MULHERES
07/09/2015 20:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:32 -02

Estas mulheres mostram que ser bartender não é questão de gênero

Marias do Bar: o projeto quer quer ser a porta de entrada das mulheres para os bares do País

Aos 18 anos, Gisele Aguiar já sabia qual profissão seguir. Ela terminou seus estudos, se profissionalizou e bateu de porta em porta para conseguir uma oportunidade de trabalho. Mas esta chance não vinha. Não porque não tinha talento ou força de vontade, mas porque seus potenciais empregadores se recusavam a contratar uma mulher para um cargo ocupado principalmente por homens: o de bartender.

“Pedi uma oportunidade para o dono do bar e ele não queria me contratar. Ele disse que eu não podia trabalhar [lá no bar] porque eu não conseguiria carregar barril de chope. Aí eu respondi: ‘mas seu bartender carrega um barril sozinho? Ele precisa de alguém para ajudar e eu posso ser este alguém’”, lembra Gisele.

Após ouvir muito ‘não’, Gisele conseguiu uma chance e, três meses depois, já era a gerente do bar. Isso aconteceu há 11 anos, mas até hoje é difícil encontrar mulheres trabalhando como bartenders -- profissão predominantemente masculina, tanto que há o sinônimo “barman”.

Gisele tem visto o número de mulheres aumentar desde que ela iniciou sua carreira. Mas ainda há muito o que melhorar, tanto na mentalidade do homem, quanto da mulher. Segundo ela, a imagem da mulher “frágil” e “desprotegida” ainda afasta muitas mulheres talentosas de trabalhos noturnos, ainda mais atrás do balcão. “É questão de mostrar que você é capaz de quebrar muitos preconceitos.”

Gisele Aguiar: esforço e persistência para ter a chance de trabalhar como bartender

Não só no trabalho que Gisele quebrou barreiras. No primeiro campeonato de coquetelaria de que participou, o tradicional Vive La Révolution, maior competição do Brasil promovida pela Grey Goose, ela era a única mulher a participar entre 31 competidores e ficou em 4º lugar.

Após participar de várias competições, a bartender passou por mais de dez bares badalados da região de São Paulo, virou consultora em coquetelaria e chegou a morar dois anos nos Estados Unidos para ajudar a trazer a franquia americana Tony Romas para o Brasil.

Hoje, aos 29 anos, ela tem a missão de passar essa trajetória para outras jovens com o mesmo sonho (e com as mesmas dificuldades). Ela é madrinha do projeto Marias do Bar, iniciativa criada pela empresa de bebidas alcoólicas Bacardi para profissionalizar jovens mulheres de baixa renda da região do ABC Paulista.

O projeto selecionou 15 garotas para um curso totalmente gratuito de coquetelaria, com duração de dois meses e entrega de certificado após a conclusão. As aulas, iniciadas em agosto, têm o propósito de possibilitar uma profissão de forma rápida para jovens com 18 anos ou mais.

As meninas não só aprendem a criar drinques e as regras básicas para seguir a carreira, como têm palestras sobre empreendedorismo, finanças pessoais e empoderamento da mulher. “Pensamos em tudo que seria importante para a formação delas e para serem financeiramente independentes”, conta a diretora global de Recursos Humanos da Bacardi, Raquel Alvarenga.

Primeiro desafio das meninas como bartenders foi trabalhar em um Happy Hour dentro da Bacardi

Essa era a oportunidade que Barbara Moreira estava à procura para largar o amadorismo. Aos 19 anos, ela preferiu pedir as contas do bar em que trabalhava para se dedicar ao curso, com o sonho de se tornar profissional na coquetelaria.

“O horário não batia e, entre trabalhar e ser bartender profissional, resolvi ficar com o curso”, disse a jovem. A decisão não foi fácil. Ela mora com a mãe em São Bernardo do Campo e seu trabalho ajudava nas despesas. Mesmo assim, a mãe apoiou a filha, já que provavelmente não teria como arcar com os custos do curso, além do material.

“Eu conversei com ela e ela disse que iria me ajudar. O curso dura pouco tempo e, com certeza, vão aparecer mais oportunidades depois de eu me formar", conta.

"Eu quero seguir esta profissão. Acho incrível como os bartenders trabalham, é bonito de ver. Principalmente quando a pessoa lida com o público, eu gosto bastante de entreter as pessoas.”

Depois do curso, a jovem paulista não pretende ficar parada. Ela já pensa na próxima formação e planejou seu futuro. “Depois de me formar, eu quero trabalhar na área e fazer gastronomia para abrir um restaurante ou um bar.”

Barbara Moreira sonha em trabalhar como bartender e, depois, abrir o próprio negócio

O projeto

A iniciativa é um projeto-piloto pensado e desenvolvido pelos estagiários da Bacardi. “Como a empresa já foi premiada por lutar pela igualdade de gênero, pensamos em algo que impactasse a vida das mulheres e, em consequência, toda a população da região do ABC, onde a Bacardi fica”, explica Valéria Reis, estagiária de Marketing da Bacardi e uma das líderes do projeto.

Com a ideia pronta, era hora de colocar a mão na massa — uma tarefa complicada para um grupo de dez estagiários que nunca tinham criado um curso ou tocado um projeto como esse.

O primeiro passo foi fechar parceria com o CAJUV (Coordenadoria de Ações para Juventude), projeto da Prefeitura de São Bernardo do Campo que oferece cursos gratuitos para a população desde 1998.

Com a ajuda da prefeitura, os estagiários pesquisaram os bairros e os perfis dos mais atingidos pelo desemprego. Valéria explica:

“Fizemos mapeamento dos bairros que tinham mais pessoas desempregadas, a idade e seu gênero. A conclusão foi que a maioria era mulher entre 18 e 29 anos."

Foram 25 candidatas para 15 vagas. Elas passaram por entrevistas e foram questionadas sobre a vontade de ser bartender, o que elas projetavam para depois do curso e se tinham o perfil para o cargo. “Levamos em consideração o interesse delas. Vimos que muitas já tinham emprego, mas viam no curso uma oportunidade de subir de cargo e ter uma profissão.”

Elas aprenderam a criar drinques e cuidar das próprias finanças

Este era o perfil da Eliana Garcia Paiva, de 30 anos. Desde os 16 anos ela trabalhou em restaurantes e bares, mas nunca fazendo drinques. Ela já foi recepcionista, caixa e atualmente é garçonete de um restaurante -- situação que quer mudar após concluir o projeto.

“O bar sempre me chamou atenção, só que eu não tinha nem noção de como era. Agora tive uma base”, conta Eliana.

“Eu gostaria de ir para essa área e não sair mais. Seguir uma carreira já que tem poucas mulheres.”

Para ela, esta é a porta de entrada para uma carreira mais estável. “Eu só tenho o [nível] fundamental e trabalho desde cedo. Ser bartender seria o início de uma carreira.”

Com dois filhos e morando com a mãe, ela diz que nunca teria o dinheiro para fazer o curso. Além das aulas, todas as estudantes ganharam kit completo de coquetelaria, além do material de estudo, como apostilas.

“Hoje em dia eu não teria condições para bancar um curso desses. Soube que custa cerca de R$ 800. Seria impossível."

Eliane tem dois filhos, é separada e não terminou a escola

Mulher como bartender, sim!

Frequentadora assídua do CAJUV, Giovana Ventorini se deparou com o curso de bartender. “Eu nunca vi mulher trabalhando como bartender. Eu gosto de ver mulheres em áreas não tão comuns para elas”, conta.

Aos 18 anos, Giovana tem um portfólio extenso e não mede esforços quando o assunto é trabalho. Desde os 12 anos, ela já trabalhou na loja de materiais de construção dos pais, trabalhou por quatro anos no buffett do tio, já deu aulas de ballet, aulas de circo e ainda é modelo. “Gosto de trabalhar e o dinheiro ajuda minha família”, conta a jovem que acabou de terminar o ensino médio.

O sonho da jovem é ser modelo. Enquanto essa carreira não decola, ela diz que pretende ser bartender. “Sempre me interessei por essa profissão, mas nunca tive a oportunidade de fazer um curso, ainda mais voltado para as mulheres.”

Giovana trabalha desde os 12 anos de idade e sonha em ser modelo

O interesse de Giovana por se aventurar em uma profissão dominada por homens era uma das premissas para ingressar no curso. Já na entrevista com as candidatas, a estagiária à frente do projeto, Valéria, disse que deixou claro as prováveis dificuldades da profissão.

“A gente explicou que as pessoas que estão do outro lado do bar ainda não estão acostumadas a ver mulheres fazendo os drinques. Deixamos claro que, às vezes, a mulher acaba recebendo cantadas. Isso é que precisa ser superado.”

A ideia do projeto gira em torno do empoderamento da mulher.

“Como a profissão de bartender não é regularizada, não há dados oficiais sobre isso. Mas, conversando com os donos dos bares parceiros da Bacardi e pesquisando o número de mulheres inscritas em competições de coquetelaria, percebemos que há uma percepção muito grande de que não há mulheres na área”, afirma Valéria.

Segundo ela, apenas 4% das inscrições de campeonatos como o Viva La Révolucion são de mulheres.

Mercado de coquetelaria também é para as mulheres

Além disso, diz a estudante, hoje nenhuma marca do setor de bebidas alcoólicas levanta a bandeira da mulher na coquetelaria. “A gente quer mostrar que a mulher pode entrar em qualquer mercado.”

Mas bancar essa causa não é pra qualquer um. Gisele, a consultora de coquetelaria citada no início desta reportagem, confessa que trabalhar atrás do balcão é uma decisão que precisa ser levada a sério, já que geralmente a mulher vai voltar para casa muito tarde e, eventualmente, pode ser desrespeitada pelos clientes.

Outra barreira que as mulheres enfrentam é o preconceito por parte do mercado. Para ter certeza de que as estudantes do curso teriam oportunidades, o projeto Marias do Bar recorreu novamente aos bares parceiros para garantir vagas de estágio após a conclusão do curso. “Conversamos com eles para saber o nível de aceitação. Alguns comentaram que precisam de mulheres e que não encontram no mercado.”

Segundo a diretora global de Recursos Humanos da Bacardi, o projeto não só quer inserir estas mulheres no mercado de coquetelaria, mas também aumentar a aceitação dos bares, mostrando que há “barwoman” tão competente quanto o “barman”. E o melhor: pronta para trabalhar.

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