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24/12/2015 09:16 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Senador Paulo Paim lamenta rumo do PT e relembra 'traições' da era Collor: 'É algo que existe nestes momentos'

Reprodução/Facebook

Depois de 30 anos, Paulo Paim (RS) está com um pé fora do Partido dos Trabalhadores (PT). Filiado desde 1985 à legenda e com um passado ligado ao movimento sindical, o metalúrgico de Caxias do Sul (RS) é um dos senadores mais combativos quando o tema envolve pautas dos trabalhadores e dos direitos humanos. Se ele não perdeu a sua essência, o mesmo não se pode dizer ao próprio partido.

“Acho que o governo Dilma tem uma composição ampla e muito confusa inclusive de muita gente que vê negócios na política e não tem uma visão humanitária. Você está ali na política para isso, para fazer isso de forma decente. Uma situação foi criada e o PT, na minha avaliação, entrou na vala comum, da articulação sem limites, com negociações buscando uma maioria. É como os outros governos fizeram”, diz Paim ao HuffPost Brasil.

Em um ano legislativo que o senador gaúcho considera como ‘perdido’, Paim enfrentou embates internos que outros petistas também vivenciaram. Alguns acataram a posição da ala interna majoritária, do ex-presidente Lula. Outros escolheram sair, a fim de buscar um outro caminho que representasse suas próprias bandeiras. Até o fim do ano o senador do RS deve tomar uma decisão. Uma última viagem ao seu Estado natal selará o seu destino.

“Tenho conversado com inúmeros partidos. Falei com muita gente, mais de 10, 12 partidos, com esses novos que estão chegando. A minha tendência é sair ainda este ano, neste mês, mas eu ficaria sem partido por um tempo, na mesma trincheira dos que são contra o impeachment, deixando para tomar uma decisão depois disso. Tem um movimento ‘Fica Paim’ no meu Estado, eu respeito e vou falar com eles antes de decidir”, revela.

Paim ao lado do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP): Partido de Marina Silva é uma das possibilidades para o futuro do senador gaúcho (Reprodução/Facebook)

Traições

Falar sobre a possibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) não é algo fácil para nenhum petista. Para alguém que está no Congresso Nacional desde 1986, quando foi eleito deputado federal pela primeira vez, é inevitável não se lembrar de outro impedimento, o do ex-presidente e hoje senador Fernando Collor, em 1992. Como naquela época, Paulo Paim consegue ver algumas semelhanças.

“Impeachment é algo que preocupa qualquer país do mundo. Ao mesmo tempo que a gente vê que, hoje, a presidente possui números e votos para que o impeachment não seja aprovado, a gente sabe que a traição em momentos como esse existe. Por isso há uma insegurança. Na época do Collor eu estava aqui (no Congresso) e vi gente que jantou com ele, fazendo juras de amor eterno, sendo filmado, e à noite votou contra ele ‘em nome da família, de não sei o quê’”, afirma.

Diante do clima de insegurança generalizada, o senador petista é a favor da suspensão do recesso parlamentar, algo que poderia dar mais agilidade e rapidez ao processo de impeachment. Para Paim, se Dilma escapar do processo ela sairá fortalecida para seguir com o seu governo até o fim do mandato, em 2018. Todavia, a oportunidade que se apresenta para alguns setores que estão de olho no poder deve manter a turbulência.

“O poder é sedutor e está encastelado na cabeça das mentes que estão transitando em Brasília. Então eu diria que todo cuidado é pouco”, opina.

Alternância

As recentes eleições na Argentina e na Venezuela apresentaram uma guinada política nos dois países, após longos períodos de governos populistas e mais à esquerda. No Brasil, a interpretação de setores da sociedade e da própria política é que os ventos na América do Sul estão mudando, o que significaria que os tempos do PT no Palácio do Planalto, iniciados em 2003, estariam no fim.

Ao contrário do que poderia se pensar, Paulo Paim não vê isso de maneira negativa. “É assim a democracia. Foi pela via democrática, ruim seria se tivesse ocorrido um golpe militar, como já ocorreu na Argentina. Quando a democracia prevalece, por vontade da maioria, do povo, de baixo para cima, eu não posso criticar. Não vejo retrocesso, foi a vontade popular que prevaleceu, como será no Brasil em 2018”.

Paim, ao lado dos ex-senadores petistas Ana Rita (ES) e Eduardo Suplicy (SP): Trio trabalhou junto por temas a favor dos direitos humanos (André Dusek/Estadão Conteúdo)

O senador gaúcho não arrisca fazer previsões, mas deixa claro que considera positivo e saudável a alternância no poder. Aqui, uma nova crítica ao próprio partido. “Quando você vai se instalando no poder, os vícios do sistema vigente vão avançando com seus tentáculos e acabam envolvendo mais uns e menos outros. Ficar no poder por muito tempo, sem alternância, não é bom para a democracia”, avalia Paim.

Com o avanço de pautas conservadoras em 2015, notoriamente na Câmara dos Deputados, o senador espera por um desfecho rápido do processo de impeachment e uma retomada do debate legislativo que atenda aos interesses da população. A única certeza para Paim, pelo menos neste momento, é que ele seguirá defendendo as suas bandeiras, aquelas que o PT deixou no passado.

“Não foi o governo que eu elegi. Muitos outros como eu, por motivos diferentes, participaram desse contraditório que se estabeleceu no Parlamento. Foi como se tivesse se iniciado um terceiro turno e nós tivemos de combater também nos Estados. Eu mesmo viajei a 24 deles, estou até com dor na coluna”, conclui.

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