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19/02/2016 18:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Indicado ao Oscar, 'O Quarto de Jack' leva às telas uma história de beleza forjada no horror

Divulgação

A memória da infância possui cheiros, sabores, formas, sons, texturas e contornos que carregamos por toda a nossa vida.

As crianças que fomos um dia chegaram a um mundo já construído, repleto de códigos e costumes, e ainda assim não era o bastante: cada um de nós acrescentou personagens invisíveis, superpoderes, objetos falantes, gravidade zero, permanência em mais de um lugar ao mesmo tempo e outras riquezas do realismo fantástico infantil.

Jack (Jacob Trembley, simplesmente adorável), o garotinho que dá nome ao filme O Quarto de Jack (Room), tem em seu mundo um abajur, um tapete, uma pia, um guarda-roupa. Não são objetos: são o universo dele, que vive em um quarto há cinco anos, desde que nasceu, e nunca conheceu nada além daquele cômodo.

Mas aos olhos do menino, o cômodo é um lugar infinito, em que cada cantinho é percorrido, cada centímetro é palco de uma aventura. E todos, absolutamente todos esses passeios, o levam ao encontro de Ma (Brie Larson), a mãe, que está sempre ao lado de Jack.

Se para Jack o quarto é sua morada cheia de possibilidades, para a mãe é o cativeiro que confiscou sua existência como uma adolescente feliz. Enquanto um encontra leveza, a outra vive o peso do horror, que é revivido diariamente com as visitas do abusador de Ma.

A dor tem terreno fértil para avançar sobre a existência daqueles dois reféns. Mas o amor e o carinho de Ma com o pequeno Jack constroem um outro tipo de narrativa, estruturada sobre o afeto, chacoalhada pelas consequências do real, e ressignificada pelo sonho de se experimentar outra história.

Indicado ao Oscar em quatro categorias (filme, atriz, direção e roteiro adaptado), O Quarto de Jack emociona, gera empatia e sobretudo abre espaço sensível para se discutir o papel da figura materna na defesa psíquica de uma criança e a importância da fantasia para acolher os trancos da vida.

A seguir, destrinchamos alguns desses pontos com a ajuda da psicanalista Daniele John, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e professora no Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP): (ATENÇÃO: SPOILERS!)


A felicidade improvável

Jack nasceu em um cativeiro, resultado dos abusos sexuais sistemáticos sofridos pela mãe. Mas não é essa a origem que ele vive ao protagonizar brincadeiras, imaginar situações e demonstrar gosto pela vida.

“Mesmo em um ambiente tão restrito quanto um quarto, a mãe de Jack consegue apresentar o mundo [expressão utilizada pelo psicanalista inglês Donald Winnicott] a ele e, pelo menos até sair de lá, Jack parece ir muito bem em seu processo de constituição.”

Essa constituição, no caso, deriva principalmente das relações do garotinho com o outro — no caso, a mãe, Ma. A função materna não precisa ser necessariamente uma mãe; ela pode ser exercida por outra pessoa que seja capaz de se identificar com o bebê e ter com ele um laço amoroso que permita uma adaptação às suas necessidades, lembra a psicanalista.

“Esse outro cuidador precisa estar disponível física e psiquicamente para o bebê. Precisa poder emprestar sua própria subjetividade à criança e servir, como dizia Winnicott, como ego auxiliar pra ele, até que ele possa tornar-se, ele próprio, um sujeito. Esse outro cuidador oferece palavras ali onde elas ainda não estão, nomeia para o bebê suas sensações corporais, suas experiências, oferece contorno a um mundo que chegaria a ele como caótico.”

Ao amar, cuidar, educar e repreender Jack, Ma torna possível a constituição de um pequeno sujeito feliz. Ela incentiva as fantasias dele, cria uma rotina, estabelece obrigações, diz “não”, corrige atitudes, agrada e decepciona.

“O que é extraordinário nessa história é a incrível disponibilidade dessa mãe e a riqueza do mundo que oferta a Jack, apesar das condições extremas nas quais se encontra.“

A alegria como passado

Antes de ser sequestrada, Ma tinha outro nome: Joy. Na tradução para o português, “Alegria”. Mas a alegria foi subtraída abruptamente de sua vida como corredora e estudante aos 17 anos.

O passado deu lugar a uma mocinha indefesa trancada em um quarto com tamanho suficiente para comportar apenas os sonhos de Jack, que até pensa em ir para outros lugares durante o sono, como a fantasia de ir para dentro da TV, mas é desestimulado pela mãe: “nós nunca estamos em outro lugar que não seja aqui”.

Na realidade de Ma, o dente dolorido é arrancado com naturalidade, a imagem de si não existe, pela falta de um espelho, e um despertador no relógio de pulso anuncia a chegada do único visitante do quarto.

“Não esqueçamos que a mãe de Jack não está somente confinada, mas recebe a ‘visita’ frequente de um abusador. Trata-se de uma situação altamente enlouquecedora. Ainda assim ela encontra forças para criar um mundo para Jack e para ela mesma.”

Quando a vida no quarto se faz possível pela mágica

Jack dá bom-dia aos seus amigos do quarto – o tapete é um deles - , se afeiçoa a um rato, acredita que as pessoas da TV não existem e se transforma em um dragão quando o aquecedor é desligado.

Aos cinco anos, ele conclui que sabe tudo que se precisa saber da vida. A leitura mágica que ele faz de sua própria rotina é tão convincente que sente falta do quarto.

O cativeiro de mãe e filho que testemunhamos é, para Jack, um lugar cheio de encantos plausíveis. Como nos lembra John, a fantasia é fundamental para a constituição do sujeito, participando desse processo tanto ou até mais que a própria realidade concreta.

“A forma como vivenciamos nossa vida cotidiana e a maneira como narramos nossa experiência, nossa história, está absolutamente permeada de fantasia. Nesse sentido, o tal mundo que a mãe de Jack cria pra ele não é algo tão estrangeiro assim às pessoas comuns, mesmo as que não estão confinadas. De certa forma, todos estivemos um dia confinados na versão da vida que nos foi ofertada por nossos pais ou cuidadores. E há crianças ainda mais confinadas do que Jack, em um sentido muito ruim, presas, por exemplo, na loucura materna.”


Sonhar além do quarto

O senso comum questiona as decisões de Ma como mãe, enquanto o pai se recusa a enxergar em Jack uma criança digna de amor. Sujeita a um futuro cheio de desamparo enquanto se vê aprisionada junto com o filho, a mãe demonstra força descomunal. John aponta duas hipóteses que justificam ela ter sustentado a situação e construído uma história de amor em um chão tão fraturado:

"A mãe de Jack deve ter tido um laço com um outro cuidador tão rico quanto o que ela consegue oferecer para o filho. Justamente por isso, encontra em si mesma recursos internos para oferecer o que teve a Jack."

A outra hipótese é o laço amoroso com Jack como motor do desejo de continuar viva:

“Seu investimento na criação de um mundo para seu filho, que pudesse amenizar o impacto da situação extrema na qual se encontram, sustenta psiquicamente não apenas ao filho, mas ela própria. Ver Jack bem lhe traz forças para continuar propiciando a ele um cotidiano mais normal possível e não deixar morrer a esperança de um dia sair dali.”

Por mais que O Quarto de Jack ofereça uma perspectiva iluminada e comovente sobre uma situação de compreensível desistência, a grande beleza e pertinência do filme é expor as consequências de uma vida em cativeiro.

Tanto Ma quanto Jack foram expostos a condições de extremo desamparo. As várias feridas se reativam no contato com o mundo lá fora, a percepção de tempo sofre um golpe veloz, emoções não conhecidas emergem e fragilizam as relações, e noções de convivência precisam ser reescritas conforme outros manuais.

Para derrubar o quarto, é preciso o apoio da família e também o acompanhamento de profissionais que possam auxiliar na reconstrução psíquica da mãe e da criança. E enquanto o novo universo vem a galope para Jack, ele se permite experimentar junto com Ma, até saberem do que gostam nesse mundo que finalmente lhes autoriza a escolher.

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