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24/11/2015 19:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

COP21 é oportunidade para diminuir tensão entre países ricos e pobres, diz vice-presidente do IPCC

Reprodução/COPPE-UFRJ

Nem um imprevisto do porte dos ataques terroristas a Paris foi o suficiente para adiar a COP21.

As principais lideranças do mundo vão à capital francesa no dia 30 de novembro para a cúpula internacional sobre o clima, e as expectativas são altas.

Espera-se que, finalmente, os países participantes fechem um grande acordo para preencher o espaço deixado pelo Protocolo de Kyoto.

O Protocolo de Paris -- o maior acordo climático do mundo -- deve limitar o aquecimento global a um ponto minimamente administrável do ponto de vista ecológico, mas que, ao mesmo tempo, não seja impossível do ponto de vista econômico.

E de quanto, exatamente, é esse limite? Não podemos ultrapassar um aumento de 2ºC em relação ao período pré-industrial até o fim do século.

Essa é a orientação do último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), órgão da ONU responsável por sintetizar e divulgar a produção científica sobre mudanças climáticas a fim de orientar os países.

Se a temperatura da Terra subir mais de 2ºC, o cenário é dantesco: elevação drástica dos oceanos, secas prolongadas, fome, inundações e um planeta destruído. E estimativas dão conta que já estamos na metade do caminho: neste ano, chegamos a um aumento de cerca de 0,9ºC em relação à era pré-industrial.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Suzana Kahn, presidente do Comitê Científico do Painel Brasileiro de Mudança Climática, disse enxergar na COP21 uma oportunidade de paz em um momento de tensões elevadas.

Suzana, que foi vice-presidente do grupo de trabalho de gases estufa do IPCC até 2014, defendeu que o Protocolo de Paris preserve os países mais vulneráveis e criticou as metas do Brasil para a COP21. Leia, abaixo, a entrevista completa:

HuffPost Brasil: 2015 era o ano do Protocolo de Paris. Agora, com os atentados do Estado Islâmico, ele deve perder espaço na agenda?

Suzana Kahn: Eu não acho que a questão dos atentados tenha tirado isso da agenda da maneira que, em um primeiro momento, possa parecer.

Até o fato de que o COP21 seja em Paris, onde aconteceram os atentados, cria um movimento para a que todos não deixem de ir. Cria uma simbologia forte.

Mas independentemente dessa questão simbólica de se ter uma cúpula mundial nessa cidade, a própria situação climática vem a reforçar a necessidade desse acordo, até mesmo para reduzir essa tensão mundial.

Porque por conta do aquecimento global, e dos impactos do aumento da temperatura da Terra, vamos vivenciar um agravamento dessa tensão entre países ricos e pobres.

Não que isso seja determinante para evitar o fanatismo religioso, que é outra temática. Mas quando esses grupos fanáticos encontram parte dessa população descrente, cética em relação a seu futuro e vulnerável, é um terreno fértil para que sobretudo se ingresse nessa onda absurda do terrorismo.

O quanto mais pudermos cuidar para que o planeta tenha mais igualdade, e haja de fato o desenvolvimento de todos, isso só reduz a pressão por parte daqueles que estão mais frágeis e acabam se engajando nessas causas absurdas.

Tanto as coisas estão relacionadas que o IPCC acabou sendo laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Então é fundamental que o acordo seja feito de forma que os países mais vulneráveis não sejam prejudicados pelo aquecimento global.

Isso quer dizer que países mais pobres são mais vulneráveis aos problemas climáticos?

Alguns inclusive já estão sofrendo os danos fortemente. No continente africano, a região subsaariana não tem como lidar com a desertificação e falta de água.

Então você acaba tendo migrações muito grandes, do que chamamos de refugiados climáticos. Isso vai pressionar os países mais ricos também.

Então é fundamental que de fato consigamos obter um acordo para reduzir as tensões.

Qual sua avaliação sobre as metas de redução nas emissões do Brasil?

Você tem duas formas de olhar as INDCs [metas estabelecidas por cada país] brasileiras. Se você olhar de uma maneira relativa, acho que foi excelente porque foi o único país da sua região que apresentou uma meta absoluta, que abrange toda a economia, e isso sendo um país que já reduziu bastante o seu desmatamento.

Agora, se você analisar em termos absolutos, olhando somente para o Brasil, poderíamos estar indicando muito mais. A meta associada à insuficiente energética é pífia. Poderíamos no mínimo dobrar isso, sem prejudicar nosso desenvolvimento.

Outra questão é a própria redução do desmatamento ilegal. Colocamos metas somente para a Amazônia e deixamos de fora cerrado e outros biomas.

E dá muita insegurança, porque foram colocadas algumas metas mas não vemos ações políticas e econômicas que realmente apontem nessa direção.

Com a crise no Brasil, diminuição do orçamento das famílias, alta do dólar e desindustrialização, quais são as nossas perspectivas para energia renovável como os painéis fotovoltaicos?

A tecnologia já existe, mas acho que precisa realmente ter uma política direcionada para isso.

Atualmente até a eólica está tendo uma participação razoável, em pouco tempo passou de traço até 10%.

No caso da solar fotovoltaica, a grande oportunidade é através de geração distribuída porque aí você começa a ter vantagem em tetos de prédios, estacionamentos, shoppings... E aí você não precisa ter o custo de linhas de distribuição e nem do armazenamento, que é caro.

Em relação à crise: a conta residencial também aumentou muito de preço e já começa a compensar.

Mas deveria haver realmente fabricantes, que não temos aqui. Tudo é importado. Não temos fabricantes no Brasil, e fica caro. Se fosse haver estímulo do governo, deveria começar pelas fábricas.

Quais são as chances reais de evitarmos o aumento de 2ºC citado no relatório-síntese IPCC?

Acho que acaba ficando como uma direção. Um norte de tal forma que comecemos a nos organizar.

Isso porque, considerando todas as propostas, se todo mundo fizer o que prometeu, vamos ultrapassar os 2ºC no fim do século e chegar a 2,7ºC. E continuam a aumentar as emissões.

Se a tendência permanecer, atingimos antes da metade do século. Então acaba sendo um objetivo, uma direção, você fica tentando atingir no meio do caminho, consegue novas tecnologias, e aí começa a se levar um pouco mais a sério.

Mas da forma que está, o que tivermos de resultado não chega perto disso.

Nesse ano, observamos uma mudança de atitude da China, que só começou a prestar atenção no clima depois de enfrentar problemas internos de poluição. O Brasil também está sentindo na pele, mas não temos sinal de que isso será uma prioridade tão cedo. Por quê?

Há questões que pressionam os governos a tomar atitudes de curtíssimo prazo. Crise econômica, associada a isso tudo, faz com que os governantes não tomem nenhuma medida que não responda a questões imediatas. Então ficamos resolvendo problemas de agora sem pensar no amanhã.

Temos secas cada vez mais aprofundadas no Centro-Oeste e no Sudeste e, por outro lado, chuvas torrenciais no Sul. Esses fenômenos são relacionados ao aquecimento global?

É muito difícil fazer essa correlação direta. É provável, mas não dá para dizer estatisticamente que seja por conta do aumento de temperatura e gases de efeito estufa. Você precisaria de uma série histórica muito longa, que não temos. Mas que é provável que esses fenômenos cada vez mais recorrentes e aprofundados estejam associados ao aquecimento global, com certeza é.

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