NOTÍCIAS
01/12/2015 18:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

O que podemos aprender com Charlie Sheen? Faça teste de HIV

ASSOCIATED PRESS
Actor Charlie Sheen appears during an interview, Tuesday, Nov. 17, 2015 on NBC's

Há duas semanas, o ator Charlie Sheen revelou ser portador do vírus HIV em um dos programas de maior audiência da TV americana.

Fazia muuuuito tempo que um famoso do porte de Sheen vinha a público para falar da doença. Esse silêncio pode dar a impressão de que o HIV é um problema superado. Não é.

O Brasil observa hoje um acelerado avanço do vírus entre jovens entre 15 a 24 anos. A última vez em que houve tantos contágios foi há mais de dez anos, em 2004.

A "saída de armário" de Charlie Sheen pode ser um ponto de virada nessa história. Primeiro porque o ator de Two and a Half Men é amplamente conhecido pelo público jovem.

Segundo porque sua imagem está distante daquela que o senso comum associa à de portadores de HIV. Charlie é tão "machão" que estampa a fanpage "Orgulho de ser Hétero" no Facebook. Mas a realidade é que, apesar de se concentrar em populações-chave, o HIV infecta a todos igualmente.

O HuffPost Brasil entrevistou Cristina Raposo, coordenadora da AIDS Healthcare Foundation no Brasil. Para ela, a maior contribuição de Charlie Sheen é a necessidade de se fazer teste sorológico, mesmo para aqueles que não fazem parte de populações-chave.

Leia, abaixo, a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Entre mulheres, 86,8% das transmissões por HIV em 2014 ocorreram por meio de relações heterossexuais. Entre homens, o número foi de 67,5%. Você acha que os héteros se vêem como suscetíveis ao HIV?

Na nossa prática, acho que hoje em dia as pessoas têm mais consciência de que tanto os héteros quando os HSH (homens que fazem sexo com homens) estão expostos à possibilidade de se infectar com o HIV.

O que acontece é que a epidemia é concentrada no que temos chamado de populações-chave, em que houve um aumento exatamente porque as práticas de prevenção foram negligenciadas. E isso não é só no Brasil. Na África por exemplo, é uma epidemia generalizada: héteros, homos, pessoas que usam drogas. Todas as pessoas estão no bolo.

Você acredita que o fato de Charlie Sheen vir a público falar sobre HIV pode ajudar os héteros a se verem como alvo do vírus?

Nos anos 80, a gente teve Cazuza, Lauro Corona, Sandra Bréa, vários artistas que, apesar de ser um momento doloroso porque não havia um tratamento eficaz, nos mostraram que todos nós estávamos em risco de contrair o HIV por meio de relações sexuais desprotegidas.

Essa nova geração não teve contato com essas pessoas que sofreram por trazer isso a público. E hoje você não vê essas figuras trazerem a público sua condição sorológica.

Embora o Charlie Sheen não seja brasileiro, todo mundo o conhece. E trazer isso à tona mostra para a gente: "Opa, pera lá. Se ele tem, eu também posso ter, porque independentemente da minha orientação sexual, se tive relações desprotegidas, posso ser portador."

O que podemos aprender com a declaração de que Charlie Sheen é soropositivo?

No Brasil, a epidemia tem ficado muito maior entre jovens. O fato de o Charlie Sheen ter trazido isso à tona mostra para a gente que é preciso, sim, ter um pouco mais de cuidado. E não sabemos quais são as práticas que levaram ele ao risco, e nem precisamos saber, isso é de foro íntimo. Mas isso traz um recado importante: o de que todo mundo está suscetível.

Vários jovens héteros têm se descoberto com HIV, muitas mulheres, e isso também chama atenção para o fato mais importante de tudo, que é a importância da testagem.

Esse é o grande recado: todo mundo precisa se testar. Todos os médicos deviam saber o estado sorológico de seus pacientes.

Na medida em que você sabe se você é negativo, precisa tomar providências para continuar negativo. E se você é positivo, tem a opção de iniciar o tratamento imediatamente. O governo oferece isso.

Se você não quer iniciar o tratamento, tem todos os cuidados relativos à sua condição de saúde, acesso a todos os cuidados no próprio sistema municipal.

O Brasil é um dos poucos países que tem um sistema de saúde em total de condição de receber todas as pessoas que vivem com HIV. O médico pode ser um infectologista particular, mas os remédios você pega no sistema público. Nem todos os países tem essa possibilidade. Temos que reconhecer isso.

Quais são essas populações que estão deixando de se testar?

Hoje existem em torno de 150 mil pessoas no Brasil que não sabem seu estado sorológico, das 700 mil com HIV que há.

Existe uma tendência a acreditar que essas populações são as mais vulneráveis, que não têm acesso ou não estão dando a devida importância a isso.

E há muita gente que não vai ao SUS porque não são bem recebidas, são estigmatizadas...

A AHS tem trabalhado em algumas áreas do Brasil, como por exemplo na Amazônia. E temos trabalhado muito para acessar uma população que não vai ao SUS. Moradores de rua, HSH, travestis e profissionais do sexo, que estão em risco ao não saberem seu estado sorológico e não sabem que correm o risco de infectar outras pessoas.

Quando você inicia o tratamento, tem uma qualidade de vida melhor, diminui a carga viral e a possibilidade de transmissão é bem menor.

Você acha que o fato de termos tratamentos eficazes hoje influi na falta de prevenção?

Essa é outra mensagem: a importância de fazer uso consistente de preservativo, em todas as relações sexuais. Eu acho que essa questão do Charlie Sheen ser hétero importa na medida em que você vê que os héteros têm de ficar atentos também.

Mas o importante é ressaltar que ele sabia disso havia quatro anos e, de acordo com a entrevista que ele deu, ele tinha cuidado de fazer sexo com preservativos. Quando a gente vive com HIV, não tem alternativa, precisa fazer sexo ccom preservativo, inclusive pela sua própria saúde.

De quanto em quanto tempo devemos nos testar?

A nossa recomendação é que, sempre que você tiver uma exposição ao risco, você deve procurar a testagem no SUS. Hoje em dia você consegue detectar o vírus 28 dias após a infecção. Então quanto mais cedo você souber, melhor.

As populações que estão mais expostas devem se testar pelo menos de seis em seis meses. E se você faz sexo com preservativo e não faz uso de drogas, é preciso se testar uma vez por ano.

Que outros recursos, além da camisinha, podemos utilizar no combate ao HIV?

No Brasil, a gente tem acesso à profilaxia pós-exposição, conhecida como a "pílula do dia seguinte".

Na verdade não é a pílula do dia seguinte: você toma durante 28 dias e fica sob cuidados por 90 dias.

Ela é supereficaz, e evita que você, ao ter tido contato com o vírus, desenvolva a infecção. Mas isso é muito pouco divulgado.

Então no caso de você ter tido uma relação desprotegida, procure uma unidade de saúde e procure pelo PEP.

Ela não deve ser usada como uma alternativa à camisinha, de maneira alguma. Mas pode acontecer de romper. De você ter cometido um erro, bebido demais e deixado de usar a camisinha.

A Anvisa acaba de regulamentar testes de HIV para venda em farmácia. Como você enxerga essa notícia?

Os testes de farmácia são uma excelente notícia. Existem pessoas que não vão ao SUS, por várias razões, principalmente por privacidade.

Então o teste de farmácia dá esse acesso, e se der positivo elas vão ao SUS para fazer a confirmação. Como primeiro contato é supereficaz e superimportante que isso tenha sido aprovado pela Anvisa.

Em vários países isso já é realidade, e traz para uma população, inclusive de alta renda, que não vai ao SUS, acesso à testagem.

Existem pessoas que são reticentes pelo fato de você descobrir o diagnóstico sozinho em casa. Mas todo mundo sabe que ter HIV não é atestado de morte. Você tem condição de viver saudável, fazendo tratamento. Então, se você descobrir em casa, tem que ir confirmar.

E se tiver diagnóstico confirmatório, estará em frente a um profissional que te dirá exatamente o que você deve fazer. Então acho que essa é mais uma alternativa muito boa e positiva.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: