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24/12/2015 12:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

No mesmo Leblon do ataque a Chico Buarque, criança pobre e negra é alvo de preconceito por querer um sorvete

Montagem/Estadão Conteúdo

Dois dias após o ataque verbal sofrido pelo cantor e compositor Chico Buarque, por sua militância em favor do PT, o bairro do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, voltou a ser palco de outro fato lamentável. Desta vez não envolveu personagens famosos, apenas dinâmicas sociais urbanas às quais negros e pobres, sejam do Rio ou de outras cidades, estão acostumados a sofrer.

Em postagem com quase 8 mil curtidas e mais de 2 mil compartilhamentos no Facebook, o advogado Breno Melaragno Costa descreveu um episódio que expôs o quadro de intolerância que o País vive hoje. E tudo por conta de um sorvete, que ele se dispôs a comprar para um menino negro e pobre, que tentava vender balas na região. A atitude o fez ser questionado por uma outra moradora do bairro.

“Poderia esperar qualquer coisa menos a frase que veio logo a seguir: ‘porque com o senhor fazendo isso, aí é que esta gente não vai embora daqui mesmo’. Isto na frente daquela pobre criança, que naturalmente não esboçou qualquer reação. Deve infelizmente estar acostumada a ser tratada como um ser humano inferior. Estupefato, estampei um sorriso no rosto como forma de autocontrole e, educadamente, não resisti: ‘a senhora agora vai me mandar pra Cuba?’. No que ela respondeu, ainda para piorar, apontando para a criança: ‘é este tipo de gente que estraga o nosso bairro’. Não tive coragem de olhar para o rosto daquela criança. Sorri novamente e disse ‘quem estraga o nosso bairro é parte dos próprios moradores que infelizmente pensam como a senhora’”.

Surreal! Estava agora há pouco com meus filhos numa sorveteria na Ataulfo de Paiva, no final do Leblon. Quando estávamos...

Posted by Breno Melaragno Costa on Quarta, 23 de dezembro de 2015

Professor de Direito Penal do Departamento de Direito da PUC-Rio e conselheiro da OAB-RJ, Costa ironizou ainda o fato de a senhora que o questionou provavelmente estar ‘pregar o bem’ na noite de Natal e argumentou que o episódio apenas revela um sinal claro de como se sentem as elites no Brasil hoje, diante de uma grave crise política, econômica e até moral.

“É fato que nossa elite nestes últimos tempos de excesso de opiniões raivosas e superficiais em detrimento de um mínimo de conhecimento e reflexão, se aproxima cada vez mais de um caminho irracional e suicida. Poucos, muito poucos, lucram com isso e certamente não é o(a) morador(a) do Leblon, que se ilude em viver num principado isolado do resto da cidade e do País”.

Ele termina a postagem fazendo menção à filósofa gaúcha Márcia Tiburi, que recentemente lançou um livro intitulado Como conversar com um fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Editora Record), no qual ela aborda esse ‘enorme desafio’ que é dialogar com aquele que pensa diferente de você no País.

“Enquanto isso vou lendo o livro da Márcia Tiburi por prazer e por necessidade (rs) e vou fazendo votos para que 2016 seja pelo menos um pouco diferente...”, concluiu.

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