações. Mas me surpreendi muito com a fala e resolvi mudar o secretário”, afirmou ao SBT Rio.

Por ora, Melo conta com um voto de confiança da comunidade LGBT, conforme avaliou o presidente do Grupo Arco-Íris, Almir França. “Temos consciência de que foi uma escolha política e não técnica. Mas o Paulo Melo, em sua atuação como deputado estadual mostrou que é uma pessoa aberta ao diálogo, não só com o grupo LGBT, mas com diversos outros setores da sociedade”.