MULHERES
16/09/2015 21:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

24 mulheres mostram suas cicatrizes para revelar a beleza nas imperfeições

Eu tinha apenas 6 anos quando os médicos me cortaram e removeram meu rim. Na época, eu realmente não entendia o porquê de toda aquela agitação. A gravidade da situação não me atingiu até meu pai ter de dizer adeus na sala de cirurgia. Ele me pegou e me colocou na mesa gelada de operação. Então me dei conta de que não iria ficar. Seu olhar me dizia para ser corajosa, enquanto segurava minha pequena mão.

Dezoito anos depois, ainda me lembro daquele olhar. E cada vez que olho para minha cicatriz, me lembro de ser corajosa.

É isso o que as cicatrizes fazem. Elas contam uma história. Elas nos lembram de continuar seguindo ou de respirar fundo e descansar. As cicatrizes nos lembram de um momento engraçado ou de uma batalha sobrevivida.

As mulheres podem ter relacionamentos complexos com essas cicatrizes e com as histórias que as originaram, seja caindo de salto alto, fazendo uma cesariana e até mesmo uma mastectomia.

Para destacar essas histórias e as personagens que as vivenciaram, o The Huffington Post fotografou 24 mulheres e suas cicatrizes. Algumas marcas não foram nada mais do que um momento atrapalhado, enquanto outras representam experiências que mudaram vidas, transformando mulheres em guerreiras.

Abaixo estão 24 mulheres, com suas cicatrizes e histórias. Cada mulher prova que as imperfeições podem, de fato, ser bonitas, mas muito mais do que bonitas — essas cicatrizes nos lembram como as mulheres são resilientes, adaptáveis e fortes.

Fotos: Damon Dahlen

Os médicos me disseram que eu não poderia praticar esportes com apenas um rim.

Os médicos me disseram que eu não poderia praticar esportes com apenas um rim. Meus pais chegaram à conclusão de que eu seria mais prejudicada se me tratassem de forma diferente. Foi bom, porque eu sempre fui a menina moleque mais competitiva. Minha cicatriz me lembra que de que posso fazer qualquer coisa que minha mente quiser — mesmo quando todo mundo diz que não posso. –Alanna, 24

Minhas cicatrizes são um tipo de f**da-se para o olhar masculino.

Minhas cicatrizes são resultado de uma erupção cutânea grave que tive quando criança, agravada por uma psoríase no começo da minha adolescência. Sabia que meu peito se tornaria uma área sexual, de alguma forma vinculada com um desejo generalizado e conquista feminina. Quando fui ficando mais velha, realmente aprendi a aceitá-las por aquela razão. Elas são um tipo de “foda-se” para o olhar masculino. Quer olhar meus peitos? Vai ter que olhar para elas também. --Amanda, 26

Amo minhas cicatrizes, elas são meus seios.

Amo minhas cicatrizes, elas são meus seios. Meu cirurgião respeitou meu desejo por um resultado achatado e me sinto abençoada por estar conectada e amar meu corpo incondicionalmente. Estou feliz com a estética que escolhi. Aceito essa mudança em relação ao meu corpo com positividade e graciosidade. Em uma cultura obcecada com os seios, decidir ficar sem eles, sem desculpas, sem sentir a necessidade de usar prótese; é uma escolha bonita, corajosa e de não conformação. Isso me mostrou que sou forte e centrada, confortável com minha pessoa por completo. -- Melanie, 46

Adoro minha pele negra, mas cicatrizes desanimam porque, mesmo para a pele escura, o “padrão de beleza” enfatiza especialmente uma pele perfeita.

Sou uma mulher de pele escura e felizmente nunca tive complexo sobre o tom da minha pele. Adoro minha pele negra, mas cicatrizes desanimam porque, mesmo para a pele escura, o “padrão de beleza” realmente enfatiza especialmente uma pele perfeita. Toda mulher de pele escura valorizada na mídia tem essa pele quase sem poros e sem marcas (caso de Lupita Nyong'o, Alek Wek, Naomi Campbell), e eu definitivamente não tenho. Aceitar minhas cicatrizes tem sido uma forma de aceitar a mim mesma. Sim, às vezes, vejo um vestido bonito que revela um pouco dos meus ombros, costas ou peito, e faço uma pausa. Mas sempre decido comprar o vestido se gosto e quero. Hoje em dia as pausas estão ficando cada vez mais curtas. -- Zeba, 26

Elas sempre me lembram de cuidar da minha saúde.

Meu dermatologista fez uma biópsia dessas duas verrugas quando eu tinha 15 anos mais ou menos, por considerá-las “suspeitas”, e me disse que eu deveria removê-las. Meu irmão, do qual eu não era muito próxima na época, tem as mesmas verrugas, no mesmo lugar, do lado oposto do corpo, então sempre dávamos risada de que elas eram a única prova de que realmente tínhamos alguma relação. Tenho orgulho delas e elas sempre me lembram de cuidar da minha saúde. Para ir ao médico, para fazer aqueles checkups anuais, para ouvir meu instinto. Para ser gentil comigo mesma e com o meu corpo. Há muita coisa sobre nossa saúde que está sob nosso controle. Anônimo, 24

A cicatriz me lembra diariamente de ser grata pela vida.

Estou contente por esta ser a pior cicatriz que tenho.

Esmaguei meu dedo com uma bola de boliche de 5,5kg, provavelmente 15 anos atrás. Meu dedo quase não estica, e também parou de crescer depois que foi esmagado, o que dá para iniciar uma conversa. Não mudou profundamente a maneira como me sinto, porque você não pode ver a cicatriz a menos que eu especificamente a destaque. Estou contente sobretudo por esta ser a pior cicatriz que tenho — com certeza, tenho tido sorte até agora!! --Nina, 25

Toda vez que olho para elas me dão força.

Elas são meu crachá de honra. Toda vez que olho para elas me dão força. Tenho sorte de estar viva! No começo, pensei que as cicatrizes iriam me incomodar, mas acabei aceitando-as. -- Shanna, 35

Elas me lembram que, hoje, estou bem.

Estas cicatrizes são minha prova de que enfrentei a tempestade. Por enquanto. Elas me lembram que, hoje, estou bem. Tenho muito complexo delas, mas por trás das portas, quando as vejo no espelho enquanto estou trocando ou no banho, eu realmente as amo. Elas definem uma parte integral de quem sou e como sobrevivi. -- Anônimo, 22

Acho que elas são totalmente intimidadoras e até mesmo cativantes.

Tive duas cirurgias nos pés — basicamente para remover um osso que havia crescido muito e para “normalizá-los”. Quando elas estavam mais evidentes depois da operação, era uma lembrança de que algo em mim precisou ser corrigido, e mesmo aquela pequena diferenciação na estrutura óssea me deixou deformada. Exagero? Sim. Mas as mulheres jovens são condicionadas a manter um certo ideal de beleza, e desviar daquele padrão mesmo que só um pouco pode resultar em sérias inseguranças. Agora, na remota hipótese de chamarem minha atenção, penso que são intimidadoras e até mesmo cativantes. -- April, 27

Ainda me lembro quão insensível ele se mostrava, e como eu estava traumatizada pela ideia de perder meu dedo.

Quando tinha 13 anos, estava abrindo a tampa de uma lata, e a borda da lata deslizou pelo meu dedo indicador. O corte foi tão profundo que o médico não sabia se os dez pontos iriam funcionar! Quando estávamos na sala de emergência, ele disse à minha mãe: “Vou tentar costurá-lo, mas se começar a ficar preto, traga ela aqui e vamos ter que remover a ponta do dedo”. Ainda me lembro quão insensível ele se mostrava, e quão traumatizada eu estava pela ideia de perder a ponta do meu dedo. -- Kirsten, 33

Tenho orgulho do meu corpo... ‘ela fez um ótimo trabalho ao enfrentar o tratamento de câncer’.

Minhas cicatrizes me fazem sentir como uma estrela de rock, e esta citação [da compositora Ariana] resume tudo: “Ela fez com que o quebrado se tornasse bonito e, o forte, invencível. Ela caminhou carregando o universo sobre seus ombros como se fosse um par de asas”. Cicatrizes são de um passado de notícias velhas. A pele saudável e curada me lembra que sou bonita e forte. Tenho orgulho do meu corpo, e não o orgulho que alguém precisa ostentar, mas do relacionamento que tenho com meu próprio corpo [dizendo]: ‘ela fez um ótimo trabalho ao enfrentar o tratamento de câncer’. -- Laura, 36

Acredito que minhas ambições (e saltos) estavam muito altos naquele dia.

Caí no chão ao sair do carro do meu pai a caminho da minha formatura de pós-graduação. Acredito que minhas ambições (e saltos) estavam muito altos naquele dia. Claro que não foram diminuídos. As cicatrizes me lembram de permanecer fabulosa e resiliente nas piores situações. Toda vez que olho para minhas cicatrizes, ouço a voz de Kanye West dizendo: “Você pode passar por qualquer coisa que tenha sido feita pela Mágica”. Minhas cicatrizes são prova disso. --Taryn, 23

É uma cicatriz de guerra que representa uma época na minha vida quando eu estava fazendo algo que realmente amava.

Fui atropelada por um carro enquanto andava de bicicleta no interior da Carolina do Norte. Costumava ficar muito preocupada e com vergonha. Tentava usar cremes para tratamento de cicatrizes para que desaparecesse, e por um tempo fiquei obcecada com isso, mas no final realmente acabei me adaptando. É uma cicatriz de guerra que representa uma época da minha vida quando eu estava fazendo algo que realmente amava, andar de bicicleta – Anônimo, 25.

Foi uma recompensa pelos meus lindos filho e filha.

Minhas cicatrizes são crachás de honra. Minha cicatriz da cesariana se parece com um rosto sorridente. Foi minha recompensa pelos meus lindos filho e filha. -- Mary Ann, 58

Minhas cicatrizes não afetam de forma alguma a maneira como me sinto.

Minhas cicatrizes não afetam de forma alguma a maneira como me sinto. Nossos corpos são apenas vasos que carregam nosso espírito e são um canal para que nos expressemos neste mundo físico. Sou abençoada. -- Mary Ann, 58

É uma ótima lembrança de que as imperfeições são incríveis.

Tropecei sobre uma peça da armação da cama que estava saindo no meu quarto de hóspedes quando tinha 10 anos. Normalmente esqueço da minha cicatriz, mas quando a noto, adoro, porque é no formato de um coração. É uma ótima lembrança de que as imperfeições são incríveis. -- Jessica, 25

Tenho uma relação de amor e ódio com minhas cicatrizes.

Essas cicatrizes apareceram no primeiro ano da faculdade. Cai de joelhos quando estava andando de cavalinho com uma pessoa nas costas – que pesava mais de 90 quilos. Nem sequer soltei as mãos, apenas ajoelhei no chão. Tenho uma relação de amor e ódio com minhas cicatrizes. A história sobre como apareceram honestamente me faz rir, mas me sinto um pouco boba por ter algo tão permanente causado por algo tão estúpido. – Anônimo, 22

Nem fiz 30 e já tenho duas articulações metálicas.

Quebrei meu cotovelo esquerdo duas vezes fazendo ginástica, primeiro quando tinha 9 anos, e depois outra vez quando tinha 10. Tenho sorte de que meus ferimentos não foram piores e que são resultado dos privilégios de ter um corpo saudável e dos recursos para praticar esportes. Tenho orgulho das minhas cicatrizes porque são um reflexo externo da minha coragem como atleta e membro do “clube do heavy metal”, no entanto, também me fazem pensar que tenho sido muito dura com meu corpo, sem pensar nas consequências de longo prazo. Nem fiz 30 e já tenho duas articulações metálicas. -- Alex, 28

Aceito minha queimadura totalmente agora e acho que ela é linda, intrigante e misteriosa.

Fui queimada com água fervente quando tinha 18 meses. Sempre fiquei curiosa, porque parecia tão distante para mim, como algo que aconteceu com outra pessoa, mas via a dor que causava em todo mundo, e agora, como mãe também de um bebê de 18 meses, sinto com força como deve ter sido duro para eles. Odiei minha cicatriz a maior parte da minha vida. Era grande quando eu era pequena e cobria a maior parte do meu peito. Roupas de banho e maiôs eram um pesadelo para mim. As crianças me chamavam “peito com cratera de lua” e sempre tiravam sarro de mim. Eu a escondi até os 22 anos. Pude finalmente ver que minha cicatriz era pequena. Pude ver que não era mais hedionda. Pude ver que era apenas outra parte de mim. Lentamente montei um guarda-roupa que mostrava minha queimadura. Finalmente me sentia orgulhosa. Aceito minha queimadura totalmente agora e acho que ela é linda, intrigante e misteriosa. -- Elise, 37

Elas me lembram que as aventuras não existem sem risco e que os riscos não existem sem aventura.

Esta cicatriz foi do meu primeiro acidente com um quadriciclo no México há cerca de uma década. Adoro todas minhas cicatrizes. Elas me lembram que as aventuras não existem sem risco e que os riscos não existem sem aventura. -- Logan, 24

Sinto como se fossem lembranças visíveis dos longos desafios físicos e emocionais da minha vida.

Minhas cicatrizes são parte de mim — algo com o qual tenho convivido por muitos anos. Sinto como se fossem lembranças visíveis dos longos desafios físicos e emocionais da minha vida. Quando era jovem, minhas cicatrizes me definiam. Quando adolescente, era difícil lidar com todas as emoções e restrições que acompanharam minha doença. Meu corpo cheio de cicatrizes era parte daquele pacote. Quando comecei a namorar, costumava usar a reação da pessoa às minhas cicatrizes e qualquer histórico médico como um reflexo do seu caráter, mas eu era muito complexada. Agora, mais velha, minhas cicatrizes são o menor dos meus problemas. -- Robin, 55

Minha cicatriz representa uma ferida que é emocional e também física.

Fraturei as costas num acidente de carro. A cicatriz é resultado de uma fusão vertebral torácica. Antes do acidente, era dançarina de balé, depois fiquei perdida e abalada. Minha cicatriz representa uma ferida que é emocional e também física. Sei que sou uma sobrevivente, que sou adaptável e que posso dobrar minha vontade para acomodar o caminho colocado à minha frente. -- Mara, 40

Era difícil não me concentrar nela quando olhava no espelho.

Quando tinha 13 anos, mudei da Austrália para os Estados Unidos e imediatamente fiquei doente. Uma forte erupção cutânea se espalhou por todo meu corpo, que os médicos diagnosticaram depois como herpes-zóster [cobreiro]. Quando passou, fiquei com uma profunda cicatriz no meio da testa. Quando era adolescente, sentia que minha cicatriz levava um pouco da minha “beleza”. Era difícil não me concentrar nela quando olhava no espelho. Um dia, no colégio, um garoto desagradável me disse “para usar maquiagem” para cobri-la. Acho que chorei na época. Foi desaparecendo ao longo dos anos, e agora mal pode ser notada. Tornou-se parte da minha face. Gosto de que tenha o formato de um raio. Minha mãe diz que abre meu terceiro olho. -- Melissa, 31

É uma lembrança de que podemos nos curar não importa o que aconteça conosco.

Acho que somos levados a acreditar que as coisas sem máculas, sem cicatrizes, são mais desejadas e bonitas, mas ter esta cicatriz me ajudou a perceber que minha experiência de passar por duas cirurgias de joelho, e depois por fisioterapia da minha perna duas vezes, é altamente valiosa para mim. É uma lembrança de que podemos nos curar, não importa o que aconteça conosco. Desafia nossa ideia de beleza quando desempacotamos a história e o significado da cicatriz. --Gina, 28