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17/01/2016 16:18 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

#ContraTarifa: Especialistas apontam desgaste de Haddad e dizem que 'ele não aprendeu com 2013'

Fernando Pereira/SECOM

No último dia 9 de janeiro, a passagem do transporte público em São Paulo subiu de R$ 3,50 para R$ 3,80. Não foram poucas as justificativas apresentadas pelo prefeito Fernando Haddad (PT) para defender o reajuste: foi um reajuste de 8,57%, abaixo da inflação de 10,49%; não afeta o Bilhete Único Mensal; e ao contrário do que se possa pensar, o lucro das empresas de transporte caiu 44,47% em 2015.

Passadas pouco mais de duas semanas do início do ano, as explicações não foram o suficiente para impedir que o Movimento Passe Livre (MPL) convocasse manifestações na capital paulista. A pauta é a já conhecida: revogação do aumento da tarifa e avanço do debate que possa fazer, um dia, a cidade chegar à gratuidade do sistema (o que, segundo Haddad, custaria R$ 8 bilhões à capital). Como em 2013. E, três anos depois, tal como nas Jornadas de Junho, a violência policial acentua o desgaste.

A diferença central é que 2016 é um ano de eleições municipais. Oficialmente, Haddad se nega a falar em reeleição – o discurso do prefeito é não abordar o assunto até abril. Todavia, o impasse que vai se estabelecendo a cada nova manifestação do MPL na cidade, ainda que não pareça ter o mesmo impacto até o momento do que se viu há três anos, só prejudica o petista, de acordo com especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil.

“A decisão do reajuste neste ano mostra que o prefeito é mais técnico do que político. Em 2013 o aumento foi de uma inabilidade gigantesca quando houve o aumento de R$ 3,00 para R$ 3,20. Parece que ele não soube aprender”, analisa o doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rafael Araújo. “Como em 2013, por mais que exista argumentação técnica, de orçamento, para o reajuste, ele deveria buscar alternativas”, completa.

Há três anos, após a forte repressão policial e a pressão da opinião pública, o reajuste da tarifa acabou revogado:

Antes mesmo do aumento da tarifa do transporte, as apostas na reeleição de Haddad só eram otimistas nos círculos próximos ao prefeito. Dados de uma pesquisa do Ibope, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no último dia 4, mostram que só um terço dos brasileiros (22%) pretende votar no prefeito da cidade onde mora, contra 40% que afirmam preferir um nome de oposição. Em cidades com gestão do PT, 22% votariam pela manutenção, ante 33% que preferem alguém de outro partido.

“É um suicídio eleitoral. Quem está na rua forma a base de eleitores ativos do Haddad, faria campanha para ele, e agora está protestando. Metade da própria gestão do prefeito, principalmente do segundo escalão para baixo, é contra o aumento. É uma medida impopular, desnecessária. O prefeito viu o maior levante da República [em 2013] vindo contra ele após uma medida que gerou muita antipatia da população”, pondera o filósofo e professor de Gestão de Políticas Públicas da USP Pablo Ortellado.

Ameaça dos adversários

A três meses da definição oficial de quem será candidato a prefeito em São Paulo, não faltam postulantes a assumir a capital financeira do Brasil. E não importa se tratam-se de velhos opositores ou antigos aliados: a ordem é partir para o ataque contra a gestão Haddad.

“Ele não tem vocação política (...) não imaginei que seria tão ruim”, disse a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP), que teve Haddad no seu governo quando foi prefeita da capital.

“Além de medíocre, o prefeito é incompetente”, sentenciou o vereador tucano Andrea Matarazzo.

“O PT jogou São Paulo na lama”, atacou o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP).

“A gente tem ciclovias e ciclofaixas cheias de buracos”, alertou o deputado federal Celso Russomanno (PRB-SP).

As dificuldades que se apresentam em SP antes do pleito de outubro não são novidade para Haddad, que já classificou a cidade como ‘túmulo de políticos’. Até hoje, nenhum prefeito eleito conseguiu se reeleger, talvez por suas decisões, talvez pela megalópole singular no País que reúne tantas diferenças e interesses.

Seja qual for a causa, o reajuste da tarifa aproxima o prefeito de uma crítica recorrente à que atinge outra petista, a presidente Dilma Rousseff: a falta de diálogo, sobretudo com a esquerda, que foi de onde surgiu o Partido dos Trabalhadores nos anos 80. Como em 2013, aqueles simpáticos a Haddad pedem que ele recue e revogue o aumento. Por ora, isso não parece estar sendo considerado — o que pode custar caro.

“O prefeito está diante da situação de perder parte da base social. É importante lembrar que ele fez o anúncio em conjunto com o governo do Estado (dirigido por Geraldo Alckmin, do PSDB). Certamente foi uma decisão bem pensada e que acaba afastando grupos que votariam nele no primeiro turno”, analisa o cientista político da PUC-SP Pedro Arruda. “Veja o que aconteceu no protesto do dia 12 (o 2º Ato Contra a Tarifa). Cobraram uma posição do Haddad contra a violência da polícia e ele não deu um pio”, continua.


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Distância entre o que quer o MPL e o que Haddad se dispõe a fazer ainda é grande (Valter Campanato/Agência Brasil)


Para Pablo Ortellado, outro ponto importante é a organização horizontal dos movimentos sociais. Se o que o MPL deu início há três anos parecia algo novo, agora já se tornou uma rotina, envolvendo outras categorias e demandas. Um exemplo que o filósofo menciona é a recente vitória do movimento de estudantes secundaristas da rede estadual de ensino de SP, que conseguiram que Alckmin recuasse do plano de reorganização escolar.

“Hoje temos um MPL mais organizado, com apoio dos secundaristas que derrotaram o governo estadual. Acho que a conjuntura favorece a demanda dos manifestantes. Além disso, é preciso dizer que essa história de aumento abaixo da inflação envolve um percentual muito pequeno. Se formos ver, eles recolocaram os R$ 0,20 de 2013 na tarifa. Corrigindo, em valores atualizados, daria os R$ 0,50 de 2014, mais os R$ 0,30 de agora.”

Rafael Araújo, por outro lado, vê o cenário com mais otimismo para Haddad. Mesmo com o que ele define como “erro político”, o petista ainda desponta com boas chances de reeleição. Para o cientista social, quem está na rua ainda considerará o prefeito nas eleições de outubro, vendo a decisão de reajustar a tarifa como “excesso de racionalidade”, uma vez que politicamente o congelamento das passagens faria mais sentido.

“Não importa o que o prefeito argumente, o assunto seguirá na TV, com os protestos, e o preço de R$ 3,80 é abusivo, já que não temos um sistema ‘padrão Fifa’, ainda mais com a crise atingindo outras coisas. Acredito que ele tenha feito a cidade ficar melhor, porém a decisão é ruim (...). O Haddad tem uma rejeição imensa, mas ainda é um candidato bem visto sob o ponto de vista do marketing: jovem, ‘bonitão’, professor da USP, o protótipo do que a classe média gosta, e se sai muito bem com a mídia. É superior aos demais nomes colocados até agora.”

Futuro do PT está na capital paulista

Nos bastidores, a direção do PT não esconde que deverá concentrar os seus esforços em não perder a prefeitura da capital paulista. Altamente desgastado pelas crises política e econômica, mais a Operação Lava Jato, o partido deve fazer um grande esforço junto à sua militância e a base na Câmara Municipal para que Haddad tenha boas chances, sobretudo reconquistando o terreno perdido na periferia da cidade.


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Lula pode ter um papel de destaque, seja por Haddad, seja por si mesmo para 2018 (Paulo Pinto/Analítica)


“A ex-prefeita Marta Suplicy é bem avaliada na periferia, entre os mais pobres, por suas realizações nas áreas da saúde, transporte e educação. No entanto, talvez não tenha como ela carregar esses votos para o PMDB, partido no qual ela está inclusive um pouco descaracterizada. É outro partido que está envolvido até o pescoço com corrupção. O Haddad vai depender de várias variáveis até as eleições, e do ex-presidente Lula”, afirma Arruda.

O próprio Lula tem alto grau de interesse na reeleição de Haddad, que foi seu ministro de Educação. Para quem pavimenta uma retorno ao Palácio do Planalto, o ex-presidente sabe que é de suma importância o PT não perder ainda mais terreno no cenário político nacional. A manutenção de SP, embora Haddad nem mesmo componha a mesma ala interna de Lula na legenda, é assim fundamental.

“O partido está muitíssimo desgastado. Ganhar a Prefeitura de SP pode ser a última cartada para chegar vivo em 2018, o que deve fazer que o PT aposte todas as suas fichas no Haddad. O Lula deve ter um papel importante, já que ainda possui uma aceitação grande mesmo em SP. O ex-presidente deve saber que, se perder essa eleição na cidade, o partido vai precisar de uns 20 anos para se refazer e o Lula não tem esse tempo”, finaliza Araújo, da PUC-SP.

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