NOTÍCIAS
12/10/2015 00:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Ulysses Guimarães não aprovaria o PMDB de Cunha e Renan, dizem fundadores do partido

Montagem/Estadão Conteúdo


OPartido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) espera cumprir em três anos, nas próximos eleições presidenciais, aquilo que almeja desde o início da sua história de 49 anos: alcançar a Presidência da República. Caso estivesse vivo, tal cenário faria Ulysses Guimarães sorrir, certo? Não tão rápido.

Os que pregam a cautela quanto a essa afirmação são membros fundadores do PMDB, que acompanharam o grande líder do então MDB, ainda nos anos 60, até a sua trágica morte, em um acidente de helicóptero, em 12 de outubro de 1992, em Angra dos Reis (RJ). Não foi só a política brasileira que perdeu uma referência: o partido também.

“O grande MDB, e depois PMDB, escreveu uma página muito bonita na história do Brasil, combatendo a ditadura e levando a população às ruas na luta pelas Diretas Já”, relembrou, com uma dose de saudosismo, o ex-senador Pedro Simon (RS), em entrevista ao Brasil Post. Aos 85 anos, ele viveu quase toda a sua vida política no PMDB – salvo o início no PTB, em 1958 – e se despediu da política no ano passado, com direito a um discurso emocionante no Senado.

Para Simon, a eleição de Tancredo Neves, o primeiro presidente civil da redemocratização, em 1985, deveria ter sido o ápice da luta peemedebista e, por consequência, de todos aqueles que combateram a ditadura militar. A trágica morte do avô do hoje senador Aécio Neves (PSDB-MG), porém, foi um golpe do qual o partido nunca se recuperou, de acordo com o ex-senador gaúcho.

“O PMDB se entregou e nunca mais foi o mesmo. O José Sarney (então vice de Tancredo) era presidente da Arena (partido de sustentação dos militares na ditadura), não era do nosso partido. Tivemos as mortes de outras lideranças depois, e podemos ver que ainda hoje sentimos falta de líderes não só no PMDB, mas em todos os partidos”, analisou Simon.

Ex-ministro em duas ocasiões e com mandatos como prefeito, governador e senador, Iris Rezende relembrou uma passagem em que, segundo suas memórias, Ulysses Guimarães lhe telefonou para realizar uma manifestação pelas Diretas Já em Goiânia (GO). Milhares de pessoas foram para a rua pedir por democracia, caminhando ao lado daqueles integrantes do que era “a instituição partidária que visava defender os anseios do povo”.

“Éramos sete governadores de oposição e o doutor Ulysses me ligou, perguntando se eu poderia realizar a primeira manifestação pelas Diretas. Quase meio milhão de pessoas foram à Praça Cívica aqui em Goiânia. Depois, se aproximando a eleição (de 1985), ele me liga de novo: ‘Iris, você pode fazer a primeira manifestação a favor da nossa candidatura?’. Aí foram 700 mil. Tive esse privilégio de realizar esses pedidos dele (Ulysses)”, contou ao Brasil Post.


pmdb 85

Sarney, Tancredo e Ulysses, durante o anúncio ministerial, dias antes da morte do presidente (André Dusek/Estadão Conteúdo)

Ambos questionados sobre o que Ulysses (dono de 11 mandatos consecutivos como deputado federal por São Paulo) diria acerca do PMDB de 2015, que hoje se vê conduzido majoritariamente por três nomes – o vice-presidente da República, Michel Temer, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), e o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL) –, eles foram taxativos:

“Sabemos que o PMDB não tem coincidido com aquele desempenho para que o partido continue na alma e no coração do povo. A população tem sido surpreendida pela ação de muitos políticos. Há um desgaste, é preciso voltar a defender os interesses do povo, e não de um grupo”, analisou Rezende. “Se estivesse vivo, o doutor Ulysses tomaria as mesmas posições do passado, lutando para mudar os destinos do País”, emendou.

Simon vai pelo mesmo caminho, pregando a união várias vezes evocada por Ulysses para tirar o Brasil da atual situação de crise, tanto política quanto econômica. “Não se pode pensar em eleições neste momento. Nem o PMDB pode. O Brasil está tão desestruturado, com uma crise de credibilidade profunda que deveríamos nos reunir, todos em uma mesa, e fazermos um plano que salve o País”, opinou.

Vácuo político e Eduardo Cunha

Ulysses Guimarães nunca conseguiu concretizar o seu desejo final, que era ser presidente da República. Chegou a tentar, mas em 1989 recebeu apenas 4,4% dos votos. Naquela época, ele comandava o PMDB há duas décadas e, como hoje, despertava disputas dentro e fora do partido. Dentro dele, viu dissidentes saírem para fundar o PSDB e perdeu o comando da legenda para Orestes Quércia, em 1990.

“Eu os abraço com a consagradora definição: Democracia é o convívio de contrários”, gostava de dizer Ulysses, um costumaz frasista de mão cheia. “Não se pode fazer política com o fígado, conservando o rancor e ressentimentos na geladeira. A Pátria não é capanga de idiossincrasias pessoais. É indecoroso fazer política uterina, em benefício de filhos, irmãos e cunhados. O bom político costuma ser mau parente”, sempre ponderava.

A morte dele criou um vácuo político dentro do PMDB, que não lança um candidato à Presidência da República desde 1994. E, como já bem dizia o historiador francês Fernand Braudel, o vácuo no mundo político – o que ele chama de “zona ciclônica” – pode levar a conflitos, dando espaço para regimes conservadores e, às vezes, totalitários.

Tal vácuo político mantém o PT da presidente Dilma Rousseff em maus lençóis, mas permitiu a um nome até poucos anos bastante obscuro como Eduardo Cunha ascender dentro do PMDB, despontando no presente como protagonista na política nacional, e um possível nome a se lançar como cabeça de chapa em uma eventual candidatura peemedebista em 2018.

“Olha, o mundo político é complicado. Se lá no passado, há mais de 2 mil anos, Jesus inspirado pelo Espírito Santo escolheu dois discípulos e um deles se tornou um traidor, não dá para dizer que em um partido não se pode ter uma ‘ovelha negra’. Essas anomalias, essas extravagâncias, vêm de pessoas que tentam utilizar o partido em benefício próprio”, afirmou Iris Rezende quando questionado sobre como analisaria a figura de Cunha.

Pedro Simon também não acredita que Cunha e seus aliados internos representem a essência do PMDB do passado. Pelo contrário. “Estive 32 anos no Congresso e lá havia a tradição da pauta ser feita pelo presidente da República. Era tudo feito segundo a vontade dele. O Cunha foi o primeiro da história a quebrar isso, teve autoridade para fazer. Mas eu disse a ele para aproveitar isso e fazer uma reforma política, ouvindo a sociedade. Ele não o fez, perdeu a chance de sair fortalecido para fazer a reforma dele”, criticou o ex-senador.

Impeachment e fim da crise

“Se a presidente Dilma tivesse 10% de grandeza, ela chamaria todo mundo e faria um pacto, buscando uma grande saída ética, moral e pacífica da crise”. É assim que Pedro Simon vê o cenário otimista em relação ao presente do Brasil. A inspiração vem de 1993, quando o então vice-presidente da República, Itamar Franco, chamou todos os líderes partidários para uma conversa. O País havia passado há pouco por um traumático processo de impeachment.

“O Itamar chamou todos e disse: ‘não tenho legitimidade popular, quem tinha voto era o Fernando Collor’, que o Congresso tinha acabado de cassar. Ele queria a garantia dos parlamentares, dos partidos, para governar. Todos os grandes estavam lá, o Brizola, o Lula, o Fernando Henrique. Ele estimulou o pacto, pediu para que ninguém rompesse com ele antes de ir até ele para conversar. Depois veio o Plano Real e o Brasil foi salvo. Poderia ser feito algo hoje nesse sentido”.

Entre viagens e momentos com a família, o ex-senador também fala sobre política e mantém contato com amigos que fez em mais de meio século de vida pública. Simon acredita que parte do problema político do Brasil é antigo. Ao contrário de países vizinhos, como Argentina e Uruguai, não existem aqui partidos centenários, com conteúdo ideológico profundo.

“Depois da Constituição de 1946, os partidos eram feitos na base dos amigos do (então ex-presidente) Getúlio (Vargas). O inimigo era a UDN, só. Mas já havia gente progressista e reacionária em todos eles”, comentou, enfatizando assim o tamanho da necessidade que o País ainda vive no que diz respeito a uma profunda reforma política. “Temos hoje um aglomerado de pouco mais de 30 partidos sem consistência alguma”.

Assim como Simon, o ex-governador goiano Iris Rezende também não é um entusiasta pela tese do impeachment de Dilma. De acordo com ele, é um erro acreditar que o cenário de profunda crise, com escândalos de corrupção, repouse exclusivamente nos ombros do governo federal e do PT. Ele é sim a conclusão de atitudes que passam por toda a administração pública nacional.

“Jamais imaginei que viveríamos um momento como o atual. Esse juiz do Paraná (Sérgio Moro) está tendo coragem para tomar uma atitude, fazendo cumprir a lei quando a ética foge e deixa de ser o sentimento ditante das condutas públicas. Chegamos a uma situação deprimente e o mundo político tem que se reposicionar. Todos com cargos públicos precisam reconhecer que erraram, ter a humildade de mudar de postura. Se isso não ocorrer, como o povo reagirá?”, perguntou.

Mesmo não estando presente, Ulysses poderia usar algumas passagens do passado para aconselhar a classe política. “Quando se tira o voto ao povo, o povo é expelido do centro para a periferia da história, perde o pão e a liberdade, o protesto passa a ser agitação e a greve rotulada de subversão”, disse ele certa vez.

E poderia emendar com mais essa: “A grande força da democracia é confessar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes”. Fica a sugestão aos atuais detentores do poder no Brasil.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:


LEIA TAMBÉM

- ASSISTA: Temer nega querer cargo de Dilma, mas não descarta ser candidato em 2018

- Fundador do PMDB vê 'saída de Cunha antes da de Dilma'

- "Vivemos a ‘revolta dos bagrinhos' com esse falso protagonismo do Congresso"

- ASSISTA: "Cunha está preparando o terreno para assumir a presidência", diz petista

O Brasil elegeu estas 'peças' em 2014