LGBT
11/02/2016 17:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Ativista trans Luciano Palhano volta à universidade em Santa Catarina, 11 anos após episódio de preconceito

Reprodução/Facebook

“Era difícil enfrentar os preconceitos diários”. Foi assim que Luciano Palhano, de 31 anos, definiu a sua última passagem pelo ambiente universitário, em 2005, no seu estado natal de Pernambuco. Onze anos depois, ele vive a expectativa de retomar o estudo em uma universidade, agora em Santa Catarina. E com o devido respeito ao seu gênero.

“Estou animado em poder voltar pra universidade aos 31 anos. Energia renovada para um novo começo. Tendo oportunidade de entrar e me manter, vou dar meu melhor e vou ter espaço”, disse Palhano, em entrevista ao site ClicRBS. Ele foi aprovado em dois vestibulares: um na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e outro na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

De acordo com Palhano, que é também é coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade (Ibrat), a sua nova chance no mundo acadêmico só foi possível graças às políticas afirmativas como o Sistema Único de Seleção Unificada (Sisu) e as cotas para negros. É um cenário muito diferente quando o jovem que tentou cursar música em Pernambuco abandonou o curso por não se sentir respeitado.

“Não tem meritocracia pra quem foi expulso de casa, vive sem apoio no mundo e tendo que trabalhar 12 horas por dia. Eu estava literalmente fazendo pastel para viver. Vivo com subempregos mesmo tendo qualificação técnica e falando cinco idiomas. Cansei de ver a vaga sendo fechada quando me apresentava como pessoa trans”, comentou ele, que estudará letras/italiano na UFSC – onde passou em primeiro lugar.

Há ainda um longo caminho a ser percorrido pelo ativista, que não teve respeitado o seu direito de ver o nome social, e não o de batismo, em sua lista de vestibular. Essa é uma das discussões que Palhano espera levar para dentro da universidade. “Pautar o racismo e a transfobia é muito importante pra mim. Além da formação, vou levantar essas bandeiras de luta”, comentou.

Orientação sexual

Uma portaria do Ministério da Educaçãogarante o direito de qualquer transexual ser chamado pelo seu nome social no ambiente acadêmico, respeitando a sua vontade. Todavia, a discussão acerca do gênero na educação enfrenta muitas resistências, e parte do problema repousa fora dos muros da universidade, conforme Palhano assim definiu:

“Gênero é uma construção social que permite que a gente exerça um papel na sociedade. Particularmente, considero isso algo muito opressor, que define lugares a partir de posições de poder, quando nenhuma identidade deve ser engessada”, avaliou, em entrevista à revista Carta Capital.

No caso dos homens trans brasileiros, os desafios são ainda maiores, como o ativista destacou à revista Geni no ano passado.

“Por um lado, ao reivindicarmos masculinidades, somos com alguma frequência entendidos como aspirantes a privilégios machistas. Por outro, muito mais frequentemente, não temos nossas masculinidades reconhecidas e sofremos diretamente a opressão machista: nossos corpos são lidos como estupráveis e seguem marcados pela tutela e controle que caracterizam a relação da sociedade com os corpos das mulheres. Isso impacta diretamente tanto a construção da identidade de gênero e modificações corporais quanto a vivência da sexualidade, desejo e vida social”.

De acordo com o ClicRBS, há hoje na UFSC 10 alunos matriculados com os seus nomes sociais na instituição, ao passo que duas pessoas transexuais já conseguiram se formar com os nomes que escolheram.

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