MULHERES
04/12/2015 18:02 -02 | Atualizado 18/03/2019 17:32 -03

Quando a masculinidade tóxica encontra o pânico antiaborto

O atentado contra a Planned Parenthood foi aterrorizante, mas não surpreendente.

Na sexta-feira dia 27 de novembro, apenas um dia depois da celebração do Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos, um homem atacou a tiros a unidade da cidade de Colorado Springs da Planned Parenthood, uma ONG que oferece serviços de controle de natalidade. Três pessoas morreram.

Desde então, o The Washington Post e a Newsweek noticiaram que o suposto atirador, Robert Lewis Dear Jr., disse a frase “não ao uso de pedaços de bebês” quando falou com a polícia. (O comentário seria uma referência aos vídeos criados por grupos antiabortos que mostram discussões – completamente legais! – sobre a prática da Planned Parenthood de doar tecidos de fetos.)

Dear já havia sido preso por voyeurismo e foi acusado de violência doméstica.

Infelizmente, as notícias de mais um atentado desse tipo não são surpresa. Assim como não é surpresa o fato de que esse atentado tenha ocorrido numa clínica da Planned Parenthood ou que o suposto atirador tenha histórico de violência contra mulheres.

O incidente é deprimente e fundamentalmente americano.

Será que conseguimos ficar surpresos ao ver as balas do ódio masculino e da masculinidade tóxica espalhadas pelo país?

Atos de violência contra clínicas de aborto não existem no vácuo. Há um longo histórico de ataques contra clínicas – só este ano, foram quatro incêndios criminosos contra clínicas da Planned Parenthood.

Não é à toa que os funcionários da unidade de Colorado Springs estivessem treinados para casos de “ataques armados”.

E há um longo histórico de retórica odiosa contra o aborto, cujo objetivo é intimidar tanto as mulheres que abortam quanto os profissionais que realizam os procedimentos.

Depois do ataque da semana passada, muitos homens e mulheres tuitaram apoio ao atirador, como comentários do tipo:

“a planned parenthood mata um milhão de bebês e ninguém pisca. mas um heroi corajoso tenta acabar com isso e tudo mundo fica maluco”, e “Atirador em Planned Parenthood do Colorado. Diria que este HEROI corajoso está salvando a vida de bebês inocentes!”

Eis apenas alguns dos conservadores comemorando o atirador da #PlannedParenthood

O que é mais assustador é que esses tuítes não parecem diferentes da linguagem usada pelos pré-candidatos republicanos à Presidência. Ben Carson e Mike Huckabee compararam o aborto à escravidão, e Carly Fiorina disse que as imagens repulsivas do vídeo anti-Planned Parenthood mostravam “um feto plenamente formado na mesa, coração batendo, pernas se mexendo, enquanto alguém diz que teremos de mantê-lo vivo para colher o cérebro”.

O detalhe: esse vídeo nunca existiu.

Jessica Valenti, do The Guardian, resumiu em duas frases o poder aterrorizante dessa retórica:

“Sabemos por que esse [atentado] aconteceu... Por causa do ódio, por causa das mentiras, e porque as palavras importam”.

Não só as palavras importam, mas a representação e a educação, também. Não é por acaso que vemos tão poucas mulheres fazendo abortos na TV sem sofrer consequências terríveis – em 2015, as histórias de aborto nas séries Jessica Jones e Scandal ainda parecem revolucionárias.

E o estado da educação sexual no país é deplorável.

Muitas vezes os alunos aprendem a ter medo do sexo, em vez de praticá-lo com segurança; aprendem a condenar o aborto, mas não a evitar a gravidez indesejada.

Vivemos numa cultura em que as pessoas têm medo das mulheres que exercem controle sobre seus próprios corpos – especialmente quando esse controle envolve decisões a respeito de sexo ou planejamento familiar.

Quando você combina esse medo com uma sociedade que os homens têm direito ao corpo, ao tempo, à atenção e à afeição das mulheres, da maneira que eles bem entenderem, será que conseguimos ficar surpresos ao ver as balas do ódio masculino e da masculinidade tóxica espalhadas pelo país?

O incidente é deprimente e fundamentalmente americano.

É impossível apontar com precisão a combinação exata de fatores que leva alguém a abrir fogo num lugar público, seja uma igreja, um cinema ou uma clínica. Doenças mentais podem explicar em parte o ataque em Colorado Springs.

Mas elas certamente não explicam por que um homem alvejou a Planned Parenthood nem por que ele usou mentiras perpetuadas por ativistas antiaborto para justificar suas ações.

Lembrete: misoginia não é doença mental.

É exaustivo ler – e escrever – sobre atentado depois de atentado depois de atentado. Exaustivo ver atiradores brancos e homens continuamente descritos como “lobos solitários com doenças mentais”.

Você não pode ser um “lobo solitário” se suas ações violentas se apoiam na retórica de um partido político importante.

É exaustivo observar um clima político que perdoa tacitamente o bullying de mulheres que procuram cuidados médicos legais. Exaustivo viver num país em que as pessoas estejam dispostas a perdoar abertamente um ataque que deixou três mortos. e nove feridos.

Porque, no final das contas, quando uma organização que serve primariamente as mulheres é atacada, todas as mulheres são atacadas.

Os ataques contra a #PlannedParenthood terrorizam as mulheres *enquanto classe*. As mulheres são a imensa maioria das pessoas que acessam o serviço.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.