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11/11/2015 12:50 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Como a moda pode conversar com outras culturas sem se apropriar delas?

ANDRE PENNER/ AP PHOTO

O dia das bruxas acaba de passar e, com ele, a temporada das guerras de apropriação cultural.

É fácil esquecer essas questões até outubro do ano que vem. Mas, na verdade, a apropriação cultural acontece o ano inteiro, especialmente no mundo da moda.

O ritmo frenético de inovação da indústria da moda sempre levou os estilistas a incorporar looks distintos de outras culturas para se manter renovados. Pense nas calças e túnicas de harém de Paul Poiret, na década de 1910, na “Coleção Africana” de Yves Saint-Laurent em 1967, ou nos sáris e jodhpurs estilizados de Hermes em 2007.

Mas a fronteira entre inspiração e apropriação é tênue, e é fácil cair no território do mau gosto, mesmo em 2015. Como a mais recente coleção “inspirada na África” de Valentino, em que, como notou o Fashionista, os modelos (em sua maioria brancos) tinham penteados de cornrow (um visual com tranças rentes à cabeça tipicamente usado por negros, aparentemente sem ironia. Ai.


Com pisadas na bola desse tipo, parece que a única opção segura é mandar os modelos para a passarela de jeans e tênis.

Mas talvez haja outra maneira de usar de forma respeitosa os designs de outras culturas, e Oskar Metsavaht, fundador e diretor criativo da Osklen, é um dos líderes desse movimento.

A coleção primavera 2016 da Osklen, exibida no mês passado em Nova York e São Paulo, foi inspirada pelos designs dos Asháninka, um povo que vive na floresta amazônica. Osklen pagou para adaptar as tatuagens e tecidos tradicionais dos Asháninka. Com o dinheiro, a tribo fez várias melhorias, incluindo a construção de uma escola.

Metsavaht também está envolvido na divulgação da luta dos Asháninka contra a exploração ilegal de madeira e a degradação da floresta. Um documentário de 18 minutos sobre a vida na comunidade Asháninka, dirigido por Metsavaht (que também é fotógrafo e músico), pode ser visto no site da Osklen. E a coleção é chamada Asháninka. Você pode comprar uma camiseta com o nome da tribo.

Um dos looks da coleção Asháninka, da Osklen, na Fashion Week de Nova York 2016


Essa completude parece notável, e de fato é, mas também faz todo o sentido quando se fala de Metsavaht, um dos primeiros estilistas do mundo a produzir moda sustentável. Foi no Brasil que os líderes mundiais se reuniram numa cúpula da ONU em 1992 para cunhar o termo “desenvolvimento sustentável”. Sua coleção de 2012, batizada de A21, foi inspirada pelos “sucessos e fracassos” da Agenda 21 daquela cúpula, como disse Metsavaht à VICE.

O processo cerebral de criação de Metsavaht pode ser desencadeado por uma viagem, uma ideia ou um conceito. Ele começou a carreira como médico, criou uma linha de roupas para esportes de inverno em 1990 e passou a se dedicar à moda de luxo em 2000.

Em 2012, a Osklen foi chamada de “primeira marca global de luxo” do Brasil pela revista Forbes, e Metsavaht foi nomeado um dos Embaixadores da Boa Vontade da Unesco. Ele também tem um estúdio de arte e é reponsável pelo Instituto E, uma organização sem fins lucraticos que incentiva o desenvolvimento sustentável por meio de projetos como a criação de tecidos que não agridem o meio ambiente.

Conversei com o polimata sobre suas opiniões únicas sobre intercâmbio cultural e sobre como criar uma eco-moda cool.


Você pode falar mais sobre a viagem em que conheceu os Asháninka? Quando foi? Onde você se hospedou – ficou com eles no vilarejo?

Estivemos lá em junho passado, durante o festival anual em que a tribo comemora a demarcação das terras indígenas, 23 anos atrás. Nossa equipe de nove pessoas ficou em cabanas sem paredes. Dormimos em redes ou em colchões infláveis.

Além do pagamento, quais são os outros elementos necessários para tomar emprestado de outras culturas sem ser insensível ou sem fazer apropriação cultural?

É muito importante respeitar as culturas dos povos e encontrar maneiras de reproduzi-las para o público levando em conta seu conhecimento tradicional. Por exemplo, o que estamos fazendo com os Asháninka é divulgar sua luta, disseminando as boas práticas deles em relação à preservação da floresta.

Que porcentagem do faturamento da coleção vai para os Asháninka?

Na realidade, a Osklen assinou um contrato com a tribo segundo o qual eles recebem um valor fixo estipulado pela tribo. Eles preferiram assim, pois podem planejar os investimentos que vão fazer com esses recursos.

Metsavaht, Nina Braga e crianças asháninka.


Como eles planejam usar o dinheiro?

Eles já usaram na construção de uma escola para os jovens do vilarejo e na compra de terras onde instalaram uma loja para vender produtos artesanais, como colares, braceletes, adereços de cabeça e roupas. A loja fica na maior cidade perto do vilarejo, chamada Cruzeiro do Sul, no oeste do Acre. Além disso, com outra parte dos royalties, os Asháninka construiram um espaço para as pessoas que frequentam o Centro Yorenka Atame, a Escolha para o Conhecimento das Florestas. Essa escola fica numa cidadezinha chamada Marechal Taumaturgo, que é de onde saem os barcos para chegar até as terras dos Asháninka. Nessa escola as populações indígenas de outras tribos e também não-indígenas fazem cursos para manejar a floresta de maneira sustentável.

Quanto você já doou?

Levando em conta que a taxa de câmbio entre o dólar e o real não está muito favorável, é algo como 50.000 dólares. Em reais, isso significa um alto poder de compra. Além disso, nosso contrato incluiu apoio para a viagem de dois líderes asháninka para a Conferência da ONU sobre Mudança Climática. Pagamos a viagem em dezembro passado para Lima, para participar da COP-20, e no mês que vem os levaremos a Paris, para COP-21.

Existem medidas simples que outros estilistas podem tomar para garantir que suas coleções tenham fontes sustentáveis?

A primeira coisa é checar as condições de produção, como o impacto ambiental e social do processo, o respeito às leis trabalhistas, a gestão dos recursos naturais etc. Depois, o estilista deveria considerar a oportunidade de rastrear todo o processo produtivo, com o objetivo de compartilhá-lo com seu público. Hoje, há muitas ferramentas para melhorar uma iniciativa dessas. Na Osklen, desenvolvemos projetos chamados “TRACES” e “Water TRACES”, em conjunto com o ministério do Ambiente da Itália. Rastreamos dez produtos da origem até a loja, e a informação é oferecida ao público em uma etiqueta com um código QR.

Como podemos fazer a moda sustentável ser “cool” para os outros estilistas?

Quando a ética está casada com a estética, é muito provável que a peça vai se tornar um objeto do desejo.

A entrevista foi editada e condensada.

Veja algumas das fotos dos Asháninka feitas por Metsavaht.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.