COMPORTAMENTO
18/02/2016 19:06 -02 | Atualizado 24/01/2018 16:44 -02

Um guia definitivo da escritora Virginia Woolf para quem está de luto

A escritora completaria 136 anos em 2018 mostra em sua ficção a presença silenciosa da perda de sua mãe.

Em 1895, quando Virginia Woolf tinha 13 anos, sua mãe, Julia Stephen, morreu de repente — uma gripe se transformou em febre reumática e, num curto espaço de tempo, ela partiu. A jovem Virginia teve um momento para beijar a mãe no leito de morte; quando saiu do quarto, Julia chamou a filha pelo apelido de infância, dizendo: "Mantenha-se firme, minha cabritinha".

Em 2000, quando tinha 11 anos, minha mãe morreu de repente — uma dissecção da aorta causou sua morte quando eu participava do concurso de soletração na escola, e, quando eu e meus irmãos fomos levados ao hospital, pensando que iríamos vê-la, ela já estava morta. A última vez que falei com minha mãe, antes do início da competição, ela havia me dado um abraço cheio de incentivo e perfume almiscarado.

Uma década depois, quando escolhia possíveis projetos para minha tese durante o bacharelado em Inglês [Letras] no último ano de faculdade, me aproximei de Woolf. Não havia lido nada dela até o penúltimo ano da universidade. Não era uma modernista, uma grande fã de fluxo de consciência ou estrutura experimental, e até hoje não consegui terminar um livro de James Joyce. Mas, quando li pela primeira vez Mrs. Dalloway, me apaixonei loucamente.

Escrevi minha tese sobre Mrs. Dalloway, Ao Farol e As Ondas, analisando como Woolf utiliza temas florais em cada obra. Tendo crescido lendo Jane Austen e as irmãs Brontës, apreciava o estilo vistoso de Woolf, criado para ser constantemente desempacotado e examinado de todos os ângulos.

Mesmo os homens de mente mais estreita em minhas aulas de literatura concordavam que valia a pena ler Woolf por seu valor em si, e não como uma concessão para a agenda feminista. Ela era séria, culta, as profundas emoções de sua obra protegidas com cercas de respeitável técnica.

Ao mesmo tempo, durante todo o tempo em que trabalhei nesta séria tese de Woolf, e durante muitos anos antes, estava enfrentando um colapso emocional prolongado e profundamente incompreendido.

Tive um namorado na faculdade que amava muito; separamos, voltamos, e separamos de novo. Mesmo quando nosso relacionamento parecia temporariamente estável, eu passava horas chorando em seu ombro sobre uma estranha desavença com um conhecido.

Minha ansiedade social que emergia funcionava como óculos escuros que colocavam cada encontro por trás de um filtro paranoico e sombrio. Fazer amizades femininas, que sempre foram minha fonte social de força, se tornou uma luta.

Eu me sentia sozinha, e me desesperava para não ficar sozinha, e me sentia aterrorizada com a ideia de que meus poucos amigos descobririam o quão desesperadamente eu precisava deles e se afastassem. Não estava sempre errada. Durante todo o tempo, Virginia Woolf estava lá ao meu lado, passando pela mesma coisa, e eu nem notava.

Durante todo o tempo, Virginia Woolf estava lá ao meu lado, passando pela mesma coisa, e eu nem notava.

Eis a verdade: perder a mãe na pré-adolescência bagunça tudo, em termos de desenvolvimento. Você se lembra dela, mas não o suficiente para sentir que realmente a conheceu — apenas o suficiente para perceber o quanto tem saudades.

Você nunca se separou dela durante a adolescência, então ela existe em um estado de perfeição perpétua, ou de semisantidade, tão aureolada como quando você era pequenina.

Sua capacidade para lidar com isso é zero, claro, porque crianças são emocionalmente analfabetas. Você ri, quando todo mundo está chorando. Você se anima com vitórias corriqueiras, como receber um cartão de condolências de um paquera ou encontrar mais "doughnuts" fresquinhos deixados no balcão por um membro da igreja.

Gargalhando, você desafia seus amigos para uma partida emocionante de Detetive no funeral dela, deixando-os assustados e hesitantes. Mas você também dorme o máximo possível para evitar esse momentos, quando você tem de se ocupar ou rindo ou chorando. Quando seu pai, marcado pelo luto, tenta conversar sobre sua mãe, você muda de assunto.

Você faz isso por muitos anos, até que ele desiste de tentar, até que todo mundo para de tentar. Você não sabe como falar sobre isso sem desmoronar completamente. Você não sabe que desmoronar é até mesmo uma opção.

Os anos passam, e as pessoas seguem em frente, mas seu luto é uma raiz germinando na terra. Quando os brotos pálidos jogam a terra para os lados e espreitam o que existe fora, você se esqueceu de tudo o que foi plantado.

Você não se lembra o que é. Parece uma erva daninha, trazida por uma brisa infeliz, que deve ser combatida com medicação e desenraizada com força.

Alguns anos depois da faculdade, um amigo recomendou um livro chamado Motherless Daughters [Filhas Sem Mães, de Hope Edelman, ainda não publicado no Brasil]. A obra explora os processos de luto de mulheres que perderam as mães em todas as idades.

À medida que lia o livro, chorava com alívio e angústia, como se as palavras estivessem fazendo uma punção de uma infecção longa e purulenta. Estava lendo sobre mim mesma — meus emotivos anos na faculdade, definidos por dependência e perda; minha adolescência reclusa, quando raramente tinha vontade de pensar em minha mãe.

Costumava me culpar por tudo, mas acontece que não sou tão especial: sou exatamente como todas as outras filhas sem mães.

Já na idade adulta, Woolf escreveu um ensaio autobiográfico chamado A Sketch of the Past (Um Esboço do Passado). Nele, ela também não se mostra tão diferente de outras filhas sem mães.

Ela se sentia privada das lembranças da mãe, consciente de nunca ter sido capaz de vê-la completamente como um ser humano. Ela via a mãe como um ser distante, mas uma divindade essencial. Passou a vida inteira obcecada pela mãe, desejando sua aprovação, apesar da aprovação nunca ter chegado.

Relendo o ensaio agora, meu coração batia dolorosamente em direção a Woolf. Até mesmo os pequenos detalhes mais estranhos pareciam ir além da coincidência: a maneira que "um desejo de rir surgia" quando Woolf era levada para beijar a mãe que acabara de morrer (tão dolorido quanto o momento em que meu pai nos disse que ela não havia conseguido [sobreviver], e então comecei a rir).

O sentimento transcendente que ela sentiu ao ver um brilhante pôr-do-sol através do vidro da estação de trem, ao acompanhar o irmão, Thoby, de volta à casa após a morte da mãe (assim como os inesquecíveis tons rosa e dourado do pôr-do-sol que cruzavam as nuvens à medida que meu pai caminhava comigo até nossa casa depois de sair do hospital, me sentindo muito mal de tanto chorar para andar de carro).

"A morte de minha mãe se revelou e se intensificou", escreveu Woolf, "fez com que eu, de repente, desenvolvesse percepções, como se um vidro flamejante tivesse sido colocado sobre o que estava à sombra e dormente".

O quão dolorosas são as lembranças desses dias, como se qualquer membrana entre o mundo e você tivesse sido arrancada, enquanto as memórias da mãe que você amava começavam a imediatamente escorregar pelos dedos.

"Aí está a memória", escreveu, "mas não há nada para checar naquela memória; nada para trazer para a terra com... os elementos da personalidade [dela]... que são formados no crepúsculo".

Ela teve dificuldades para juntar as peças das lembranças da mãe ao traçar sua biografia, os homens que ela amou, as pessoas que a amaram, as memórias confusas que a própria Woolf guardou.

Quando você perde sua mãe antes de ser capaz de vê-la claramente, como uma pessoa, descobrir quem ela é se torna uma caça ao tesouro, um projeto de pesquisa, uma missão de detetive.

Quando você perde sua mãe antes de ser capaz de vê-la claramente, como uma pessoa, descobrir quem ela é se torna uma caça ao tesouro, um projeto de pesquisa, uma missão de detetive.

Em sua obra de ficção, a perda da mãe sussurra silenciosamente. Ao Farol, talvez o melhor romance sobre a perda maternal, foi escrito em homenagem a Julia Stephen, mas o luto de Woolf pode ser encontrado em todas as partes.

O desejo de se conectar, mesclado com a certeza de uma perda imprevisível, marca seu mapeamento dos relacionamentos humanos. ("Se você tiver qualquer tipo de gatilhos [traumas] em relação a uma morte repentina, escreveu Christopher Frizzelle no site LitHub ano passado, "não deve ler Virginia Woolf". Eu me lembro de brincar de charadas com minha família logo depois da morte de minha mãe: tensos, pulávamos o cartão "morte repentina", sentindo sua morte na sala).

Toda proximidade é temporária; todo amor é perigoso; e, no final, até mesmo o amor que encontramos é muitas vezes um vazio substituto para o que acreditamos que deveríamos ter.

A ficção de Woolf não é confortadora ou otimista; e por que deveria ser — depois da mãe, ela logo depois perdeu a meia-irmã e madrasta, Stella Duckworth, bem como seu querido irmão, Thoby, quando ele tinha cerca de 20 anos.

É esse desespero duramente conquistado que falou à minha alma quando li Woolf pela primeira vez, embora não tivesse a capacidade de admiti-lo na época. Para caminhar com o luto, para conviver com ele, você tem de permitir o gemido da perda à sua volta, e cada linha de sua obra vibra com esse grito.

Você tem de aceitar que perdeu o que uma vez significou tudo para você, e que aquele vazio não pode ser preenchido com cursos preparatórios, ou longos cochilos, ou namorados recalcitrantes, ou por qualquer coisa.

"Ela", escreveu Woolf, "era tudo". Eu sei. Eu sei.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.