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15/01/2016 18:35 -02 | Atualizado 08/01/2020 15:36 -03

O que o Ziggy Stardust de David Bowie nos ensina sobre o luto

JUSTIN TALLIS via Getty Images

Em 1976, o cineasta britânico Nicolas Roeg dirigiu o cult de ficção científica O Homem que Caiu na Terra.

O filme, baseado no romance de mesmo nome de Walter Tevis, de 1963, conta a história de Thomas Jerome Newton, um extraterrestre humanóide que, em busca de água para seu planeta seco, encontra-se tragicamente preso na Terra.

Em uma das escolhas de elenco mais fatídicas da história do cinema, o papel principal foi para o falecido David Bowie, o músico que ficou famoso graças a uma canção batizada de “Space Oddity” (esquisitice espacial) e que adotaria o pseudônimo mítico de Ziggy Stardust.

“Bowie, esbelto, elegante, remoto, evoca este alienígena com tanto sucesso que pode-se dizer, sem ironia, que este papel foi feito para ele”, escreveu o crítico Roger Ebert em 2011. Como resultado, o crítico Joshua Rothkopf chamou O Homem que Caiu na Terra de “o filme de gênero mais intelectualmente provocativo da década de 1970”.

No papel de Newton, Bowie mostra as angústias de um ser hiper-inteligente que passa pela transição de viajante fadado a magnata tecnológico e a objeto de experimentação da CIA. Bowie, assumindo a persona do Thin White Duke, representou com facilidade o papel de cortar o coração. Seu personagem passa facilmente de um refugiado alienígena desamparado a um membro pleno da sociedade terrestre e vice-versa, em uma adorada alegoria da ficção científica.

Mas, além da adoração dos fãs, o filme explorou uma emoção com a qual os devotos de Bowie estão muito familiarizados: a tristeza. Enquanto o mundo chora a morte de David Robert Jones esta semana, vale a pena olhar para o cantor no papel de Newton. Especialmente porque “Lazarus”, a adaptação musical de “O Homem que Caiu na Terra”, co-escrita por Bowie e Enda Walsh, está em cartaz em Nova York.

“Na sua essência, ‘Lazarus’ é uma meditação de duas horas sobre tristeza e esperanças perdidas”, escreveu Kory Grow, da Rolling Stone. Também é uma descrição exata do filme.

Durante toda a estadia de Newton na Terra, ele é constantemente lembrados de sua esposa e de seus filhos, que sucumbem lentamente à seca. Inicialmente, Newton trabalha incansavelmente e sem sucesso para consertar sua nave espacial, na esperança de voltar para casa e para seu povo. Mas seus planos são frustrados. Funcionários do governo descobrem a identidade alienígena de Newton e optam por prendê-lo e submetê-lo a uma série de exames médicos. Só depois de anos de cativeiro e quase tortura é que Newton percebe que sua “prisão” ― um apartamento de luxo no interior de um hotel ― não tem fechaduras.

Ele foge, mas para quê? Sua casa, ele imagina, não sobreviveu.

O livro de Tevis e filme de Roeg não tentam encobrir as complexidades da perda. O personagem de Bowie é envolto numa sensação esmagadora de desespero, que aumenta e diminui conforme ele tem sucesso ou fracasso em sua tentativa de se disfarçar. Mas Newton nunca esquece seu desejo de se reunir com sua família ― uma emoção potente que se fez presente em filmes posteriores, como a obra-prima icônica “E.T.”, de Steven Spielberg. Ao contrário do alienígena amigável dos os nossos sonhos de infância, no entanto, o desejo de Newton não é suficiente para levá-lo de volta para casa.

Roeg nos deixa com uma cena que reflete poeticamente sobre o destino de Newton. Durante toda a trama longa e maluca, ele conseguiu se manter agarrado a um senso de esperança. Assim, ele grava uma mensagem final, destinado a ser transmitida para sua casa alienígena. Infelizmente, o filme termina antes de descobrirmos se a sua família ainda está viva. Em vez disso, ele desmaia num café, aparentemente embriagado.

É uma cena triste; não há como negar o final infeliz. Mas Roeg e Bowie revelam, de forma não tão irônica, a humanidade real da tragédia e do amor. Somos capazes de sentir uma profundidade de emoções não contida pelas circunstâncias. E, embora o desespero absoluto possa dominar qualquer pessoa, a esperança é uma sensação estranha e persistente. Ao lembrar do homem que teve vários nomes, incluindo Thomas Jerome Newton, é a esperança que brilha mais forte que o desespero ou a perda.

“Há um starman esperando no céu”, cantou Bowie em 1972, quase quatro anos antes do filme. “Ele gostaria de vir conhecer-nos, mas ele acha que ele ia explodir nossas mentes.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.