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04/12/2015 12:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Um pequeno guia sobre o pênis História da Arte (+18)

Massimo Pizzotti via getty images

Em março, enquanto todo mundo estava comemorando o Dia Internacional da Mulher, fizemos um resumo da aparente obsessão do mundo da arte com as vaginas. Tudo em nome da arte, da cultura, do feminismo etc etc.

Como acreditamos em oportunidades iguais, gostaríamos de apresentar outra breve explanação do fascínio dos artistas com nossas partes íntimas.

Desta vez, vamos falar do pipi!

"Por quê?", você pergunta. O órgão sexual masculino já não recebeu atenção demais? É por causa do patriarcado? Por causa do privilégio masculino? Porque é hilário desenhá-lo no caderno dos seus amigos?

Talvez. Mas vamos falar dele assim mesmo, por causa de arte, cultura, feminismo etc etc. Para entender esse tópico acadêmico, temos de voltar na história e entender que imagens de pintos existem há muito mais tempo que o Snapchat, começando com...

Grécia Antiga: mestres do pintinho.

Em julho, uma equipe de arqueólogos trabalhando numa ilha do Mar Egeu deparou com desenhos “tentadoramente claras” de pênis dos séculos 5 e 6 A.C. Acredita-se que eles estejam entre os mais antigos já encontrados.

Representações de pênis eram comuns na Grécia Antiga – particularmente pênis pequenos, que adornam muitas das esculturas de mármore que sobrevivem até hoje.

Será que os homens da época eram tão pouco dotados? Ou será que eles preferiam se sentir superiores em relação às estátuas? Nada disso. Pênis grandes eram associados ao grotesco. A estética ideal, explicada por Aristófanes, era “um peito reluzente, pele clara, ombros largos, língua pequena, nádegas fortes e um pinto pequeno”. Ha.

Depois, vamos para a...

Idade Média: como aquele cara de Superbad.

A vida devia ser bem maçante para quem tinha de copiar linha atrás de linha antes da invenção da prensa. Pênis aparecem nas margens de vários manuscritos medievais, de monstros voadores de pênis verdes a pênis amadurecidos pendendo de galhos de árvores carregados de pênis.

Em alguns contextos, sugere uma historiadora da arte, esses desenhos de pintos eram só piada.

“Uma árvore com falos é engraçada em qualquer era”, explicou ela.

E, embora seja uma verdade inegável, uma interpretação alternativa sugere uma conotação negativa.

Acredita-se que um mural toscano com uma árvore de pênis descoberto há dez anos fosse uma imagem política, encomendada por uma facção toscana para associar os rivais com “heresia, perversão sexual, rixas cívicas e bruxaria”.

Depois de muitas pragas, chegamos ao...

Renascimento: a era dos lanchinhos eróticos

Nessa época, as pessoas começavam a aceitar a ideia de que o Sol talvez não girasse em torno da Terra, mas esculpir um rifle coberto por um prepúcio ainda estava fora de questão. Quando os artistas queria desenhar uns pintos, tinham de recorrer ao simbolismo – usando comida. Delícia!

“Cupido e Psique”, de Rafael, é uma salada de fruta libidinosa. Um canto mostra uma cabaça de formas sugestivas, com berinjelas igualmente sugestivas na base perfurando um figo vertendo suco de tão maduro.

A genitália também pode ser vista sem disfarces – o “David” de Michelangelo é uma das obras mais conhecidas do Renascimento --, mas principalmente no contexto religioso e histórico dos sujeitos.

Ela também era pequena e não-circuncidada, porque houve uma época em que as pessoas não cortavam fora o prepúcio (provavelmente uma boa ideia, porque elas talvez não percebessem a importância de esterilizar os objetos afiados antes de colocá-los em contato com os pipizinhos dos bebês).

Avançando mais um pouco, temos um...

Escândalo na Irmandade pré-Rafaelita!!!

Esses vitorianos certinhos estavam escondendo imagens sacanas o tempo todo! Estamos vendo essa sombra! Sabemos o que é!

Continuando...

O fim do século 19: quando fica cada vez mais difícil definir arte.

Na esteira da audácia dos impressionistas, surgiu uma enorme variedade de novas escolas de pensamento, incluindo algumas que combinavam as técnicas coloridas do impressionismo com contornos mais definitivos, por exemplo.

Temos, portanto, A Primavera, de Koloman Moser, que exibe um membro relativamente bem definido.

Outros artistas, como Egon Schiele, se concentravam na melancolia expressionista : trabalhos como “Homem nu em pé” e “Masturbação 2”.

Depois não sabiam por que o pessoal da cidade não gostava deles.

Avanços prévios na anatomia começavam a influenciar como os estudantes de arte aprendiam sobre o corpo humano, incentivando-os a buscar a precisão.

Em vez de recriar as proporções clássicas (ou seja, pintinhos pequenininhos), eles queriam a reprodução fiel dos modelos.

Aí, logo veio o...

Modernismo: é o que estou pensando?

Basicamente, os modernistas não estavam nem aí, porque a Primeira Guerra Mundial os levou a considerar as ligações com as definições tradicionais de “arte” tão sólidas quanto a segurança do arquiduque Ferdinando.

Quando os colecionadores de arte ficaram “chocados” com o fato de que um violão poderia ser representado por uma colagem de figuras geométricas, eles falaram tipo: “Beleza, vamos pintar um trem saindo de uma lareira” e saíram batendo o pé.

E também desenharam vários car***os.

Em 1920, Constanti Brancusi escandalizou o Salão dos Independentes quando revelou uma escultura dourada toda brilhante e cheia de curvas, batizada de Princesa X. Ao vê-la, Picasso teria dito que ela era meio fálica. Brancusi ficou puto e negou.

Mas devemos lembrar que estamos na era da “mente subconsciente” de Freud: os artistas exploravam os sonhos e o simbolismo das formas. (O pescoço comprido em O Estupro, de Magritte, acima, sugere um falo perfurando o rosto-torso.) Talvez Brancusi não quisesse representar um falo conscientemente.

Talvez. Quem sabe?

Depois, vimos o...

Pós-modernismo no meio do século 20: isso é um pênis .

A arte ficou mais autoconfiante, como a música de um certo quarteto de Liverpool, e os artistas – incluindo AS artistas – passaram a criar trabalhos cada vez mais explícitos, moldados por tecnologias “novas” (fotografia!) e pela cultura popular (filmes! música! produtos enlatados!).

A escultura de fibra de vidro Rocking Machine, de Herman Makkink, parece muito com um falo.

A obra ajudou o artista a ganhar notoriedade depois de sua aparição em “Laranja Mecânica”, de Kubrick.

Inspirada por décadas de psicanálise, Louise Bourgeois cunhou seu slogan

Arte é uma garantia de sanidade” e criou o monumento à razão chamado Filletteum pênis-barra-torso-feminino gigante.

Entre suas várias representações de nomes famosos, como Monroe e Campbell, Andy Warhol imprimiu sua “arte suja”, que mostrava um cara em pé com as pernas cruzadas e tudo à mostra – em tamanho natural!

É claro que também temos Homem em Terno de Poliéster, de Robert Mapplethorpe, famoso por abordar questões LGBT e raciais. Ela mostra – sim – um homem negro vestindo um terno de poliéster, com seu instrumento casualmente para fora da calça, como que por esquecimento.

Finalmente, chegamos à...

Arte contemporânea: a anatomia masculina vira algo quase passé.

Como hoje em dia são raras as coisas capazes de chocar o mundo da arte, os paus estão por toda parte. Não faltam exemplos!

“Não sentamos e falamos: ‘Isso vai deixar fulano puto da vida’. Fazemos o trabalho que temos vontade de fazer instintivamente”, explicou a artista punk Sue Weber, que, com Tim Noble, criou uma massa de falos no meio dos anos 1990 que forma uma sombra das cabeças de ambos de acordo com a luz.

O escultor Jamie McCartney cria uma miríade de genitálias – masculinas e femininas – para completar suas obras, mosaicos de partes íntimas que parecem a maior parede de azulejos XXX do mundo. McCartney diz usar o humor para “derrubar barreiras e incentivar o envolvimento do público com assuntos complicados”.

Enquanto isso, Kristen Fredericks continua a tricotar criações penianas na Austrália.

Elas andam em bandos e têm olhos e peitos (inexplicavelmente). Fredericks, que parece a mãe de alguém, era designer de malhas antes de dedicar seu considerável talento com as agulhas a um uso melhor.

Mas na esfera contemporânea também temos...

Arte performática: pênis em nome da política.

Por algum motivo, os russos adoram o tipo de arte esquisita que é difícil explicar pros outros.

Meses depois daquele cara grampear seu escroto em paralelepípedos gelados de Moscou em nome da “apatia” e da “indiferença política”, um coletivo de artistas conhecido como Voina (guerra, em português) causou confusão numa ponte levadiça de São Petersburgo.

Em apenas 23 segundos, nove integrantes do grupo pintaram um pênis enorme na ponte, antes de serem presos.

Segundos depois, quando a ponte se levantou para a passagem de um navio, um enorme cacete estava de cara para o prédio do Serviço de Segurança Federal.

É um ato de protesto monumental, romântico, radical”, explicou Aleksei Plutsner-Sarno. “Gosto como obra de arte, não só porque é um pênis.”

E não podemos nos esquecer da...

Arte de internet: a era do pinto digital.

Se você quiser uma opinião imparcial sobre seus dotes de fotógrafo, Madeleine Holden, responsável pelo site Critique My D*ck Pic (algo como “faça uma crítica da minha foto de pau”), vai fazer* uma análise** “100% anônima, sem censura em relação ao tamanho”.

A neozelandesa abre mão de seu alter ego de advogada para julgar as muitas, muitas, muitas fotos de pênis que recebe. Holden diz que seu trabalho mostra como é frágil o ego masculino.

Quem diria que aqueles que empunham o maior símbolo de poder e dominação de todos os tempos se sintam fragilidade a respeito de suas “armas”. A artista diz que o blog é “uma maneira anônima de [os homens] darem vazão às suas vulnerabilidades mais profundas (e para balançar o pau por aí)”.

Finalmente, quem poderia se esquecer do Snapchat, que realmente democratizou a arte peniana, permitindo que as fotos sejam melhoradas com desenhos toscos.

É isso. Fazemos arte com o pênis, fizemos arte com o pênis e, como mostrou o aluno da oitava série Eliot Ratray numa excursão da escola para uma caverna que tinha pinturas rupestres de 35 000 anos atrás, sempre faremos arte com o pênis.

“Meu amigo duvidou que eu desenharia um pinto [na caverna], então desenhei”, disse ele. “Eu ia fazer ele fazendo xixi, mas a professora estava chegando perto.” Assim nasceu um artista.

* Talvez

** Dependendo do esforço envolvido na obra submetida

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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