LGBT
19/02/2016 21:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

'Cotas não são presentes', discursa trans negro em formatura na UnB

O primeiro estudante transexual da Universidade de Brasília (UnB) que institucionalizou o direito ao uso do nome social se formou e, mais uma vez, trabalha para fazer a instituição rever seus conceitos.

Marcelo Caetano Zoby, 25 anos, surpreendeu ao discursar na colação de grau do curso de ciência política, na quinta-feira (18).

Em um discurso dirigido à academia, o estudante questiona e impessoalidade da universidade e seu papel na implementação das políticas públicas.

Marcelo denuncia o estudo da raça e da sexualidade do ponto de vista branco e masculino e também questiona a marginalização da população LGBT e dos negros.

"Se a Democracia existe, ela não é para todos,

Mas hoje, saímos daqui com o poder de dizer,

É nossa a responsabilidade de combater esse genocídio.”

Em defesa à política pública que reserva vaga aos estudantes negros, na qual a UnB é pioneira, o estudante enfatizou que “cotas não são presentes”.

“Não pense que entramos aqui por favor,

Que não merecemos,

Ou que qualquer coisa aqui nos foi dada.”

Veja a íntegra do discurso:

"do alto dos seus títulos

daí de onde você vê

a universidade é pra quê?

pra caber quem?

dentro da sua sala

você se esconde

pra não ver lá fora

ou pra quem tá lá fora não te ver?

o conhecimento que você produz

é pro povo ou pro cnpq?

pra sociedade ou só pra enfeitar lattes?

se quem tá dentro

não vê os muros em volta

quem vê de fora

não enxerga nada além da muralha

se no meio da aula

você diz que eu tô todo errado

eu te digo que pra chegar até aqui

atravessei cerca de arame farpado

você escreve

artigo, livro, capítulo

resumo, paper, ensaio

fala da gente

sem nem lembrar

de olhar no olho da nossa gente

alcança seus índices de produtividade

no dia seguinte,

não sabe nossa cara,

nosso nome, desconhece nossa identidade

nossa cor é objeto de pesquisa

nosso sexo, etnografia

nossas casas são seu campo

e seu olhar

branco, macho, eurocentrado

justifica-se com metodologia

na sua nota da capes

o que conta mais:

seus pontos ou nossa voz?

sua tese ou nossa história?

o que vale mais:

suas oito páginas de referência

ou a nossa ancestral experiência?

e não pense que entramos aqui por favor

que não merecemos

ou que qualquer coisa aqui nos foi dada

cotas não são presente

são só um pequeno pedaço do que nos devem

chegamos aqui forjados

pelos que nos precederam

não se esqueçam:

nossos passos vêm de longe

se estou aqui hoje

é só porque tantos outros já vieram

erguer muros não vai nos impedir de entrar

se precisar,

nós vamos derrubar

tomar de assalto o que é nosso

e não queremos só um lugar à mesa

queremos interromper o jantar

e começar tudo de novo

reerguer uma universidade que seja do povo e para o povo

onde não apenas se fala sobre o outro

mas onde o outro se torna um nós que é capaz de falar sobre si mesmo

não criem a ilusão

de que tudo que se diz na academia é a verdade

mas lembrem-se: é sempre poder

inclusive, o poder de dizer

o que é a verdade

como cientistas políticos

termos lugar para dizer o que é a democracia

vivemos em uma, nossos professores vão dizer

Estado Democrático de Direito é o seu nome

Será mesmo?

pois vamos aos fatos:

Planaltina, Distrito Federal, 26 de Maio de 2013. Antonio Pereira de Araújo, auxiliar de serviços gerais, é detido em abordagem padrão. Conduzido à delegacia, nunca mais foi visto.

Rocinha, Rio de Janeiro, 14 de Julho de 2014. Amarildo Dias de Souza, pedreiro, limpava peixe na porta de casa quando policias que conduziam a operação “Paz Armada” o abordaram. Nunca mais foi visto.

Grajaú, São Paulo, 16 de Outubro de 2015. Yago Pedrosa Araújo, estudante de 16 anos, é parado em mais uma abordagem daquelas: padrão! 4 dias depois é encontrado morto, executado. Nunca mais foi visto vivo.

Infelizmente, a lista poderia continuar: Cláudia Ferreira da Silva, Cristian do Carmo, Rafael de Souza Paulino, Roberto de Souza Penha, Carlos Eduardo da Silva de Souza, Wilton Domingos Junior, Cleiton Correa de Souza e tantos outros.

Os mortos da democracia se acumulam

Já não se escondem mais nos porões

Mas ficam expostos, em plena luz do dia

Nas vielas de uma quebrada qualquer

Se a Democracia existe, ela não é para todos

Mas hoje, saímos daqui com o poder de dizer

É nossa a responsabilidade de combater esse genocídio

Um genocídio que começa aqui dentro

Quando são brancos todos os nossos professores

Quando é branca e masculina toda a nossa bibliografia

Se a ciência pensa que tem todas as verdades

Digo-lhe agora que não

Que não sabe o que é caminhar com a cabeça na mira de uma HK

Que não sabe o que é ter o corpo vendido por séculos

Ter a mente diminuída, ver todo um povo destruído

Essa ciência que trabalha com hipóteses

E esquece que o que chama de objeto é feito da carne viva

Ainda aguardamos pelo dia

Em que o preto estará no rosto

Mais do que nas becas

Em que as travestis estarão na escola

Mais do que na esquina

Se esse dia não chega, a gente toma!

Nada nunca foi dado, porque agora seria?

mas ainda vai chegar o dia

Em que outros tantos como eu

Estarão aqui e poderão dizer

Tudo nosso, nada deles!"

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