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06/12/2015 02:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Pimp My Carroça, luta pela água e ecologia. Como funciona a cabeça de Mundano, ícone do grafite

"Com o grafite me descobri como ativista*. A coisa é gerar reflexão, gerar interação nas pessoas. Não me vejo mudando minha trajetória. Meu objetivo como artivista (artista + ativista) é deixar um legado para os catadores e milhões de pessoas.

Sempre gostei de rabiscar. Rabiscava carteira na escola, gostava de deixar marcas. Ficava intrigado com a pichação desde pivete. E aí comecei sozinho. Com pinturas, algumas tentativas mais artísticas. Mas foi curiosidade própria que me fez ir para a rua com pincel e rolinho. Demorou anos até usar o spray, aí veio a pichação. Comparo a pichação com a arte rupestre. O ser humano estava pichando a caverna para se expressar, para mostrar o seu dia a dia. Se São Paulo está inteira pichada, precisamos observar como observamos a arte rupestre. É um grito da periferia por lazer, por falta de diversão, por protesto. Pode ser mais ligado ao vandalismo e tudo mais. Mas é uma forma de expressão.

Comecei o trabalho com carroceiros há oito anos. O Pimp My Carroça (em que pinto as carroças com provocações) surgiu há três, mas agora vai para o mundo todo. Comecei dando palestra e percebi que existem catadores em todos os lugares. Na Califórnia mesmo, onde estive meses atrás, está lotado de catadores. A diferença é que lá eles usam carrinho de supermercado. No Peru, na Argentina e na África do Sul têm catador também. Rolaram ainda duas grandes edições do Pimp My Carroça em Cali e em Bogotá.

Antes, os catadores eram notícia quando tinha um problema. Quando eram atropelados e pelo uso de crack. Agora conseguimos colocar os catadores dentro de um viés muito mais positivo.

A luta agora é para eles serem citados no Código de Trânsito. Para isso, estou pensando no Reciclovia. Temos 20 mil carroças em São Paulo e eles não são citados em nenhum momento. A gente tem o apoio da sociedade civil, dos artistas, mas a prefeitura prefere se omitir.

Agora é lançar a campanha mundial Viva os Catadores. Começa com exposição em São Paulo, mas a ideia é incentivar as pessoas a conversarem com os catadores, a que tirem fotos e coloquem no Twitter e no Instagram com a hashtag #vivaoscatadores.

Mundano, em Nova York, em clique de Martha Cooper presente na mostra "Viva os Catadores"

E nisso entra a pauta da água, que tem tudo a ver com os catadores. A reciclagem economiza água. Cada material reciclável tem água. O catador Rafael dos Santos recicla materiais há 29 anos. Calculamos o quanto ele reciclou e chegamos a cinco milhões de litros d’água. Ele cata 500 kg por dia, uns 60% disso é papelão. Pelas nossas contas, só o Rafael já preservou seis mil árvores.

Para a campanha da água, tenho usado o cacto. É uma planta que simboliza a resistência. É um pouco o povo brasileiro, que trabalha com poucos recursos e vai sobrevivendo. Mas, infelizmente, a água perdeu a relevância como direito universal e virou mercadoria. Durante a crise hídrica aqui em São Paulo, a Sabesp teve o maior lucro da história. E eu acredito muito no que se ouve nas marchas mundo afora: água não se vende, água se defende.

Polícia deveria existir para nos proteger. Se eu estou num mercadinho, por exemplo, e chegam seis policiais, a minha sensação é: vai acontecer alguma merda. Me sinto desprotegido. Eu e todo mundo.

Já cansei de ver catador que eu tinha pintado a carroça me falar que o dono do ferro velho estava sofrendo ameaça por conta das frases de protesto. Nos protestos de junho de 2013 eu pintei uma com 'Vamos para a rua' e depois a carroça ficou toda zoada porque um policial ameaçou bater nele se não apagasse o que estava escrito. Já fiquei sabendo de gente querendo bater em catador por frases minhas contra a maioridade penal.

Já fui abordado mais de cem vezes pela Polícia Militar. Principalmente, quando estou pintando na rua. E é absurdo quando eles vêm apontando a arma. Estou pintando um muro, não ofereço uma abordagem errada. Já sofri abusos, já me falaram que iriam me pintar inteiro. Tenho vergonha dos policiais do meu país. Fazem um desserviço quando deveriam estar do lado da população. Não podemos deixar passar em branco.

É que a arte incomoda. E quando ela incomoda, é porque ela faz sentido."

*Texto escrito a partir de entrevista do artista ao repórter

Serviço:

Exposição Viva os Catadores

Onde: Red Bull Station, Praça da Bandeira, 137 - Centro, São Paulo

Quando: Até 30/01. Terça a sexta, das 11h às 20h. Sábado, das 11h às 19h

A água pode acabar. E é hora de começar a se ligar nisso

Sem os catadores e catadoras, o bicho iria pegar bem rápido para todo mundo