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10/09/2015 10:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Levy diz que brasileiro está preparado para pagar mais impostos e pede responsabilidade de todos

SÃO PAULO (Reuters) - O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, rejeitou a ideia de que o governo falhou ao não conseguir evitar que o Brasil perdesse o grau de investimento, e disse que chegou o momento

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Brazilian President Dilma Rousseff (R) and her Finance Minister Joaquim Levy, talk during the signing ceremony of a concession agreement of Rio de Janeiro State' Rio-Niteroi Bridge, at Planalto Palace in Brasilia, on May 18, 2015. AFP PHOTO/EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, rejeitou a ideia de que o governo falhou ao não conseguir evitar que o Brasil perdesse o grau de investimento, e disse que chegou o momento de todos assumirem responsabilidade pelo ajuste fiscal, para evitar custos maiores para o país.

"Eu não acho que houve falha. Existe um problema difícil e um problema que só vai ser vencido se as pessoas olharem com responsabilidade", disse o ministro em entrevista ao Jornal da Globo, da TV Globo, na madrugada de quinta-feira.

"A gente tem dado um diagnóstico verdadeiro, transparente e agora as pessoas têm que tomar as suas responsabilidades, em todos os níveis."

Na quarta-feira, a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota brasileira para BB+, retirando do país o selo de bom pagador.

O corte na nota veio 10 dias após o governo apresentar uma proposta orçamentária para o próximo ano com um déficit de 30,5 bilhões de reais, diante da dificuldades em aprovar medidas para reequilibrar as contas e da queda da arrecadação.

"Se você faz, você colhe resultados. Se ficar na dúvida, se perguntando se vai ser muito difícil, você as vezes colhe resultados que são até dissabores", disse o ministro.

Levy disse que dentro de algumas semanas, após discussões com o Congresso, empresários e a população, o governo vai apresentar medidas para reequilibrar o orçamento do próximo ano.

"A gente vai ter que fazer escolhas. Qual vai ser exatamente o imposto, quanto vai ser, quanto vai ser exatamente o corte, a gente vai conversar... e depois dessas conversas a gente vai propor. Eu acho que nas próximas semanas o governo vai ter que fazer isso com muita clareza", disse o ministro.

Durante a entrevista, Joaquim ainda disse que a população brasileira estaria preparada para pagar mais impostos:

"E também se a gente precisar pagar imposto eu tenho certeza que a população vai estar preparada para fazer isso, porque é um caminho para ter o equilíbrio, para poder crescer e a gente quer crescer para criar emprego. Se pagar um pouquinho mais de impostos e a economia crescer, você tem o imposto de volta."

O ministro também ressaltou a importância de o Congresso aprovar medidas que possam resultar em redução dos gastos do governo, como por exemplo com a Previdência.

"Se não aprova, a nossa dívida piora, o nosso crédito vai diminuir. O que aconteceu hoje (rebaixamento) vai diminuir o crédito para as empresas, vai diminuir o crédito para as pessoas. Então é preciso decidir, se a gente não tem coragem de decidir , você vai empurrando, empurrando, cada vez é mais caro de fazer."

Alta dos juros e do dólar (ainda mais)

Na avaliação de profissionais do mercado financeiro ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, o rebaixamento da nota de risco do Brasil trará forte viés de alta para o dólar e para os juros nesta quinta-feira, 10, enquanto a BMF&Bovespa tende a cair num primeiro momento.

Ricardo Lacerda, fundador do banco de investimentos BR Partners, disse que a perda do grau de investimento do Brasil "é sem dúvida o maior retrocesso da economia brasileira dos últimos 20 anos".

Segundo ele, muito do capital que costuma fugir nesses momentos de crise já saiu do País. "Mas creio que veremos pressão no câmbio e no juros. No médio e longo prazos, as consequências serão ainda piores. Como o próprio ministro da Fazenda (Joaquim Levy) antecipou, esse movimento vai gerar desemprego por muitos anos. Com isso, teremos um aprofundamento da recessão e uma dificuldade da retomada de crescimento. Basta analisar a importância do fluxo de capitais estrangeiros no último ciclo de crescimento, entre 2007 e 2013."

Para Edwin Gutierrez, gestor para o Brasil da Aberdeen Asset Managers, em Londres, os mercados brasileiros reagirão nesta quinta-feira com uma onda vendedora. Ele acredita que o rebaixamento veio antes do esperado pelos investidores. Entretanto, a possibilidade de acontecer já vinha crescendo nos últimos dias.

"Depois da entrega do Orçamento na semana passada, passamos a achar que os riscos de perder o grau de investimento ocorrer este ano havia aumentado."

Na avaliação do estrategista, a permanência do ministro Levy no cargo, mesmo após a perda do grau de investimento, faz diferença para os investidores. "Se ele sair, a onda vendedora (de ativos) será ainda mais dramática."

Crise política pesou no rebaixamento

A S&P foi a primeira a conceder ao Brasil o grau de investimento, em 2008. Agora, é também a primeira a retirá-lo. A crise econômica que o País atravessa foi, claro, o ingrediente fundamental. Mas a crise política - sem sinais de melhora diante das declarações recentes de lideranças do Congresso - teve peso importante para o rebaixamento.

"Os desafios políticos do Brasil continuam a aumentar, pesando sobre a capacidade e a vontade do governo em apresentar um orçamento para 2016 ao Congresso coerente com a correção política significativa sinalizada durante a primeira parte do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff", disse a agência no comunicado divulgado na quarta-feira, 9, no início da noite.

A S&P rebaixou o rating do Brasil de BBB- para BB+ e manteve a perspectiva negativa da nota. A perda do grau de investimento é um duro golpe para o País, depois de um trabalho de mais de uma década para conseguir esse feito, já que o País carregou por muito tempo o estigma de ter pedido moratória da dívida externa na década de 80.

A agência prevê para o Brasil dois anos de retração da economia: para 2015, a projeção é de queda de 2,5% no PIB, e, para 2016, de 0,5%. Segundo a S&P, o Brasil só voltará a crescer, ainda que modestamente, em 2017.

Em comunicado, a S&P diz:

"Acreditamos que o perfil de crédito do Brasil enfraqueceu ainda mais desde 28 de julho, quando revisamos a perspectiva do Brasil para negativa. Naquele momento, sinalizamos riscos maiores de execução para as mudanças políticas corretivas já em andamento, resultantes principalmente das dinâmicas fluidas no Congresso associadas ao alastramento dos efeitos das investigações sobre corrupção na estatal de energia Petrobrás. Nós agora vemos menos convicção, dentro do gabinete da presidente, sobre a política fiscal."

Orçamento

Para a agência, "a proposta de orçamento para 2016 apresentada em 31 de agosto incorporou mais uma revisão das metas fiscais do governo em um período curto de tempo. O orçamento proposto se baseia em um déficit primário de 0,3% do PIB, ao invés da meta revisada anteriormente de superávit de 0,7% do PIB, que havia sido anunciada em julho. Essa mudança reflete divergências internas sobre a composição e a magnitude das medidas necessárias para corrigir a derrapagem nas finanças públicas".

A preocupação é com o aumento do endividamento público. O relatório da S&P também diz que, "sem um desempenho inesperadamente melhor, a meta fiscal proposta no orçamento geraria três anos consecutivos de déficits fiscais primários e uma elevação contínua da dívida líquida geral do governo".

"Nós agora temos a expectativa de que o déficit geral do governo suba para uma média de 8% do PIB em 2015 e 2016, antes de declinar para 5,9% em 2017, versus 6,1% em 2014. Não temos a expectativa de um superávit primário em 2015 ou em 2016. Uma carga de juros elevada (e em declínio lento), tendo em vista taxas de juro elevadas e o impacto de um real mais fraco nos swaps cambiais em poder do mercado, contribui para o déficit grande", afirma.

A S&P previu que a dívida do governo, descontados os ativos líquidos (sem incluir as reservas internacionais), vá crescer para 53% do PIB neste ano e para 59% no próximo ano, de 47% em 2014.

A agência disse ainda que as perspectivas de crescimento para o Brasil são inferiores às de países em um estágio semelhante de desenvolvimento, apesar dos esforços do governo com o ajuste fiscal e a aproximação dos setores produtivos.

"Nós não vemos que estas medidas tenham melhorado o sentimento empresarial. Parece agora que o Brasil está mais longe de uma mudança para um crescimento positivo até que algumas incertezas políticas sejam resolvidas", diz a agência.

(Com informações da Estadão Conteúdo e Reuters)

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