Comportamento

Por que ir à igreja era uma experiência dolorosa para esta adolescente introvertida

Em 1967, quando eu era uma criança tranquila nos subúrbios de Denver, não me importava em passar uma hora por semana na igreja. Era uma oportunidade de vestir minhas melhores roupas – lembro de ficar empolgada no domingo de Páscoa por poder usar meus sapatos de couro branco – e depois sair pela cidade no banco de trás da perua da família, um Ford Country Squire com bancos de vinil azul.

Esses anos felizes foram lentamente dando lugar a uma consciência de menina crescida sobre como as coisas funcionam no mundo católico: as freiras vestem sacos pretos e sentam ali; os padres vestem mantos coloridos e estão no comando de tudo; as meninas usam véus de renda na primeira comunhão; só os meninos podem ser coroinhas e ajudar na missa. E todo mundo tem de cantar.

Foi quando aprendi a dublar.

Mas havia um estresse a mais na igreja, algo que, quando eu tinha mais ou menos 12 anos, tornou-se inevitável: o momento em que o padre pedia que os fieis trocasse um “sinal de paz” com o vizinho. O procedimento padrão consistia de algumas poucas palavras, acompanhadas de um aperto de mão caloroso.

Quando começava a tocar a música, porém, você podia se pegar abraçando um desconhecido. Eu era grande demais para esconder o rosto nas roupas da minha mãe. Se sentisse uma necessidade urgente de amarrar os sapatos, as pessoas esperavam educadamente até eu terminar. Não conseguia evitar a obrigação de apertar a mão dos estranhos ao meu redor, levantar meu olhar até os dentes deles e murmurar: “A paz esteja convosco”.

Entendo: é parte da vida adulta aprender a olhar outro ser humano nos olhos e dizer olá. Até hoje, ao 50 anos, às vezes preciso de meses de contato regular com uma pessoa até me sentir à vontade o suficiente para soltar um simples e sincero “Como vai?”. Algo tão pessoal e profundo como “a paz esteja convosco”, acompanhado por um aperto de mãos ou, Deus me livre, um abraço... Não gosto nem de pensar.

O problema para mim é me sentir vista pela outra pessoa, em vez de ser tratada como um móvel de que ela está educadamente se desviando no caminho da saída. No que diz respeito aos cumprimentos, os melhores acontecem quanto cada um de nós coloca algo muito pessoal – em troca, recebemos um momento de reconhecimento genuíno.

Acho que acabo de descrever como dois cachorros se conhecem no parque.

Aprendi a fingir bem, como a maioria dos introvertidos. É mais fácil quando você sabe o que está para acontecer, e missas são muito previsíveis: há tempo de sobra para respirar fundo e visualizar as palmas das mãos secas. Mas, para mim – uma adolescente introvertida e acostumada a dublar --, a igreja era um lugar que começava a me encher de terror.

Além da intimidade e do canto forçados, ela me afastava dos livros e da bola, que eu chutava sozinha no quintal de casa. Em vez de desenvolver a coragem que eu usaria mais tarde para sorrir e fechar a porta lentamente na cara dos vendedores de assinatura de revista, comecei a procurar qualquer desculpa (dor de estômago era uma das preferidas) para não ir à igreja.

Minha mãe era ainda mais introvertida que eu, mas não tão desesperada a ponto de ficar em casa jogando bola sozinha. Ela conseguia navegar as situações sociais se postando atrás do tagarela do meu pai, dormindo de olhos abertos. Quando comecei a implorar para não ir à igreja, ela não entendia por que eu estava sendo tão covarde nem tinha argumentos para discutir por que a feminista que brotava em mim se sentia pouco à vontade em relação à religião.

Meu pai, por sua vez, simplesmente não entendia qual era o problema – e eu não conseguia explicar nada enquanto ele gritava “Qual é o problema?”. Sua resposta final para meu comportamento – que ele entendia como falta de fé ou simplesmente preguiça – era me intimidar ainda mais e me colocar no curso de crisma.

Se você não está por dentro dessas coisas, os sete sacramentos da Igreja Católica são: batismo, comunhão, confissão, crisma, sagrado matrimônio, ordenação (se você quiser ser padre) e extrema unção. A cerimônia da crisma representa a confirmação de que você é um integrante pleno e comprometido com a igreja. É meio importante.

Minha igreja tinha duas turmas de crisma para crianças da minha idade. A turma que entrava mais cedo estava cheia de adolescentes loucos para ir à igreja logo depois da escola, futuros fieis que gostavam de escrever fichas para estudar os pecados mortais. E então havia a minha turma, o pessoal que não queria ir para a igreja antes de assistir o episódio mais recente de A Ilha dos Birutas, tomar um refrigerante e comer um pacote de salgadinho.

Depois de seis semanas de aulas, na véspera da cerimônia de crisma, nos encontramos na igreja para ensaiar e nos confessar. Seria a minha primeira confissão, e não fazia ideia do que dizer. Peguei um biscoito amanhecido e fui me sentar na última fileira. As crianças estavam enfileiradas junto à parede, esperando para entrar na... câmara de confissão? gabinete? E falar anonimamente com o padre.

Mas para dizer o quê? A confissão parecia reservada para coisas importantes, como assassinato, ou pelo menos as coisas que as crianças da minha sala estavam prontas a admitir: colar na prova ou fumar cigarros furtados do 7-11. Eu não tinha feito nada daquilo! Minha confissão faria o padre rir: “Não dei tudo de mim na lição de casa”? Ou pior ainda: e se todo mundo conseguisse ouvir que eu tinha tido pensamentos sexuais com uma linguiça enrolada em papel alumínio?

A ideia de falar algo remotamente pessoal para um estranho numa caixa de madeira era incompreensível. Mas qual era a alternativa? Mentir? Mentir para um padre me transformaria instantaneamente numa pilha de cinzas! Meus pais teriam de me enterrar num aspirador de pó.

Fui escorregando no banco da igreja para perto da saída. Tinha certeza de que tinha ficado tempo suficiente para fingir que já tinha me confessado – ninguém estava prestando muita atenção; não tinham anotado meu nome numa lista; e ninguém da minha turma parecia estar dando a mínima. Então fui devagarinho para a beira da fileira até chegar perto da porta que dava para o estacionamento. Peguei meu casaco, saí, destranquei minha bicicleta e voltei para casa naquela tarde fria de primavera.

Se você é católico, pode fazer companhia ao meu irmão: ele ficou bravo porque eu não me confessei e porque no dia seguinte passei pela cerimônia da crisma com aquela mentira entalada na garganta. Me desculpe. Deveria ter dito alguma coisa. Deveria ter confessado a linguiça como pecado. Mas ali estava eu, na frente de todos, como meu pai bloqueando a saída, enquanto o padre me declarava adulta (uma adulta cujo comportamento a colocava no caminho do inferno).

Depois de oficialmente crismada, paramos de ir à igreja toda semana – meu pai disse que os bancos davam dor nas costas, mas eu acho que ele e minha mãe se sentiam com o dever cumprido. Ainda assim, apesar da minha falta de interesse em me conformar à fé dele, tinha curiosidade pelo que a fé tentava explicar. Ele mostrou que me conhecia melhor do que eu imaginava quando me deu dois livros, um sobre astrologia e outro sobre arquétipos dos sonhos e simbologia. De vez em quando conversávamos sobre nossos sonhos e o que eles significavam.

Nos aproximamos de um jeito diferente, e comecei a desenvolver uma inclinação mística. Aí, no meu aniversário de 16 anos, ele meu deu cartas de tarô. Não sei de onde ele tirou a inspiração; um católico sério jamais daria um presente herege desses para sua filha. Talvez tenha sido a maneira de ele reconhecer minha independência e me incentivar a continuar olhando além das fronteiras da fé que ambos herdamos.

Depois da morte do meu pai, encontrei alguns livros sobre budismo zen na estante dele. Acho que ele também continuou procurando.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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