LGBT
06/11/2015 16:11 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

As duas caras da Tailândia: o lado mau da ‘capital gay da Ásia'

O país recebe os turistas LGBT de braços abertos, mas ainda não tem políticas para proteger direitos humanos básicos.

tailândia

Ativistas afirmam que a imagem da Tailândia de “capital gay da Ásia” não reflete as experiências vividas pela comunidade LGBT do país, que enfrenta discriminação e marginalização.

Esta é a décima e última parte de uma série de dez reportagens sobre os direitos da população LGBT do Sudeste Asiático, que revela os desafios da comunidade na região e destaca o trabalho corajoso dos ativistas.

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No Wat Kreung Tai Wittaya, um templo budista em Chiang Khong, Tailândia, adolescentes transgêneros aprendem a ser mais “masculinos”.

“Não conseguimos mudar todos eles, mas o que podemos fazer é controlar o comportamento para que eles entendam que nasceram homens ... e não podem agir como mulheres”, disse o diretor Phra Pitsanu Witcharato à agência France Presse, em 2011.

No templo, meninos entre 11 e 18 anos passam por treinamentos rigorosos para se livrar de sua “feminilidade” .

“As regras impedem que os aprendizes de monge usem pó, maquiagem ou perfume”, disse um adolescente trans. Os estudantes também não podem cantar, tocar instrumentos musicais ou correr.

templo wat kreung tai wittaya

Desde 2008 o templo Wat Kreung Tai Wittaya tem um curso para ensinar “masculinidade” aos adolescentes transgênero.

Cerca de 2,5% dos adolescentes LGBT da Tailândia, um país majoritariamente budista, são forçados a ser aprendizes de monge para se “curar”, segundo a Fundação de Direitos e Justiça para Orientação Sexual e Identidade de Gênero.

Alguns são forçados pela família a passar por tratamentos psicológicos. Outros são expulsos de casa.

A população LGBT é considerada uma “aberração da natureza” por muitos tailandeses, disse a ativista Naiyana Supapung ao Bangkok Post em 2013.

Para ilustrar seu argumento, ela lembrou de um livro escolar de seu filho que tinha “advertências específicas contra qualquer contato com pessoas que se comportem como membros do sexo oposto”. O livro recomenda que “os estudantes avisem o professor imediatamente para que o comportamento dessas crianças possa ser ajustado”, disse ela.

Mas, para a maioria dos que estão de fora, este é um lado raramente visto da Tailândia – um país às vezes chamado de “capital gay da Ásia”.

A Tailândia vem se vendendo como um destino turístico “cor-de-rosa”, um país que acolhe turistas gays em busca de bares de strip e concursos de beleza de mulheres transgênero (conhecidas no país como “kathoey” ou “meninos mulheres”).

A estratégia parece estar funcionando.

Todo ano, estrangeiros inundam os bares gays de Bancoc, e muitos procuram as clínicas do país para realizar cirurgias de confirmação de gênero.

Mas os ativistas dizem que essa é uma imagem superficial.

“Existe uma frase [segundo a qual] a sociedade tailandesa aceita não-oficialmente, mas rejeita oficialmente, os gays e lésbicas”, disse ao Phuket News em 2013 Anjana Suvarnananda, presidente do Anjaree, um grupo de defesa dos direitos LGBT.

“Acho que é verdade que os tailandeses só aceitem gays e lésbicas de forma superficial, como por exemplo a maneira como eles se vestem ou se comportam. Mas, quando falamos das questões realmente importantes, em geral existe um viés negativo.”

Um estudo recente realizado pela Fundação Khon Thai indica que mais de metade dos tailandeses entre 15 e 24 anos acredita que o “homossexualidade é errado”.

A população LGBT é vítima de marginalização e discriminação no país, segundo um relatório de 2014 do USAID/UNDP sobre o estado dos direitos LGBT na Tailândia. Leis de proteção ou afirmação dos direitos da comunidade são basicamente inexistentes.

“As pessoas LGBT na Tailândia [podem conseguir] levar suas vidas abertamente”, disse ao The Huffington Post Pramoj Na Ayutthaya, mas ela afirma que há poucas “garantias de dignidade”.

Em setembro, entrou em vigor a Lei de Igualdade de Gêneros, que proíbe especificamente a discriminação contra pessoas “de aparência diferente de seu sexo de nascimento”. É a primeira legislação no Sudeste Asiático que oferece proteção contra a discriminação motivada por expressão de gênero. Kyle Knight, pesquisador da Humans Right Watch, disse que a decisão é “um passo muito importante na proteção dos transgêneros”.

Os ativistas LGBT, entretanto, afirmam que a nova lei, apesar de positiva, é apenas um pequeno passo para o país.

O homossexualidade deixou de ser crime no país na década de 1950, mas ainda não existem leis ou políticas que protejam a população LGBT em relação à orientação sexual nem reconhecimento do casamento ou das uniões civis de pessoas do mesmo sexo.

“É uma contradição gritante”, disse Knight ao HuffPost, em agosto. “A Tailândia acolhe a população LGBT e é um centro global de cirurgias de mudança de sexo, mas o país ainda não tem políticas de proteção dos direitos humanos mais básicos.”

Essa falta de proteção gera inúmeros desafios para a comunidade LGBT do país, incluindo discriminação no trabalho e nas escolas, bem como acesso limitado ao sistema de saúde, segundo o relatório da USAID/UNDP.

O relatório, por exemplo, inclui a história de uma funcionária do governo tailandês cuja parceira quase morreu num acidente de moto – ela não pode tomar decisões médicas em nome da parceira. A funcionária, não-identificada, disse que o casal também não pôde acessar os benefícios trabalhistas disponíveis para casais heterossexuais, o que as deixou sobrecarregadas com pesadas contas médicas.

Depois do acidente, disse ela, “os médicos me informaram que apenas os parentes teriam o direito de autorizar todas as formas de assistência médica. O que eu poderia fazer? Sou apenas a parceira, inexistente aos olhos dos outros”, afirmou a funcionária pública, de acordo com o relatório.

Ela disse que teve de entrar em contato com a família da sua parceira, que mora em outra província, e teve de pagar as passagens para que os familiares pudessem chegar ao hospital rapidamente.

Depois, quando confrontada com a conta, a funcionária pública disse que estava impedida de usar os benefícios do Estado para ajudar a cobrir os custos.

“As regras do ministério das finanças negam esse benefício para casais do mesmo sexo”, foi o que lhe informaram.

concurso de transgênero internacional

A Tailândia realiza vários concursos de beleza transgênero locais e internacionais a cada ano.

A população LGBT também sofre discriminação em casa e nas escolas.

Um terço dos estudantes tailandeses que se identifica como LGBT sofreu abuso físico na escola, de acordo com um estudo de 2014 realizado pela Plan International, pela Unesco e pela Universidade Mahidol. Quase 25% dos 2 000 estudantes entrevistados disseram ter sido assediados sexualmente por causa de sua orientação sexual ou sua identidade de gênero.

Em comparação, cerca de 17% dos estudantes LGBT dos Estados Unidos relataram ter sido agredidos fisicamente na pesquisa de 2014 da Gay, Lesbian & Straight Education Network.

O estudo tailandês descobriu que os estudantes LGBT vítimas de bullying sofrem de ansiedade, baixa autoestima e isolamento social, e 7% deles disseram ter tentado o suicídio no ano passado, enquanto 23% disseram sofrer de depressão.

Falando ao Bangkok Post, a ativista Naiyana Supapung lembrou um caso de uma criança homossexual que tentou se matar bebendo inseticida depois ter sido “humilhada por um professor que o mandou parar de falar e se comportar como menina”.

O professora, disse ela, “ameaçou diminuir as notas do menino se ele não cumprisse [a ordem]” e lhe deu um tapa no rosto.

Em um estudo de 2012 realizado pela a Fundação de Direitos e Justiça para Orientação Sexual e Identidade de Gênero, cerca de 15% dos entrevistados disseram ter sido “verbalmente agredidos” por familiares por causa de sua orientação sexual ou por expressar seu gênero, e 13% disseram ter sido impedidos de viver com um parceiro do mesmo sexo.

Nikorn Chimkong, presidente do grupo de direitos LGBT Bangkok Rainbow, diz ao The Huffington Post que essa marginalização resulta de uma falta geral de “compreensão e conscientização” sobre as questões LGBT na Tailândia.

orgulho gay

Eventos do orgulho gay são realizados na Tailândia, um país que a lei oferece proteções limitadas para a comunidade LGBT.

Os ativistas têm expressado esperança de que a recente aprovação da Lei da Igualdade de Gênero seja um sinal de que a maré esteja começando a mudar na Tailândia.

“O progresso da [lei], e o impulso que ela criou, deve inspirar a Tailândia para assumir com orgulho a liderança na questão dos direitos da comunidade LGBT da região”, disse Knight no mês passado.

Ainda assim, dado o ambiente político instável do país, que viu o Exército tomar o poder em um golpe em 2014, os ativistas dizem que são céticos em relação ao futuro dos direitos da população LGBT no país.