COMPORTAMENTO
16/11/2015 21:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Quem é a 'boa moça' da música pop e como nos livramos dela?

Reprodução

A música pop tem um problema de "good girl" (conhecida no Brasil como a boa moça, a mulher pra casar). Na música "Hotline Bling", do Drake, ele canta, dirigindo-se à ex-namorada, sobre como ela "costumava ficar sempre em casa, ser uma boa moça". Ele está chateado por sua ex ter "começado a se vestir menos e sair mais". O ponto essencial é que Drake se sente ameaçado pela nova atitude da ex-namorada em relação a si mesma e à própria sexualidade. Ele sente ciúmes de que ela tenha encontrado novos amigos que não ele. E está usando esse conceito de uma "boa moça" para tachá-la de biscate por suas atitudes novas e insubordinadas, porque ele não as compreende. Quando tudo o que vejo, na verdade, é que sua ex se sentiu levemente reprimida enquanto estava com ele, que ela levou um pé na bunda, começou a se sentir levemente ressentida, e fez o que muitas mulheres fariam na mesma situação: colocar seu vestido mais ousado e começar a se divertir ao máximo, reconstruindo sua autoconfiança como a versão mais fabulosa de si mesma. Tahirah Hairston escreve na Fusion que, em vez de confessar sua própria aflição emocional diante da situação, Drake, "condescendente, opta por fazer slut-shaming com ela, e por ditar onde ela deve e não deve estar. A música passa uma impressão tão mesquinha que a gente esquece que ele está se sentindo magoado (ou talvez você seja mais perceptiva)." A boa moça é, essencialmente, um clichê usado para tentar colocar rédeas em uma mulher indisciplinada, ou em uma mulher que seja uma ameaça para a versão patriarcal de que comportamento é ou não aceitável para uma dama. É fazer mansplaining da etiqueta social feminina. E é algo infantilizador, ao insistir em chamar mulheres crescidas de "moças" (ou garotas ou meninas).

"Hotline Bling" não é a primeira ocasião em que Drake menciona explicitamente a boa moça em suas músicas. Em "Hold On, We're Going Home", Drake canta: “‘Cause you’re a good girl and you know it / You act so different around me” (Porque você é uma boa moça e sabe disso / Você age muito diferente quando está perto de mim") como um modo tanto de identificar quanto de salvar a mulher em questão. Em "Mine", da Beyoncé, ele canta: “Know you wanna roll with a good girl? / Do it big to it all for a good girl / One time, this is a song for the good girl” ("Sabe que você quer andar com uma boa moça / Mande bem em tudo por uma boa moça / Uma vez, essa é uma música para a boa moça "), sugerindo que o único tipo de mulher para cuja conquista vale a pena se esforçar ao máximo é uma "boa" mulher. Como Hairston observa, "seu conceito de amor é muito próximo do de propriedade".

Mas, assim como a "garota descolada" de Gillian Flynn em Garota Exemplar, a boa moça é simplesmente uma versão da feminilidade que não existe. É algo que caras como o Drake usam para depreciar mulheres quando se sentem emasculados pela sexualidade delas, ou rejeitados. É um conceito unidimensional, tão artificial quanto a própria Beyoncé, que é formulado por homens para ser projetado em mulheres que são ameaçadoras, de alguma forma insubordinadas, multidimensionais. A noção de "boa", no vocabulário de Drake, pede por uma sexualidade silenciada, e uma aderência a ideias anacrônicas de decoro feminino que até hoje lutamos para superar.

Beyoncé, na superfície, talvez pareça ser a "boa moça" quintessencial, em sua existência na música pop. Ela cumpre os requisitos: é sexy sem ser sexual. É uma mãe que tem uma lealdade cega ao seu homem, é sincera em suas opiniões, e de uma imagem pública sempre impecável. Porém, como já afirmei, isso tudo é superficial. Beyoncé trabalha muito duro para ser a versão mais irrepreensível de Beyoncé que consegue, mas, muito como no caso da "boa moça", é tudo ilusão. Beyoncé talvez pareça a Drake uma "boa moça" fantástica, mas uma boa moça não tem poder sobre como nós a percebemos, enquanto Beyoncé está totalmente no controle, sem se deixar tolher pela persona que outras pessoas tentem impingir a ela, homens muito menos, ou Drake. Daí vem o estado incorpóreo da boa moça.

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