NOTÍCIAS
05/11/2015 16:37 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Os verdadeiros donos do legado das Olimpíadas do Rio 2016

Dia 13 de outubro de 2015. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), foi ao Senado Federal, em Brasília (DF), para falar sobre os Jogos Olímpicos de 2016. Ao longo de quase 20 minutos de apresentação aos parlamentares, Paes mencionou a palavra "legado" uma dezena de vezes. “A gente usou muito a Olimpíada como uma ‘desculpa’ para os investimentos que a cidade demandava que acontecessem”, sentenciou.

Menos de 24 horas antes, distante do Senado, mais precisamente na Vila Autódromo, na zona sul do Rio, um churrasco comunitário realizado por moradores, com a participação de nomes da música como BNegão (ex-Planet Hemp), enfatizaram um discurso de resistência naquela localidade que pode ser classificada como pedra no sapato de Paes: “Nós não vamos sair!”.

Mas não estávamos falando de legado?

O prefeito do Rio exaltou aos colegas senadores, sem esconder o sorriso em diversos momentos, que o Comitê Olímpico Internacional (COI) preferiu a capital fluminense ante Madri (Espanha), Tóquio (Japão) e Chicago (EUA) não por uma questão de infraestrutura – “eles têm uma muito melhor do que a do Rio”. “Os motivos que levaram à escolha do Rio foram muito mais os nossos defeitos que as nossas qualidades (...) o que conquistou o voto do Comitê Olímpico Internacional foram os desafios”, cravou.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Gilmar Mascarenhas, atestou ao HuffPost Brasil que as Olimpíadas têm sido há décadas organizadas sob o discurso da transformação da cidade-sede. Mas é aqui que começam os problemas e o Rio, Cidade Maravilhosa, polo turístico conhecido e almejado em todo o mundo, se descola da cidade que vive há muito tempo uma verdadeira guerra urbana e social:

“O ideal do amadorismo que marcou a origem da Olimpíada foi sendo progressivamente deixado pra trás, marcando uma evolução do capitalismo no esporte. Para legitimar essa mudança, percebe-se que cada vez mais se fala da necessidade de os Jogos deixarem um legado. É a confluência da mercantilização do esporte e da mercantilização das cidades, com a emergência de modelos de gestão das cidades subordinados ao mercado e aos interesses privados.”

Sim, os recursos privados realmente entraram com força nas Olimpíadas de 2016. Segundo o prefeito, 57% dos R$ 38 bilhões do orçamento total do evento vêm do capital privado. Para Paes, é apenas um elemento do tripé que ele mesmo definiu como base — o legado, a economia de gastos e a reversibilidade das construções esportivas — para os Jogos. O foco é mesmo a população... Só não se especificou a renda e a classe social desta população.

vila

Comunidade da Vila Autódromo resiste, a 10 meses dos Jogos (Reprodução/Facebook)

Qual é o Rio que brasileiros e estrangeiros encontrarão em 2016? Em recente entrevista ao jornal O Dia, o antropólogo Luiz Eduardo Soares – que foi secretário nacional de Segurança no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – deu uma pista:

“Nós somos regidos sob o símbolo da Cidade Maravilhosa, das grandes belezas que temos, nossas virtudes, nossa alegria. Isso é vendido para o mundo porque o cartão-postal nos orgulha, e deixamos de encarar os desafios em nome do culto ao clichê. Mas aos poucos, desde junho de 2013 naquelas manifestações, a ilusão comum deixou de ser fetiche e passou a ser sentida pela periferia como um deboche diante de tanta tragédia.. Vamos falar sério, estamos diante de um desafio enorme para reduzir desigualdades, a brutalidade da polícia, a maneira pela qual o Estado se relaciona com as classes populares”.

Paes não falou aos senadores do churrasco de resistência da Vila Autódromo. Mas esse é só um capítulo de uma história bem mais profunda.

‘Limpeza urbana’

Em setembro deste ano, a Defensoria Pública do Estado do Rio conseguiu uma liminar na Justiça que impede policiais militares de apreender adolescentes que estejam a caminho das praias da zona sul, como Ipanema e Copacabana. Foram essas as praias que sediaram cenas de violência, com turistas e moradores sendo roubados à luz do dia. A culpa logo recaiu sobre aqueles que deixam áreas pobres da zona norte em busca de diversão.

As autoridades municipais e estaduais iniciaram queda de braço com a Justiça. O embate alimentou tensões que culminaram, dias depois, com um incidente no qual moradores da zona sul retiraram jovens à força de ônibus e promoveram cenas de selvageria, fazendo valer a máxima da justiça com as próprias mãos. Mais uma vez, as cenas desse episódio foram parar fora do Brasil.

violencia

Cartazes irônicos, como os da Copa de 2014, devem se repetir em 2016 (Reprodução/Facebook)

A polêmica da violência nas praias do Rio é um pequeno recorte de uma dramática realidade no Rio. São jovens negros e pobres que se tornam alvo da repressão do Estado. Mais que isso: há um processo de "limpeza social" às vésperas das Olimpíadas do Rio. A denúncia foi feita pela Organização das Nações Unidas (ONU), citando o “elevado número de execuções extrajudiciais de crianças”.

“Existe uma onda de limpeza ocorrendo, tendo em vista o evento e como forma de mostrar ao mundo uma cidade sem esses problemas”, disse a vice-presidente do Comitê para o Direito das Crianças da ONU, Renate Winter, ao jornal O Estado de S. Paulo. “Já vimos isso ocorrer de uma certa forma na Copa do Mundo em 2014 e agora estamos pedindo que seja corrigido para evitar que seja repetido”, emendou o presidente do Comitê, Benyam Mezmur.

Como revelou a ONU, políticas higienistas não são novidade no Rio ou no Brasil. Em entrevista ao HuffPost Brasil, a doutora em História Social da Universidade de São Paulo (USP), Maria Aparecida de Aquino, relembrou quando, na década de 60, o então governador do Estado da Guanabara Carlos Lacerda fomentou uma política conhecida como "Operação Mata-Mendigo". Foi na época em que a rainha britânica Elizabeth II esteve na cidade. O trágico período foi imortalizado no filme Topografia de um Desnudo (2009):

“Essas coisas acontecem há muito tempo e continuarão acontecendo. Cabe à população se mobilizar e cobrar as autoridades para que não se use um evento esportivo do porte das Olimpíadas para aumentar ainda mais o sofrimento que já existe de uma parcela importante da sociedade”, explicou a historiadora. “Não se pode acreditar que um evento, seja ele grande ou pequeno, irá mudar a realidade social.”

Tráfico e as UPPs

Quem transita de carro pelas Linhas Vermelhas ou Amarela no Rio nota que, em determinados trechos, enormes cercas impedem de se ver o que se encontra ao lado das pistas. Possivelmente essa tenha sido a forma mais barata de esconder as comunidades carentes – algumas delas abrigando o tráfico de drogas e suas facções. Nessas favelas vivem 1,4 milhão de pessoas – o que corresponde a um quinto da população da capital fluminense.

Mas as autoridades foram para escamotear o problema, conforme denunciou o historiador Fransérgio Goulart, do Fórum Social de Manguinhos e Fórum de Juventudes do Estado do Rio: qualquer busca pelo termo "favela" nos mapas do Google leva à omissão das comunidades. Apenas passeios e hostels são indicados pela ferramenta de buscas. Para quem não vive na favela, soa como medida de segurança. Para quem lá mora, é mais uma medida excludente.

Inclusiva era a política vendida no papel quando o assunto são as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Lançado em 2008, o programa hoje se encontra em um encruzilhada: dar o passo em direção a levar as políticas públicas essenciais – como saúde, educação, saneamento básico, entre outras – para dentro das favelas, ou manter um roteiro pré-UPPs, de confronto armado contra o tráfico? Por ora, a segunda opção é a preferida as autoridades.

“A gente fica preocupada com esse aumento no número de execuções extrajudiciais. É o que nos chama mais a atenção neste momento”, analisou a pedido do HuffPost Brasil a representante da Human Rights Watch (HRW) no Brasil, Maria Laura Canineu. Não é apenas uma impressão: os números mostram o alto grau de letalidade nesta verdadeira guerra civil travada entre o Estado e o crime organizado no Rio.

De acordo com relatório lançado em agosto deste ano pela Anistia Internacional, 8.466 pessoas foram mortas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro nos últimos dez anos. Dessas mortes, 99,5% envolviam homens, dos quais 79% eram negros e 75% tinham de 15 a 29 anos.

O caso mais simbólico dessa realidade foi o desaparecimento e morte do pedreiro Amarildo de Souza, em 2013, após ser abordado por PMs da UPP da Rocinha. Seu corpo nunca foi encontrado e os policias acusados aguardam julgamento – previsto para acontecer ainda em 2015. É aqui que a política de ‘limpeza urbana’ e as UPPs, principal medida de segurança contra o narcotráfico, se encontram O coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e (LAV-Uerj), Ignacio Cano, explicou ao HuffPost Brasil:

“A UPP era uma grande oportunidade de transformar a política de segurança e as polícias, e essa transformação foi parcial e está muito aquém do esperado (...). Acho que a UPP pecou também pela sua aplicação social e geográfica, que afetou, sobretudo, algumas áreas da cidade, que não foram as mais violentas.”

Um problema grave das UPPs é defender de aspectos econômicos dos locais — e não de indicadores de segurança, avalia Cano. “Acho que a primeira coisa [para melhorar as UPPs] é atuar no território em função dos níveis de violência locais, em não em função de um plano regional para liberar algumas áreas para um projeto de cidade que pretende transformar o Rio em um centro de negócios e de turismo”.

Barra da Tijuca olímpica e excludente

“Acho que Deus nos deu uma oportunidade de ouro.” Foi assim que definiu o engenheiro Carlos Carvalho, de 91 anos, em entrevista à BBC Brasil em agosto deste ano. Ele é conhecido no Rio como o dono da Barra, em referência ao bairro Barra da Tijuca, na zona norte da cidade, local que vive um boom imobiliário há anos e palco escolhido pelos organizadores do Rio para concentrar grande parte do Parque Olímpico dos Jogos de 2016.

Carvalho está dentro dos 57% dos investimento privados no evento. Além de deter de mais de 10 milhões de metros quadrados de terras na Barra da Tijuca, o engenheiro participa de um consórcio que está gastando mais de R$ 1 bilhão para erguer a Vila dos Atletas, que contará com 31 edifícios e um total de 3.604 apartamentos. Após as Olimpíadas, tudo será parte do condomínio Ilha Pura, mais um empreendimento de luxo no bairro.

Portanto, é previsível qual é o público-alvo do Ilha Pura. Se não ficou claro, o próprio Carvalho ajuda a explicar:

“Você não pode ficar morando num apartamento e convivendo com índio do lado, por exemplo. Nós não temos nada contra o índio, mas tem certas coisas que não dá. Você está fedendo. O que eu vou fazer? Vou ficar perto de você? Eu não, vou procurar outro lugar para ficar.”

Uma das áreas que integram o projeto bilionário ainda é ocupada por moradores carentes da Vila Autódromo. A região fica ao lado do Parque Olímpico Cidade do Rock, onde é realizado acada dois anos o festival Rock in Rio. Tapumes aparecem a cada edição do festival, e não é só para impedir que aqueles que não pagaram ingresso possam assistir aos shows de graça. Mais uma vez, o ‘dono da Barra’ esclarece.

“Não podemos baixar os padrões. Isso significaria tirar o que a cidade — a nova cidade — representaria no cenário global como uma cidade da elite, do bom gosto. Ilha Pura não pode estragar esse destino que foi dado para a região [da Barra da Tijuca]. Por isso é preciso de moradias para os nobres, e não para os pobres”, afirmou ao jornal britânico The Guardian.

autodromo

Situação da Vila Autódromo é uma 'pedra no sapato' de Eduardo Paes (Reprodução/Facebook)

O bairro com um dos metros quadrados mais caros do Rio foi projetado ainda no fim dos anos 60 pelo arquiteto Lúcio Costa — este também responsável pelo projeto urbano de Brasília. A ideia era tornar a Barra da Tijuca um novo centro para a capital fluminense, uma vez que o centro e a zona sul já apresentavam saturação.

As largas avenidas do projeto foram acompanhadas de um boom de empreendimentos imobiliários, notadamente de luxo. “A cidade modernista não tem espaço para os pobres. A Barra é o exemplo mais emblemático ou icônico de um desastre, de uma cidade modernista que é pior do que Brasília”, comentou ao site Rio Watch a diretora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), Clarisse Cunha Linke.

Das 27 obras do legado apontado pelo prefeito Eduardo Paes para a cidade, pelo menos seis envolvem uma preocupação direta com a Barra da Tijuca, dos quais quatro – BRT Transolímpica, BRT Transoeste, Duplicação do Elevado do Joá e Linha 4 do metrô – são voltadas à mobilidade urbana.

Salvo o metrô, que tem valores bilionários e financiamento público-privado, a obra mais cara é a do Elevado do Joá (R$ 457,9 milhões), a qual destacadamente visa desafogar o trânsito caótico de quem tenta ir e vir da Barra da Tijuca. Já os dois BRTs e o próprio metrô, ao que tudo indica, visam propiciar somente a circulação pelo bairro via transporte público. O dono da Barra explica:

“Nós dependemos muito do jardineiro, do pedreiro, e mantemos escolas para formação desse pessoal. Para botar tubulação de água e de luz há um custo alto, e quem mora paga. Como é que você vai botar o pobre ali? Ele tem que morar perto porque presta serviço e ganha dinheiro com quem pode, mas você só deve botar ali quem pode, senão você estraga tudo, joga o dinheiro fora.”

Remoções e política esportiva ausente

As autoridades do Rio vêm buscando nos últimos meses afastar a aura da Copa do Mundo de 2014 da organização das Olimpíadas de 2016. Em tempos de crise econômica no País, a dez meses dos Jogos, não pegou bem a notícia de que a Fifa ficou isenta de pagar R$ 1,1 bilhão em impostos durante o Mundial. Essa costuma ser uma prerrogativa de todos os países que sediam o evento. E é importante que a legislação aprovada para a Copa acaba beneficiando também o COI.

A revogação dessa lei é um dos pedidos feitos pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíadas no último dia 22 de setembro, quando foi lançado um relatório intitulado Dossiê Sobre as Violações do Direito ao Esporte e à Cidade: Cadê o legado esportivo da olímpiada do Rio de Janeiro?:

“O esporte é do povo, e não um negócio. Todos os projetos vinculados às Olimpíadas são impostos e implementados sem qualquer participação das comunidades afetadas e da sociedade em geral. Além disso, não há transparência sobre a dívida pública que está sendo contraída pela Prefeitura e dos seus impactos sobre as finanças do município para os próximos anos. É fundamental denunciar o atual projeto de cidade olímpica, promotor de desigualdades sociais e de violações de direitos humanos. Por um projeto de cidade fundado na justiça social e na participação democrática.”

Para o comitê, um tema central são as remoções que vêm sendo realizadas a reboque das obras que interessam ao poder privado. Pela sua localização próxima ao Parque Olímpico, a Vila Autódromo é a que causa maior incômodo às autoridades. Em mais de uma oportunidade, a Prefeitura do Rio fechou acordos com os moradores, prometendo remoções dentro da legalidade e dos direitos humanos. Contudo, não é o que denunciam os moradores:

Na Favela do Metrô, na zona norte da cidade, remoções também ocorrem — em uma delas, estudantes da Uerj, cujo campus fica ao lado da comunidade, tentaram apoiar um protesto dos moradores e foram reprimidos com violência pela polícia.

Em maio, moradores do Morro da Providência foram retirados pela polícia. A área fica próxima às obras de revitalização da zona portuária do Rio, talvez a "menina dos olhos" de Eduardo Paes. O prefeito, aliás, enfatiza que a população será a maior beneficiária dos equipamentos olímpicos que serão construídos. O discurso é semelhante ao dito por ele na época da inauguração do novo Maracanã, em abril de 2013:

“Eu já conheci vários estádios pelo mundo, e é impressionante no que se transformou o Maracanã. É mudança de estágio civilizatório mesmo. Pela 1ª vez eu acho que o torcedor vai ser tratado com respeito. Antes era uma aventura: você não sabia onde sentaria, muita gente acabava fazendo xixi nas colunas. Hoje não, você tem uma sinalização, com espaços qualificados, é um ganho enorme para a cidade. Esse é um legado importante para a cidade do Rio de Janeiro.”

Para o prefeito do Rio, ficou para trás a “nostalgia do cheiro de urina, da bagunça, da desordem” do velho Maracanã. Entretanto, o estádio foi privatizado e os ingressos populares, que permitiam que a população carente se sentisse incluída, foram abolidos. Política higienista? Para o Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, não resta a menor dúvida disso:

“Exigimos o fim da privatização do Maracanã e a garantia do uso popular do estádio. Para isso, defendemos a implementação de uma nova forma de gestão, baseada em controle social com a participação direta de todos os usuários dos equipamentos instalados no seu entorno (entre os quais, destacam-se a Escola Friedenreich, o estádio de atletismo Célio de Barros, o parque aquático Júlio Delamare, a Aldeia Maracanã, os torcedores, a Uerj, entre outros)”.

Meio ambiente relegado

Talvez a única medida vista com ansiedade e esperança por todas as classes sociais do Rio era a promessa de despoluição da Baía de Guanabara, da Lagoa Rodrigo de Freitas e do complexo lagunar de Jacarepaguá. Entretanto, o projeto orçado em R$ 929 milhões e que previa tratar 80% do esgoto despejado diariamente na Baía de Guanabara, segundo o governo do Estado do Rio, naufragou e não sairá do papel.

"A Cedae (Companhia de Água e Esgotos do Estado) estava quebrada, quando a gente [PMDB] chegou ao governo [do Rio, em 2006]. Dava um prejuízo mensal de R$ 30 milhões. Tivemos de sanear a empresa, isso levou tempo", justificou o governador Luiz Fernando Pezão, em entrevista ao Terra.

Agora, o que sobrou do projeto vai gastar R$ 43,23 milhões, voltados para instalação de ecobarreiras (dispositivos flutuantes colocados nos rios e canais para controlar o lixo flutuante) e ecobarcos (para coletar o lixo que interfere na prática esportiva). Um estudo da agência Associated Press já apontou a grave situação das águas olímpicas. Em eventos-testes, atletas de outros países ficaram doentes e colocaram a culpa na água palco das competições.

O problema vem sendo sistematicamente minimizado pelas autoridades, do mesmo modo que no caso do campo de golfe que será utilizado pelos atletas nas Olimpíadas. Mesmo tendo pelo menos dois campos com estrutura para receber a competição, a organização decidiu gastar R$ 60 milhões em um novo campo.

O problema é que a obra ocorre desde 2013 na Reserva de Marapendi, a 9 km da Vila Olímpica. A área é de preservação ambiental e o Ministério Público chegou a questionar os trabalhos em duas ações.

A Prefeitura do Rio argumentou que o campo de golfe não afeta o meio ambiente e utiliza apenas 3,5% do total da área da reserva. Segundo ativistas, a obra só avançou graças ao interesse do poder privado. O campo de golfe tem como público-alvo, de acordo com os responsáveis pela obra, os moradores dos condomínios da Barra da Tijuca.

Situação excludente e que desmonta a existência de uma suposta 'política esportiva' para o pós-Jogos vale também para a Marina da Glória, no Parque do Flamengo:

Um legado de violações - Marina da Glória

* 3° EPISÓDIO l Um legado de violações - Marina da Glória*produção do Comitê Popular Rio Copa e OlimpíadasA poluição não é o único problema para a realização dos esportes olímpicos na Baía de Guanabara. O terceiro vídeo da série "Rio 2016: Um Legado de Violações" fala sobre a Marina da Glória, lugar turístico localizado no Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro. O espaço foi privatizado e, com isso, o uso público é cada vez mais restringido, seja para o lazer ou para a prática de esportes náuticos. Veja no vídeo a denúncia de atletas, barqueiros e demais usuários do espaço que estão organizados no movimento “Ocupa Marina”. Confira também o Dossiê das Violações do Direito ao Esporte e à Cidade, disponível aqui: http://bit.ly/1L4uY2r

Posted by Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas on Quinta, 15 de outubro de 2015


Sim, como podemos ver, o Rio terá uma série de legados, como preza Eduardo Paes e demais autoridades. “É uma pena não podermos fazer Olimpíadas a cada dois anos, para o bem da cidade e da população, principalmente em relação aos legados proporcionados pelos Jogos”, afirmou o prefeito em abril de 2014. As palavras de Paes contrastam com relatório sobre o legado de outro evento esportivo, os Jogos Pan-Americanos de 2007, também realizados no Rio.

“O Pan de 2007 foi o mais caro de toda a história da competição, inclusive comparando com o posterior, realizado em 2011 na cidade de Guadalajara (México). Sem entrar no mérito dos impactos econômicos e sociais, qual foi o legado esportivo deixado pelo Pan de 2007? Somente em 2013, três equipamentos construídos para abrigar este evento deixaram de estar acessíveis aos atletas e à população. Foram fechados o Parque Aquático Maria Lenk (obras) e o Estádio Olímpico João Havelange (obras), e o Velódromo Municipal foi destruído (não servia para as Olimpíadas)”.

Para a historiadora Maria Aparecida de Aquino, o Brasil ainda não aprendeu a sua lição no que diz respeito a sediar grandes eventos e beneficiar a grande parcela da sua população.

“O Brasil precisa pensar em mudanças sim, mas não com foco no evento A ou B. É preciso pensar em medidas que efetivamente sejam incorporadas pela população, para o melhor. Políticos tendem a buscar o interesse eleitoreiro, o que demanda ainda mais atenção popular e da imprensa, que precisa denunciar. Temos que ser vigilantes para que esses eventos tragam consequências efetivamente positivas, que tragam um embelezamento não só de fachada, mas social”, concluiu.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: