MULHERES
05/10/2015 16:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02

Mais provas de que antidepressivos são muito necessários, não uma ameaça para grávidas

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Uma série de três estudos publicados em 16 de setembro traz esclarecimentos adicionais sobre a segurança dos antidepressivos usados durante a gravidez: embora possa haver alguns riscos um pouco mais elevados, os medicamentos são seguros e um tratamento importante para mulheres com depressão moderada ou severa.

As estimativas de taxas de depressão durante a gravidez variam entre 5,5% a 33,1% — a ampla variação indica que são necessários mais estudos a respeito.

Mais de 400 mil bebês nascem anualmente de mães que sofrem de depressão nos Estados Unidos, de acordo com a Academia Americana de Pediatria, e sabemos que a depressão sem tratamento durante a gravidez é arriscada tanto para a mãe quanto para o bebê: o suicídio é a principal causa de mortes de mães em países desenvolvidos, e a depressão sem tratamento durante a gravidez é relacionada à pré-eclâmpsia, parto prematuro, baixo peso de recém-nascidos e outras complicações para o bebê.

Mas os medos sobre os efeitos que os antidepressivos causam nos fetos em desenvolvimento fazem com que muitas mulheres evitem usar esse tratamento mental tão necessário durante a gravidez.

Pesquisas estimam que apenas metade das grávidas que sofrem de depressão tomam antidepressivos.

O receio sobre o uso de antidepressivos durante a gravidez é baseado na falta de estudos clínicos que avaliem de uma vez por todas se esses medicamentos são prejudiciais ou não.

E, embora experimentos controlados aleatórios seriam antiéticos e, portanto, difíceis de serem encontrados, existem maneiras de decifrar os riscos que os antidepressivos ou a depressão não tratada representariam à mãe e à criança.

Três estudos recentes com grandes grupos de mulheres da Noruega, Dinamarca e Austrália ajudam a entender os riscos do tipo mais comum de antidepressivo receitado: os inibidores seletivos de recaptação de serotonina, ou ISRSs.

Os pesquisadores descobriram que o uso de ISRS durante a gravidez traz alguns pequenos riscos, mas concluíram que não são significativos o suficiente para indicar que as mulheres devem parar de tomar o medicamento.

Mais significativamente, o terceiro estudo revelou que mulheres depressivas que não tomam ISRSs apresentam maior risco de conceber crianças com vários problemas comportamentais, incluindo hiperatividade, déficit de atenção e dificuldade de relacionamento com os coleguinhas.

Isso poderia indicar que a doença psiquiátrica de uma mãe pode representar um risco maior do que o uso de ISRSs para os problemas comportamentais das crianças.

Deborah Kim, psiquiatra perinatal e pesquisadora da Escola de Medicina de Perelman, da Universidade da Pensilvânia, não participou dos estudos, mas concorda com os resultados sobre o que já sabemos a respeito de antidepressivos usados durante a gravidez: oferecem leves riscos, mas também podem ajudar a mãe e o bebê a evitar as consequências negativas relacionadas à doença mental não tratada.

Saiba mais detalhes sobre os três estudos, que foram publicados juntos na revista científica BJOG: An International Journal of Obstetrics and Gynaecology:

Um moderado atraso da coordenação motora

Os pesquisadores analisaram mais de 51 mil gestantes que participaram do grupo de estudo Mãe e Criança Norueguesa, incluindo relatos sobre o uso de ISRS por seis meses antes do parto e durante a gravidez.

Depois, quando as crianças completaram 3 anos, os pesquisadores pediram que as mães avaliassem o desenvolvimento motor fino e grosso dos filhos — habilidades como a coordenação das mãos e dos olhos, ou ao engatinhar, andar e correr.

Constataram que 159 mulheres que relataram o uso prolongado de ISRS durante a gravidez, ou aproximadamente mais de dois trimestres, tiveram crianças com 42% de chances de um leve atraso na coordenação motora fina, mas essa correlação era baixa, e os atrasos, em sua maioria, moderados.

Em outras palavras, as crianças que foram expostas aos ISRSs no útero ficaram, em sua maioria, na categoria de “segundo melhores”, não entre os “melhores” — uma diferença sutil que não seria diagnosticável por um médico.

Marte Handal, pesquisadora-chefe do Instituto Norueguês de Saúde Pública:

A mensagem que as grávidas no começo da gestação devem levar para casa é que devem usar os ISRSs para depressão sem ficarem muito preocupadas sobre o desenvolvimento motor dos filhos, caso a opinião do médico seja a de que o tratamento é necessário para tratar o quadro depressivo.

Um risco um pouco mais alto de hemorragia pós-parto

Um estudo australiano com 30 mil mulheres avaliou 558 que usaram ISRSs durante os estágios avançados da gravidez e 1.292 grávidas com problemas psiquiátricos que não tomaram antidepressivos.

Os especialistas concluíram que, enquanto mulheres saudáveis e aquelas com depressão não tratada tiveram um risco de hemorragia pós-parto de 11%, mães que usaram ISRSs durante a gravides apresentaram um risco de 16%, bem como maior probabilidade de anemia pós-parto, uma deficiência de ferro.

É um risco significativo, dizem os pesquisadores, e está em linha com estudos passados conduzidos nos Estados Unidos e na Suécia que constataram um aumento do risco de hemorragia pós-parto semelhante.

Já é sabido que os ISRSs interferem na agregação de plaquetas, fazendo com que pessoas que tomam o medicamento sangrem mais do que outras.

Kim, da Universidade da Pensilvânia, destacou que a redução gradual de antidepressivos antes do parto (para mitigar a hemorragia pós-parto) aumenta o risco de depressão pós-parto.

Nesse sentido, o moderado risco de hemorragia pós-parto não é suficiente para justificar a suspensão de ISRSs em mães depressivas.

Por esse motivo, o estudo recomenda que os obstetras saibam antes do parto se suas pacientes estão usando ISRSs, para deste modo tratá-las adequadamente.

Luke Grzeskowiak, pesquisador-chefe da Universidade de Adelaide, Austrália:

Pesquisas recentes não recomendam a suspensão do uso de antidepressivos pouco antes do nascimento do bebê, já que o potencial aumento do risco de hemorragia associado ao parto é melhor gerenciado num ambiente hospitalar apropriado, onde há médicos disponíveis para prestar assistência, caso necessário. Os médicos precisam ser informados sobre o uso de antidepressivos, e esse fator será apenas um dos muitos que serão considerados na assistência durante e após o parto.

Problemas comportamentais em crianças de mães não medicadas

Um estudo com 49 mil mulheres no Grupo de Nascimento Nacional Dinamarquês revelou que não foi constatado um aumento do risco de problemas comportamentais em crianças de 7 anos nascidas de mães que usaram ISRSs durante a gravidez, como foi o caso de 221 mulheres que participaram da pesquisa.

Também não houve elevação do risco de hiperatividade/déficit de atenção ou problemas com os colegas.

No entanto, crianças nascidas de mães depressivas que não tomaram medicamentos durante a gravidez — caso de 231 das mulheres — apresentaram riscos maiores de desenvolver esses problemas comportamentais, assim como sintomas emocionais e de conduta.

Grzeskowiak sobre sua pesquisa:

Considerando todos os resultados estudados, uma proporção maior de problemas comportamentais foi identificada em crianças nascidas de mães que não tomaram antidepressivos, destacando que a doença materna é provavelmente um fator-chave na influência imediata e resultados de longo prazo.

O que as mães devem fazer?

Ruta Nonacs, psiquiatra do Centro de Saúde Mental para Mulheres do Massachusetts General Hospital, disse que, em suas consultas, faz uma avaliação individualizada do risco-benefício para cada paciente, pesando tanto o risco de não tratar a depressão quanto os riscos associados aos ISRSs.

Kim, da Universidade da Pensilvânia, faz o mesmo, e observa que, quando explica sobre a segurança dos ISRSs para mães que sofrem de depressão, suas pacientes frequentemente se sentem extremamente aliviadas ao saber que poderão continuar o tratamento.

“Geralmente, quando são informadas sobre o baixo risco de usar antidepressivos durante a gravidez, começam a chorar”, disse Kim.

“Quando pergunto por que estão chorando, dizem que se sentem aliviadas, porque dez meses são realmente um período muito longo para sofrer de depressão."

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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